História(s) mal contada(s) – Afinal não foi só o coxo que foi para o maneta

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Tendo a semana passada sido marcada pelos 210 anos da batalha do Bussaco e pelo tema geral das Invasões Francesas, lembrei-me duma  história que se conta para os lados da Casconha. Diz-se em S. Pedro de Alva que, quando a vila foi saqueada pelas tropas da 3ª Invasão  Francesa, toda a população conseguiu fugir para local seguro, escondendo todos os bens que foi possível e abandonando as casas. Chegados os invasores, terão encontrado apenas um homem, que por ser coxo, não conseguiu escapulir-se a tempo. Forçado a revelar  onde estavam escondidos alimentos e objectos preciosos, acabou por ser barbaramente assassinado. E, apesar deste triste desfecho, apenas uma casa teria sido incendiada. Mais uma lenda? Só pode ser.

Basta consultar documentos da época para o concluir. O relatório do Arciprestado de Sinde (que na altura incluía S. Pedro de Alva) redigido em 9 de Maio de 1811, em cumprimento do Aviso Régio de 25 de Março, é bem claro. Na freguesia de Farinha Podre foram assassinadas vinte e cinco pessoas: dezasseis  homens e nove  mulheres. Também as casas destruídas pelo fogo, em toda a freguesia, foram trinta. O arcipreste de Sinde, que era pároco de Midões, deu-se ao pormenor de elaborar “um mapa fiel e resumido” em forma de tabela, mencionando os estragos, os incêndios, os mortos, o número de mulheres violadas, tudo discriminado com nomes de pessoas e de lugares. Neste documento há também referência às freguesias de Paradela, Oliveira do Cunhedo, Travanca de Farinha Podre e S. Paio de Farinha Podre.

Em Farinha Podre (sede) foram assassinados 3 homens e 3 mulheres e queimadas 11 casas.  Em Hombres, 5 homens e 3 mulheres e 10 casas destruídas. Em Laborins, 2 homens. No Carvalhal, 1 homem. Na Parada, 2 homens e 1 mulher. Em Vale da Vinha, 1 mulher. Na Ribeira, 2 homens. Na Cruz do Soito, 1 homem. No Silveirinho, 1 mulher. Imaginem-se as horas de angústia e de terror em S. Pedro, em S. Paio e em toda esta região. Além dos  25 mortos registados é bom não esquecer que, em virtude dos maus tratos sofridos, mais pessoas “foram para o  maneta”.

Perdoem-nos a expressão. É que, não sei se sabem, ela tem origem precisamente nesta época. Para não perdermos mais tempo, espreitemos o que diz a Wikipédia: “Durante a primeira invasão francesa, Loison [Louis Henri Loison] tornou-se famoso em Portugal pela sua crueldade, torturando e matando numerosas pessoas. O general francês perdera um braço, num acidente de caça, tendo, por essa razão, ganho a alcunha de o maneta”. E é assim que no imaginário popular a expressão “mandar ou ir para o maneta” significa, ainda hoje, já não tanto “ir para a tortura ou para a morte” mas “destruir”,  “dar cabo de alguém ou de alguma coisa”.

David G. Almeida