Editorial – Quando for velho

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Desde 1991, a ONU instituiu o 1 de outubro como o dia internacional da pessoa mais velha. Mais um passou, este ano num contexto de agudizada vulnerabilidade e periclitante esperança. No mundo e no país, como no nosso território do concelho de Penacova.

Começar por uma palavra de reconhecimento às IPSS’s, às famílias e aos cuidadores informais, sempre mas nomeadamente na inusitada circunstância que vivemos, pelo modo como a situação pandémica tem sido gerida, no que ao mínimo diz respeito – ausência de casos/surtos – é uma imposição de justiça. Não aproveitar, ainda assim, esta oportunidade para refletir em profundidade e assumir o cuidado dos nossos velhos como um desígnio prioritário é algo que hipoteca irremediavelmente o futuro coletivo e diz algo do que ainda não somos como civilização.

Atente-se no ‘estado da arte’: o concelho de Penacova possui 6 ERPI’s [Estrutura Residencial para Pessoas idosas], com configurações distintas na sua personalidade jurídica; existe ainda uma UCC [Unidade de Cuidados Continuados] privada; as entidades que prestam serviço de apoio social oferecem também resposta de Centro de Dia e de Apoio Domiciliário; o serviço de Ação Socia da Câmara Municipal, além de assumir a coordenação da chamada Rede Social [que acrescenta entidades às anteriormente aludidas], assume a iniciativa de algumas atividades, como o Passeio Sénior, a Matiné Dançante e a comemoração de dias específicos, onde se inscreve, em condições normais, o referido 1 de outubro.

Na fria análise estatística, podemos ser tentados a concluir que a taxa de cobertura do território do Concelho responde às necessidades da comunidade, dado que cerca de 800 pessoas serão diariamente servidas pelos cuidados de entidades vocacionadas para esse efeito.

Tomo, mesmo assim, a liberdade de iniciar um contributo modesto para o desassossego social com uma pergunta: há quantos anos não atraímos para Penacova um projeto inovador e diferenciado na área do cuidado social dos mais velhos? A ADELO tem no terreno, em parceria com o Município, uma plataforma que acrescenta valor e que temos que acreditar que dará fruto. Mas há mais?

Pelo lado positivo, temos de reconhecer com gratidão que o que já temos é algo de qualitativamente superior, quando comparado com o que tínhamos. Esta constatação não pode, ainda assim, tolher a nossa capacidade de interrogar a adequação desta resposta ao presente, nem sobretudo de questionar a sua capacidade de antecipar o futuro. Pessoalmente, quando for velho, sonho com mais e melhor. Como queremos ser tratados quando formos velhos? Mais do que ao presente é a esta pergunta, no futuro e em primeira pessoa, que temos que responder. Porque vai chegar a vez daqueles que agora têm responsabilidade de coordenação.

O predomínio do paradigma do ‘armazenamento’, com uma conceção hoteleira e hospitalar das instituições, não parece ser um caminho de futuro. No passado, oferecer um espaço com conforto bastava para se distinguir em qualidade do modo de vida do destinatário típico das nossas instituições. Hoje começará a ser insuficiente. No futuro será um anacronismo. Falta pensar o cuidado da inteireza da pessoa.

O minimalismo do serviço de apoio domiciliário, centrado nas refeições e na higiene [com uma honrosa exceção, onde se oferecem atividades de animação/estimulação] rapidamente deixará de ser uma resposta que promova a autonomia e a dignidade da pessoa. Regra geral, contando com o ‘híbrido’ que é a resposta de Centro de Dia, é o que temos.

Onde se pensa e estuda a realidade do envelhecimento no Concelho de Penacova? Um exemplo concreto: num colóquio sobre geriatria, realizado a 31 de outubro último, dentre múltiplas comunicações, foram apresentadas a plataforma Ageing@Coimbra [congrega ‘atores’, sobretudo da região centro, ligados à questão do envelhecimento] e a rede europeia SHAFE, ligada à criação de ambientes saudáveis, inteligentes e amigáveis [da idade], que em Portugal é coordenada pela Cáritas Diocesana de Coimbra; quantas entidades privadas e/ou públicas de Penacova fazem já parte destas duas redes? Trata-se de estar, a custo zero, sentado à mesa a aprender o melhor que se faz no país e no mundo. Se se acrescentar a isto o ‘MIA- Portugal, Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento’, um avultadíssimo investimento que terá sede na Universidade de Coimbra, percebe-se cabalmente como podemos [haja vontade e decisão] estar posicionados no eixo da maior reflexão de ponta neste domínio.

O estatuto do cuidador informal, recentemente regulado, aponta para um âmbito que ocupa um espaço quase nulo na nossa agenda social local. A institucionalização formal, tal como a conhecemos, não será certamente a única resposta social no futuro próximo. E as famílias não são sobretudo clientes das instituições, mas parceiras.

Os idosos ainda ‘não institucionalizados’ têm de ser preocupação [desde já] daqueles que ainda são os agentes de cuidado social por excelência, as IPSS’s. Estas não podem ser ‘ilhas’ no espaço territorial onde se inserem, desligadas do todo da sociedade, como se uma resposta social competente pudesse prescindir da dimensão social da pessoa a que se destina. Tanta sinergia criativa desperdiçada, com Escolas, Associações Culturais, Clubes Desportivos, Paróquias…

A Comissão de Proteção de Pessoas Idosas, com regulamentação própria, ainda não é uma realidade no nosso Concelho. Lamentavelmente, não estamos em condições de saber se a ausência de dados de maus tratos aos mais velhos resulta da ausência de problemas. Convém não esquecer que não tratar bem é mais que violência física ou carência de bens essenciais.

O lugar da tecnologia no cuidado social dos mais velhos é [ainda] um entrave, fundamentalmente para os responsáveis. Há tempos, por insistência de um técnico de uma empresa estranha, vi uma pessoa utente, dada como incapaz, usar um dispositivo informático, em frente da atitude negacionista da técnica que o acompanhava. A revolução digital em marcha é imparável e não há argumento que justifique a sua não integração desde agora, com a mais vanguardista tecnologia, no dinamismo do cuidado social amplo dos mais velhos.

Envelhecer é um processo que se inicia com o nascimento e um desejo de toda a pessoa. Talvez, por fim, valha a pena integrar esta realidade no processo educacional. Não basta o esforço pelo seu retardamento, mais cosmético e estético que outra coisa, porque o seu advento é uma inevitabilidade. Envelhecimento e morte são realidades tão naturais como a vida. Importa, por isso, resistir à patologia do ‘escondimento’ e aprender a conviver inteligente e saudavelmente com tais realidades.

Luís Francisco Cordeiro Marques