As palavras que descem da Serra:  Afrodite de Isabel Allende

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Hoje da Serra escorrem palavras adequadas à estação agora encetada. O Outono é por excelência um tempo de acumulação. É nesta estação que os frutos pecaminosamente doces e lambuzadores surgem; as uvas, os diospiros, as tangerinas e todas as suas primas. O gin, a cerveja e os vinhos frios do Verão adormecido são substituídos por vinhos mais acalentadores, quiçá por umas gotas de algo mais forte, um porto aquecido entre mãos ao embalo de uma boa conversa em frente a uma lareira que o fresco chama. As frugalidades estivais dão lugar a pratos mais consistentes que saciam corpo e alma. É (para muitos!!!!)  uma estação telúrica, sensorial. Por sentir assim o Outono lembrei-me de uma obra deliciosa, na imediata acepção do termo, pois remete-nos para o mundo das sensações mais elaboradas da nossa espécie, o paladar e o erotismo/sensualidade. Sendo bem conduzidos ambos propiciam viagens de prazer intenso. Hoje da Serra sai Afrodite, obra de uma das sul americanas mais famosas, Isabel Allende. O nome em si é já um peso pesado, que nos remete para Salvador Allende primo direito de seu pai, mas em cima deste apelido Isabel consolidou uma obra forte, acutilante, apaixonada, inserida no realismo mágico dos sul americanos, de que Garcia Marquez é um ícone incontornável. Afrodite, a par com as obras juvenis que escreveu para os netos, é de uma leveza deslumbrante.

 Afrodite, Histórias, Receitas e Outros Afrodisíacos

“Os cinquenta anos são como a última hora da tarde, quando o Sol já se pôs e nos inclinamos naturalmente para a reflexão. No entanto, no meu caso o crepúsculo leva-me a pecar e, talvez por isso, aos cinquenta reflicto sobre a minha relação com a comida e o erotismo, as fraquezas da carne que mais me tentam, embora, helas, não tenham sido as que mais pratiquei.”

“Arrependo-me das dietas, dos pratos deliciosos rejeitados por vaidade, tanto como as ocasiões de fazer amor que deixei passar por estar ocupada em tarefas pendentes ou por virtude puritana. Passeando pelos jardins da memória, descubro que as minhas recordações estão associadas aos sentidos. A minha tia Teresa, a que se foi transformando em anjo e morreu com indícios de asas nos ombros, está para sempre ligada ao cheiro dos rebuçados de violeta.”

SINOPSE

Depois dos dois excertos do texto pouco mais se pode acrescentar. Isabel Allende com as suas vivências e as histórias das gentes da sua vida vai enchendo páginas e vai-nos prendendo a elas. Os sentidos são a marca mais evidente desta escrita que, para quem está familiarizado com a sua obra, assombra pela inocência e leveza. Eles, os sentidos, e as diferentes formas de os excitar, são as personagens principais, sendo que à volta deles surgem factos históricos (alguns escabrosos como a visita de Cleópatra a Roma com o filho que engendrou com Júlio César, em nítida provocação à legitima) temperados com acontecimentos divertidos da actualidade e excelentes conselhos para amantes e candidatos ao posto.

Vai-nos falar sempre de prazeres que podem vir de cima de uma mesa ou de entre lençóis, ou, o mais frequente, dos dois. Vai-nos obrigar a soltar sonoras gargalhadas. Vai-nos falar de ninfas, bruxas e faunos travessos, de afrodisíacos e nem por isso. É um livro que se recomenda “às mulheres melancólicas” e aos homens para que a “tentação continua mas a execução falha”. Pessoalmente recomendo a todos os que acreditam no Inferno e sabem da importância da confissão para lhe escapar, aos que não conhecem estes atalhos é melhor nem pensar no assunto pois correm sérios riscos de arder por toda a eternidade e mais uns dias.

No final apresenta um conjunto de receitas elaboradas pela sua mãe- Panchita Llona- e testadas por voluntários do seu ciclo de amizades.

Boa semana, com livros!