Ilustres (Des)Conhecidos: Joaquim de Oliveira Marques (1905-1976)

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Uma vida dedicada à Educação e ao Ensino, enquanto Professor em Lorvão e em Figueira de Lorvão e Delegado Escolar do concelho de Penacova. Estando em construção o Centro Educativo de Figueira de Lorvão, associamo-nos a um grupo de penacovenses que gostariam de ver o nome deste figueirense ilustre atribuído a este novo complexo escolar. Joaquim de Oliveira Marques ocupa, também, um lugar de destaque na história da imprensa local, na medida em que durante mais de  quarenta anos foi colaborador e director do “Notícias de Penacova”.

Joaquim de Oliveira Marques nasceu no lugar de Telhado no dia 6 de Agosto de 1905. Era filho de Antonino José Marques e de Rosária Marques de Oliveira, proprietários agrícolas. Quarto filho (dos cinco) deste  casal de católicos praticantes, ainda frequentou o Seminário mas não seguiu o sacerdócio. Quem viria a ser padre seria o irmão, Manuel Marques (já referido nesta rubrica) que foi Pároco de Penacova, capelão do Preventório e cronista do “Notícias de Penacova”.

Depois de ter estudado no Colégio Figueirense, fez o Curso do Magistério Primário, que concluiu em 1939 em Coimbra. Iniciou a carreira docente na Escola Masculina de Lorvão, para onde se deslocava de bicicleta. Aí trabalhou durante a década de quarenta, passando depois, até à data da reforma, para Figueira de Lorvão.

Em 1939 casou com Cândida dos Santos Madeira, professora na Escola Feminina de Gavinhos. Desta união nasceram Maria da Piedade e Maria Helena, futuras professoras bem conhecidas dos penacovenses.

Assumiu, em acumulação, o cargo de Delegado Escolar, ocupando o lugar do Prof. José Maria dos Santos, de Sazes. Funções que viria a desempenhar até à década de setenta, quando se aposentou. Na época as Delegações Escolares não dispunham, regra geral, de instalações próprias. Na sua casa tratava de todos os assuntos, recebendo com afabilidade as pessoas que, muitas vezes, ali iam requerer o certificado escolar. Em Maio de 1975 foi homenageado por todos os “Agentes do Ensino do Concelho de Penacova”, conforme gravação feita na salva de prata que lhe foi oferecida na ocasião. De referir ainda que leccionou Cursos de Adultos para obtenção do 2º grau, adaptando os horários à disponibilidade dos candidatos a exame.

Mas as suas preocupações com a educação das crianças e dos jovens extravasaram muitas vezes o espaço escolar. Além de ter sido catequista, quando era jovem, foi um dos impulsionadores do Asilo de Nossa Senhora do Rosário, instituição que depois de uma fase de apoio geral aos necessitados, passou a receber crianças filhas de famílias carenciadas. Para ocupação dos tempos livres, organizou junto da sua residência um Centro Extra-Escolar, com biblioteca, jogos de mesa e ping-pong.

Para a prática do futebol conseguiu um terreno perto do que é hoje o União Futebol Clube. Um campo, pequeno e de terra batida, mas que terá sido o embrião do futuro Clube. O seu genro, Dr. Francisco Azougado da Mata, deu continuidade a esse projecto que cresceu e chegou aos nossos dias.

Foi elemento activo da Acção Católica Masculina e membro do Grupo Coral Litúrgico e, dado o seu espírito conciliador e sentido apurado de justiça, exerceu as funções de Juiz de Paz.

“Uma vida plena, entregue à causa da Educação, e a tantas outras”, reconhece quem com ele privou de perto, ou não fora Joaquim de Oliveira Marques  um “cidadão consciente e activo na Sociedade.”

