As palavras que descem da serra: 1984 de George Orwell

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Num tempo estranho, em que cada um de nós pode ser o inimigo número um da nação, num tempo de ódios e de discursos a ele incitantes, num tempo de extremismos, em que um qualquer mentecapto vomita aquilo que qualquer idiota desconhecedor do seu estado quer ouvir, as palavras de Orwell magoam (apenas!!!!) pela sua idade. O livro que hoje escolho foi o último escrito por Orwell entre 1947 e 1948, já lá vão 72 anos!!! Este autor nasceu em 1903 em Motihari e morreu (jovem, 46 anos, vítima de tuberculose) em Londres em 1950. Viveu em guerra, 14/18 a Primeira e 39/45 a segunda. Este facto permitiu-lhe conhecer o Ser Humano em todo o seu “esplendor”.

Em guerra há sempre uma voz de comando. Eventualmente, há guerra por causa da voz de comando, mas existe sempre um conjunto de características comuns a todas as guerras, nomeadamente o medo (por vezes irracional!), a desconfiança, o ódio só porque sim, o ódio direcionado a minorias, a xenofobia, entre tantas outras. Qualquer criatura que articule um discurso populista consegue criar as condições perfeitas para a ditadura, reunindo à sua volta as ovelhas prontinhas a ir, primeiro para o redil e depois para o matadouro. Algumas ovelhas, eventualmente muitas percebem o que as espera, mas o medo, habilmente semeado, impede-as de espernear e acabam por ser comidas como aquilo que sempre foram, lorpas!!!! Outras ovelhas esperneiam e também elas acabam mortas, mas não como ovelhas! Estas, porque baliram muito, acabam mortas como lobos esfaimados que vinham atacar o rebanho. Nesta altura do texto, os que tal como eu, nasceram na década de 60, estão a dar voltas ao tecto a lembrar as bíblias da adolescência e a pensar em A Quinta dos Animais, mas não.

Hoje resolvi que Mil Novecentos e Oitenta e Quatro é uma sugestão mais válida. O Big Brother, o mano mais velho, o que cuida de nós, já se instalou nas nossas vidas há muito tempo. O nosso querido amigo Google sabe onde vamos, o que gostamos, a nossa idade, o nosso estado de saúde e por aí fora. Mas contra isso batatas, nós sempre lhe demos essas informações de graça. Agora como reagimos quando o medo nos impõe que dêmos informação de forma obrigatória? Estamos disponíveis com a mesma leveza que temos para o Google? Achamos que estamos a permitir devassa da nossa vida? Achamos que é necessário para o bem comum? Estamos a abrir portas que se deveriam manter fechadas? Por este pouco que deixo dêmos espaço às sábias e premonitórias palavras de Orwell.

Copiado de https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Orwell (18/10/2020,19.59H)

“ De onde Winston se encontrava, era ainda possível ler, gravados na face branca do edifico em letras elegantes, os três slogans do Partido :

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA.

O Ministério da Verdade tinha, segundo se dizia, três mil salas acima do nível do solo, e outras tantas ramificações subterrâneas.”

“De todos eles, realmente medonho era o Ministério do Amor. Sem uma única janela. Winston nunca estivera dentro do Ministério do Amor, ou sequer a menos de meio quilometro dele. Era local onde ninguém podia entrar a não ser em serviço oficial, e ainda assim só embrenhando-se num labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e nichos onde se ocultavam metralhadoras. Mesmo as ruas que conduziam ao seu limite exterior estavam patrulhadas por guardas com cara de gorila e uniforme negro, armados de cacetes nodosos.

Winston virou-se abruptamente. Imprimira às feições a expressão de optimismo tranquilo aconselhável de arvorar diante do telecrã.”

SINOPSE

A história propriamente dita, começa no dia 4 de Abril de 1984, sendo esta data pouco firme dada a dificuldade de quantificar o tempo na altura.  Em todas as casas existe um aparelho fundamental, o telecrã, que funciona como receptor e emissor em simultâneo. Está colocado de modo a poder observar todo o espaço.

Todos os habitantes sabem que a sua vida pode ser escrutinada em qualquer momento ou nunca o ser. Todos vivem como se estivessem a ser escrutinados em todos os momentos para reduzir o risco de punições.

A caracterização emocional da sociedade vai caindo, quase se pode dizer, com descuido. As vivências de Winston dão-nos uma ideia aterradora da sociedade, da falta de liberdade e de toda a dor que isso acarreta. Claro que numa sociedade em que o livre arbítrio foi banido existem os esbirros, que muitas vezes de forma apenas maldosa garantem o cumprimento das normas, garantem que todas as ovelhas alinham em direcção ao redil ou ao matadouro com a mesma doçura.

Nesta sociedade há tempos especiais, sendo o do Ódio um desses tempos que devem ser cumpridos com rigor de rito religioso. Goldstein é a figura mais odiada da sociedade por ter atraiçoado o Partido, sendo os Dois Minutos do Ódio habitualmente preenchidos com a sua carantonha de “carneiro” e a sua voz que mais parece um balido, falando de coisas horríveis como Liberdade de expressão, de imprensa, de pensamento, de reunião; da Ditadura do Partido; do fim da guerra com a Eurásia, entre outras obscenidades semelhantes. O controle global e individual assenta em duas das coisas mais marcantes do nosso tempo a tecnologia e a globalização que ela permite. Visão profética de um moribundo???

Boa semana, com livros!