As palavras que descem da serra: O Paraíso na Outra Esquina de Mario Vargas Llosa

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Hoje da Serra correm as palavras de um prémio Nobel (merecido!!!). Depois de Saramago, para mim, este foi, desde então, o melhor. Em relação ao saído da Academia Sueca esta semana sou ignorante e provavelmente vou continuar a ser…

Mario Vargas Llosa, vencedor do premio Nobel em 2010

“Tinham-se visto, tomando chá juntas, passeando de fiacre por Neuilly, e Flora, ao contar-lhe as suas experiências conjugais com André Chazal, fez humedecer os ardentes olhos da amiga. Confessaste-lhe que, desde o teu casamento, tinhas sentido sempre uma repugnância instintiva pelo acto sexual, e que, por isso, nunca tiveras um amante. Com infinita delicadeza e doçura, Olímpia, beijando-te as mãos pediu-te que lhe deixasses mostrar-te quão doce e grato podia ser o prazer entre duas amigas que gostavam uma da outra. Desde então, quando se cumprimentavam ou se despediam, procuravam os lábios uma da outra.”

O Paraíso na Outra Esquina

SINOPSE

Mário Vargas Llosa é um escritor peruano que nos habituou a romances extremamente densos em que os sentimentos humanos são destilados de forma a aparecerem em todo o seu esplendor. Nesta obra, que data de 2003, vamos assistir ao percurso de vida de duas figuras grandiosas que, cada uma do seu modo, usaram a vida para procurar o paraíso.

O titulo da obra remete para um jogo em que as crianças buscam O Paraíso, “-é aqui o paraíso?- não menina é na outra esquina:”, que está sempre noutro sitio, nunca naquele a que se chegou.

O narrador perde-se em conversa íntima com as personagens numa cumplicidade que nos obriga e entrar nas vidas delas, a sentir o que sentem, a ter os mesmos medos, as mesmas incertezas, mas também as certezas ou as alegrias.

 O Paraíso na Outra Esquina é um romance baseado nas biografias de duas grandes personagens Paul Gauguin, pintor pós-impressionista francês, e a sua avó materna Flora Tristan, escritora franco peruana defensora dos direitos das mulheres. Ambos se destacaram por querer um mundo melhor embora os esforços de cada um tenham sido canalizados para extremos opostos. Flora procurou criar um mundo em que ninguém dominava e em que todos trabalhavam para o bem comum (socialismo utópico). O seu neto procurou regredir até um estado de liberdade total só possível num mundo em que a sociedade não pudesse exercer o seu poder castrador sobre o indivíduo.

A carga erótica deste livro é tremenda, bem ao estilo de Vargas Llosa. Para Flora o sexo surge como algo repugnante, em que o macho domina a fêmea e lhe retira todos os resquícios de dignidade. Para Gauguin o sexo funciona como libertador de tal forma que vai procurar a pureza de costumes nas ilhas Polinésias. Nesses cenários paradisíacos tenta encontrar motivos para a sua arte que ainda não tenham sido contaminados pela podridão europeia, procura liberdade. Para além desta procura a obra também nos dá conta da fuga do pintor em relação à sua família, e à sua doença pois o seu estilo de vida prendou-o com sífilis (doença muito reprovável aos olhos da sociedade católica). Na Polinésia encontra uma liberdade de costumes (liberdade sexual incluída) que lhe permitem pintar várias obras-primas, conhece uma sociedade em que a homo, a bi e a heterossexualidade são naturalmente aceites. Também Flora, que move uma luta sem quartel aos homens dominadores, descobre o amor e o carinho noutra mulher, amor esse que nunca conseguiu encontrar num indivíduo do sexo oposto. Pela sua voz ficamos com uma ideia muito precisa do significava ser mulher no séc. XIX, da forma ignóbil como eram tratadas (pelos homens e pelas mulheres), sem direito a opinar /decidir sobre nada incluindo a própria vida e a dos filhos.

Boa semana, com livros!