Falemos agora da sua indelével marca no domínio da imprensa escrita. Pessoa inteligente, culta e activa, começou a colaborar no “Notícias de Penacova” pouco depois de o mesmo ter vindo a lume em 26 de Março de 1932. A rubrica “Nota da Semana” foi por ele assumida durante muitos anos, além de assinar muitos outros artigos publicados naquele jornal.  Por volta de 1943 assumiu as funções de Director, dedicando muitas horas do seu tempo de descanso profissional, escrevendo artigos de fundo, recolhendo notícias do concelho e do país, fazendo a revisão de textos, muitas vezes enviados com a maior das boas vontades mas escritos por pessoas com poucas habilitações académicas.

Foi Director até 1974, quando foi “convidado a cessar funções”. No entanto, de modo algum estava agarrado ao cargo. Se lermos com atenção um artigo que escreveu em 1971, compreenderemos melhor o seu desabafo público a seguir ao seu “saneamento”. Dizia em 13 de Novembro daquele ano: “ Os leitores sabem que nem sempre a intervenção do jornal, em favor do que faltava, foi recebida com aquele espírito aberto e compreensivo das entidades [concelhias]. (…) Sempre que reconhecemos oportuno chamar a atenção  de quem de direito para problema candente, não hesitei”. E prossegue: “O jornal tem de procurar a verdade e a justiça sejam eles favoráveis ou desfavoráveis à esquerda ou à direita. Tem de viver independente, sem subordinação a qualquer facção. Tem procurado fazê-lo. Mas porque a hora de verdadeira união de todos os penacovenses tarda, vai-me faltando o  ânimo para continuar o bom combate de unir.” Reconhecendo que era tempo de passar o testemunho, escreveu ainda: “Espero, por isso, a melhor oportunidade para que apareça  alguém que arcando com todas as responsabilidades do “Notícias de Penacova” consiga o que ao longo deste tão longo espaço de tempo eu não consegui.” Alguém que “queira tomar nas mãos o leme deste barquito que é agitado por ventos de todos os quadrantes”. (…) Sinceramente desejo que ao entrar nos seus 40 anos o NP tenha novo timoneiro. Vento fresco, sangue novo. É tempo.”

Ninguém se chegou à frente. Veio o 25 de Abril. Nas colunas do jornal, despediu-se dos leitores, em 13 de Julho de 1974, começando por dizer que “seria ingratidão que ao cabo de 42 anos de contacto com o povo do concelho de Penacova por intermédio do seu jornal”, que procurara “servir desinteressadamente” e com “grande sacrifício”, se afastasse “sem uma palavra de agradecimento pela forma amiga e colaborante” que recebera naquele longo percurso. “Porque saio?” – pergunta. “Porque a vontade, no máximo de 2% da população do concelho, reunida na manifestação democrática do 1º de Maio, no salão dos Paços do Concelho, elegeu novos elementos para gerir os destinos do concelho”. E recorda: “Estas autoridades eleitas, pouco depois de ter aparecido o jornal de 3 de Maio, em que se dava conta do Movimento do 25 de Abril e onde se defendia a doutrinação da J.S.N. [Junta de Salvação Nacional], impuseram à Comissão Fabriqueira da Igreja de Penacova a minha saída!”. E, certamente, com grande mágoa, concluiu: ”Procurei sempre que o jornal servisse o povo. Saio, pois, com a consciência tranquila”.

Vitimado por uma doença “rara, incurável e progressiva, que lhe retirou pouco a pouco os movimentos, inclusive a fala” – recordam os familiares – faleceu no dia 25 de Fevereiro de 1976.  O “Notícias de Penacova”, dirigido então pelo Padre Manuel Alves Maduro, dirá de Joaquim de Oliveira Marques que “um dia, já doente e sem forças, fraquejou e entregou, com as lágrimas nos olhos, a sua pasta de escritor.”

A missa de corpo presente foi concelebrada por sete sacerdotes, um dos quais fora seu aluno, o Padre Arménio Marques, na altura pároco de Figueira de Lorvão e dali natural. Naquele dia 27 de Fevereiro de 1976, durante o Cortejo Fúnebre, abateu-se sobre Figueira de Lorvão uma forte chuvada. Conta o jornal que alguém terá exclamado:

”Esta chuva não era esperada. Isto são lágrimas do Céu em homenagem a este homem bom da nossa terra”.

David G. de Almeida