Acerca dos incêndios de outubro de 2017…

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Faz hoje 3 anos e eu nunca me pronunciei publicamente sobre esta situação, mas chegou o momento de fazê-lo.

Esta decisão de me pronunciar foi bastante ponderada e tenho plena consciência que, após a mesma haverá algumas pessoas a olhar-me com outra perspetiva e, talvez, a revoltar-se comigo. Contudo, sinceramente já não me importo, porque há 3 anos que aguento esta revolta dentro de mim e não consigo mais…

Ninguém sabe o meu sofrimento e dor ao longo destes tempos. E além disso todos temos (ou devíamos ter) liberdade de expressão…

Depois de reavivar a memória tantas e tantas vezes, desta ferida que não sara, não consigo tolerar mais a dor que vai dentro de mim… Dentro de mim e dos meus avós.

Mas, antes de mais, agradeço a todos aqueles que nos apoiaram naquilo que lhes foi possível. Agradeço por me terem ouvido e, algumas pessoas, ainda terem visto as minhas lágrimas de desamparo.

Porém, também tenho de lamentar… Lamentar que nem todos tenham compreendido a situação da casa dos meus avós.

A verdade é esta e não há (nem havia) como contestar. Os meus avós estavam a viver comigo na casa que era da minha mãe, à data dos incêndios de outubro de 2017. Nunca, mas nunca escondi isso, nem era minha intenção fazê-lo (e como poderia fazê-lo, se toda a gente nos conhecia?), embora para minha grande tristeza e lamento, algumas pessoas tenham insinuado isso. Agora expliquem-me porque até hoje não consigo compreender, como poderia eu esconder isso? Ou melhor, conhecendo-me quem me conhece bem, acham que seria capaz de mentir numa situação como esta? Nunca fui injusta com ninguém (ou pelo menos nunca tentei sê-lo!).

No momento de candidaturas aos apoios, senti-me desamparada… Estava no último ano
de licenciatura do meu curso, com “cadeirões” do curso para fazer… Montes de matérias a estudar, montes de livros e montes de sebentas… E montes de papeladas que me impuseram tratar (não julgo ninguém, porque vivemos num país de elevada burocracia e as papeladas são sempre extremamente necessárias). Estive como muita gente, sem luz, sem net, sem motivação… Com uma tristeza tão grande dentro de mim, constantemente avidada pelo odor intenso a queimado e pela vista cinzenta e vazia (onde antes só se via a natureza viva e verde)… Toda a gente naqueles dias estava também vazia, de rastos, sem força e sem esperança.

Praticamente todos os dias passava (e ainda hoje passo) à porta da casa dos meus avós. E a ferida não sara. O telhado está destruído, a estrutura da casa cedeu e está toda rachada, os móveis que não arderam por completo estão podres, rachados, cheios de bolor e partidos (apesar das minhas tentativas em cobri-los com plásticos, para na minha inocência poupar o que ainda era possível restar… Querendo ignorar que, na verdade, não restaria nada).

Os escombros ainda lá estão… No chão e no meu coração.

Muitas pessoas viraram-me as costas… Pessoas que nunca imaginei. Pessoas em quem confiei e que até apoiei noutras ocasiões. Muitas diziam-me na cara e, outras nas costas, que a casa dos meus avós merecia estar assim. Porque dizem isso? Já se colocaram no nosso lugar?

Então, eu vou explicar a nossa posição e tudo o que passámos, para quem não consegue colocar-se no nosso lugar e entender o nosso sofrimento…

Os meus avós nunca mudaram a sua morada fiscal! A morada deles sempre foi e continua a ser a mesma!

A casa dos meus avós tinha ainda lá todas as coisas dos meus avós. Todas! Uma vida de trabalho. De sofrimento. Uma vida que os fez ir para outro país durante anos para arranjar dinheiro para construir o maior sonho deles: a casa deles em Portugal.

Um sonho que foi erguido com muito sacrifício e agora está em ruínas.

Os meus avós tinham unicamente as roupas que usavam diariamente em minha casa. Tudo o resto estava na casa deles. A casa dos meus avós tinha muita tralha é verdade… Mas era tralha deles e estava no terreno deles. E não estava toda organizadinha. Mas estava arrecadada. Seria isso motivo suficiente para levar as pessoas a dizer que era bem feito ter ardido?

Havia um quintal na casa dos meus avós… Um quintal que às vezes tinha as ervas um pouco maiores, porque os meus avós são idosos e não podem fazer esforços para cuidarem do seu quintal e porque também não podem gastar constantemente o seu dinheiro a pedir para andarem de semana a semana a cortar a erva. Mas vocês cortam as ervas todas as semanas dos vossos quintais? Sempre! Saliento, Sempre! Sempre que eu mandava cortar as ervas grandes da casa onde estava e estou, pedia sempre para que a pessoa fosse cortar as ervas ao quintal dos meus avós.

Pergunto-vos, é motivo suficiente para dizer que foi bem feito a casa ter ardido?

