Vinharia do Mondego – Laranjas não fazem vinho

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Provavelmente o leitor já terá ouvido as expressões “vinho laranja”, “branco de curtimenta” ou até mesmo as expressões “orange wine” e “skin contact white wine”. Queira saber que se trata tudo do mesmo tipo de vinho e que a sua relação com o laranja é relativa apenas à sua cor, não ao fruto.

Estas expressões referem-se ao método de produção deste vinho, que nada tem de moderno ou inovador. Tudo se resume à curtimenta, ou seja, ao contacto entre o sumo e a pele da uva durante a fermentação. Este potencia a extração de aromas, taninos e cor das películas e que poderá ser alongado ao período pós-fermentativo, dependendo do perfil que cada produtor deseja para o seu vinho.

A curtimenta é o método tradicional para a produção dos vinhos tintos, dado que quando se fermenta mosto de uva tinta sem o contacto com as suas películas, este torna-se num vinho branco, conhecido como Blanc de Noirs (branco de tintas), muito típico na produção de espumantes de Baga na Bairrada e também em Champanhe com a casta Pinot Noir.

Não é justo falar em vinhos laranja sem falar em Josko Gravner, enólogo italiano consagrado baseado em Friuli. Foi ele quem trouxe de volta a tradição deste tipo de vinho. Durante a década de 90, arrancou as vinhas que tinha com mais de 60 anos de Chardonnay e plantou Ribolla Gialla, uva nativa da região. Comprou ânforas e enterrou-as como a tradição georgiana de fazer vinho com 8000 anos. Passou a fazer longas macerações nos vinhos brancos que, atualmente, ficam quase sete meses na ânfora. Foi muito criticado na altura porque os vinhos pareciam oxidados e o gosto que tinham não era entendido. Como tinha a certeza do caminho escolhido, continuou e hoje em dia os seus vinhos são uma referência a nível mundial.

“A água da nascente é sempre a mais pura. No caminho, o homem contamina esta água com todos os disparates e decisões erradas que toma. O que tento fazer é manter os meus vinhos o mais próximo possível desta nascente, que é a uva e a terra de onde ela vem”.

Josko Gravner

Podemos então concluir que um vinho laranja é um branco feito como um tinto, que apresenta uma cor âmbar e até algum tanino. Numa prova cega e servido num copo escuro, podem enganar os provadores mais astutos, passando muitas vezes por vinhos tintos. Dada a sua enorme estrutura, podem harmonizar com queijos de pasta dura, peixe no forno, carnes brancas, caça de penas ou até sobremesas.

A sugestão desta semana vem de Trás-os-Montes: Alto do Joa Branco 2017. Produzido na aldeia de Parada de Infanções, perto de Bragança e em pleno planalto mirandês. As vinhas são muito velhas, plantadas em solos xistosos a 700 metros de altitude, em pé franco e com cerca de 20 castas nativas. É possível encontrar diferentes castas numa única cepa devido aos processos tradicionais de encepamento e enxertia. Este vinho resulta dessa diversidade, de aroma complexo com notas minerais e que na boca se revela fresco, seco e longo. Como o próprio produtor refere “um excelente vinho de guarda se resistir à tentação de o abrir agora”. Um vinho que faz parte da carta de vinhos do restaurante onde trabalho, e que harmoniza de forma soberba com uma das sobremesas: marmelo assado, posset de limão e granola.

Ricardo Ferreira 

Ricardo Ferreira é um jovem escanção, natural de Penacova e, atualmente, é responsável pela carta de vinhos do Rossio Gastrobar do Altis Avenida.