Mais… Pergunto ainda se é motivo para ir fazer queixa de que a casa estava cheia de silvas e que tinham fotos a comprovar (tiradas ainda antes do incêndio, supostamente)? Quem deu autorização para entrar numa propriedade privada e tirar fotos a essa propriedade privada? Esperem, tenho outra questão a colocar: onde estão essas fotos? Gostava de ver. Porque sei que não podem mostrar algo que não é verdade. O máximo que podem mostrar é algum dia em que a erva tenha estado mais alta, mas que nós com certeza mandámos cortar tempo depois, quando houve oportunidade.

Os meus avós tinham flores e árvores de fruto, das quais ainda cuidavam no quintal. A minha avó ia a casa dela com frequência durante o dia (não sei como é que algumas pessoas repararam em tantas coisas e não repararam nisso também…). Cheguei a celebrar festas com familiares e amigos na casa dos meus avós. Não viram isso também? Os meus tios tinham lá utensílios agrícolas armazenados e iam lá, por vezes, que pena não terem reparado nisso também! O meu tio podava sempre as nossas videiras… Ah pois… Mas ninguém viu isso, claro. Porque algumas pessoas só vêem o que lhes interessa!

E agora vem a “melhor” parte e que ninguém repara… Já se questionaram o motivo pelo
qual os meus avós não estavam na casa deles?

Então, eu vou esclarecer-vos. Fui eu! Fui eu que lhes pedi por tudo para irem para a casa que era da minha mãe. Porque a minha mãe morreu. Não repararam nisso também? Não vos ocorreu o que os meus avós sofreram nessa altura? Não vos ocorreu o que estaria a passar uma criança de 8 anos que perdeu a sua mãe? Talvez essa criança precisasse de estar na casa da mãe, para de alguma forma senti-la mais perto.

Meus caros, fui eu que passado uns tempos da trágica morte da minha mãe pedi aos meus avós para irmos morar para a casa dela. A minha psicóloga da altura concordou! E os meus avós fizeram o sacrifício de todos os dias olharem paras as coisas da sua filha… morta… De estarem na casa dela, onde ainda se fazia sentir o seu cheiro, a sua presença… Tudo para que eu me sentisse bem.

Sabem o que combinámos? Que estariam lá até eu acabar o curso e orientar a minha vida. Quando orientasse a minha vida, a nível profissional e pessoal, ficaria na minha casa e eles voltariam para a casa deles. Sabiam dessa? Agora expliquem-me… Está a chegar esse momento… Para onde é que os meus avós regressam? Para um monte de ruínas?

Sabem o quão culpada me senti? O quão culpada me senti por ter feito esse pedido? O quão culpada me senti por achar que a culpa de tudo o que aconteceu é minha? Culpada por eles terem a casa deles arruinada, sem apoio, por minha causa? Sabem o que me custou ter de remexer no meu passado todo, tão traumático, por causa deste processo? Ninguém reparou, não foi? Ah pois, porque a maior parte das pessoas preferiu virar-me as costas… E muitas pessoas só vêem o que lhes interessa!

Desculpem mas não consigo e nem quero tolerar tamanhas injustiças.

Não consigo e nem quero tolerar o facto de algumas casas terem sido reconstruídas e estarem fechadas… E os meus avós quererem regressar à casa deles e esta continuar destruída.

Não consigo e nem quero tolerar o facto de não terem revisto os critérios para a inclusão de algumas situações no apoio às habitações.

Não consigo e nem quero tolerar o facto de quando mais precisei, muitas pessoas aparentemente me tenham querido ajudar e, no fim de contas, ainda me prejudicaram mais.

Não consigo e nem quero tolerar o facto de ninguém me ter aconselhado devidamente. De ninguém me ter informado que este nosso caso era um claro caso de Tribunal e que poderia ficar resolvido. E muitas vezes tiveram oportunidade de mo dizer, de me abrir os olhos… Porque eu não me apercebi dessa alternativa.

Errei também em toda esta situação. E o mais difícil de aceitar é que não tive ninguém que me alertasse verdadeiramente para os meus erros, para a minha ingenuidade de confiar cegamente nalgumas pessoas.

Hoje estou aqui… Publicamente a assumir a minha história. Publicamente a revelar o que verdadeiramente sinto. Publicamente a mexer em assuntos privados e traumáticos. Chega a ser uma humilhação ter de me justificar assim… Ter de me justificar perante a maldade de algumas pessoas. Mas é mais humilhante ter sofrido 3 anos calada, com os meus avós, e quase ninguém ter tido a coragem de nos apoiar. Nem que fosse uma mera palavra de conforto e de preocupação.

Peço desculpa às pessoas que estiveram de facto ao nosso lado e que se mostraram sempre prontas a apoiar, que nos deram força e que compreendem a nossa situação. Isto não é direcionado a vós… Desculpem muito!

Isto é sim um grito de revolta de quem não aguentava ficar mais tempo calada. De quem se sentiu traída e ferida… Tenho a certeza que as pessoas que de facto nos apoiaram e apoiam vão compreender este grito de dor! Tinha de o fazer… Tinha mesmo.

Avó Tina e Avô Fernando, A vocês peço as mais sinceras desculpas. E lamento não ter feito mais… Lamento ter- vos colocado nesta situação!