História(s) mal contada(s): O “morto-vivo”, combatente da I Grande Guerra

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Que me perdoem os familiares pelo título algo aligeirado. Não querendo significar falta de respeito por um dos nossos Combatentes da I Grande Guerra, vem a propósito de uma história que, apesar de ter cerca de 90 anos, ainda hoje se mantém “de pedra e cal”, gravada junto à Pérgola Raul Lino, no Terreiro de Penacova.

Falamos do Memorial que ali se encontra desde os anos 30 do século passado e onde estão esculpidos os nomes dos “FILHOS DA NOSSA TERRA – SOLDADOS DE PORTUGAL – MORTOS DA GRANDE GUERRA”: Eduardo Pereira Viseu (Penacova), João dos Santos (Carvoeira), António Couceiro (Ronqueira), Alípio da Cruz (Riba de Baixo), Domingos Serafim Henriques (Carregal), António Carvalho (Rebordosa), Daniel Alves (Aveleira), Artur Branco (Cácemes), Manuel da Costa (Cácemes) e Manuel Alves (Palheiros).

Em 2016, quando consultava o Arquivo Histórico Militar, mais concretamente, documentação sobre o Corpo Expedicionário Português, deparei-me com algo que não “batia certo”. É que a ficha individual de Manuel Alves referia expressamente que ele tinha desembarcado, obviamente vivo, em Lisboa no dia 15 de Junho de 1919!

Como assim, se o seu nome constava do memorial em honra dos mortos?!

Durante muito tempo ninguém me soube explicar. Certo dia, já não me recordo bem em que contexto, acabou por ser o neto, Óscar Trindade, a desvendar o mistério. Facultei-lhe a cópia da referida ficha do avô e também da ficha do tio avô, esse sim, falecido no contexto daquela Guerra.

Há dias, quando agendei esta história para a rubrica “História(s) mal contada(s)”, lembrei-me de pedir ao Amigo Óscar que me ajudasse a reconstituir este episódio.

É o seu relato, acompanhado de uma fotografia do avô, que desde já agradeço, que passo a transcrever.

“MANOEL ALVES E O MEMORIAL AOS MÁRTIRES DA PÁTRIA

Manuel Alves, nasceu no lugar de Palheiros, freguesia de Sazes do Lorvão (Penacova) em 07 de outubro 1894. Filho de António Alves e de Maria de Jesus.

Na Grande Guerra, fez parte do 1º Corpo Expedicionário Português (2ª Brigada, 3º Batalhão, 1ª Companhia) como soldado de infantaria nº 24.

No mesmo período o seu irmão, António Alves (tinha o mesmo nome de seu pai), também soldado, foi destacado para Moçambique onde veio a falecer, não em combate, mas por afogamento, sendo sepultado no cemitério da Beira.

Considerado como soldado morto na guerra, seria, então, o seu nome a figurar no memorial “Mártires da Pátria “que se situa na Pérgula Raúl Lino, em Penacova. Em vez de António Alves, está gravado o nome de Manoel Alves, que regressou da guerra, são e salvo, desembarcando em Lisboa no dia 05 de junho 1919 (com 25 anos).

Manuel Alves ainda tentou reverter a situação, pois considerava-se como um morto vivo. Contudo, o processo burocrático para alteração da inscrição do nome na lista seria complicado. Acabou por se resignar, e é assim que o seu nome se mantém lá até aos dias de hoje.

Manuel (ou Manoel) Alves, foi soldado em teatro de guerra ativa. Num dos seus relatos conta que viveu um verdadeiro momento de terror, quando a sua companhia foi bombardeada pelos alemães. O pânico foi tal que ele, assim como alguns outros, fugiram a fim de salvar o “couro “(assim dizia ele). Andou quatro dias à deriva, sozinho, até encontrar um convento. Esfomeado e sedento, bateu à porta do convento, na esperança de ser ajudado. Uma freira atendeu a partir de um postíbulo, receosa, pois não sabia quem ali estava.

Então, Manoel pediu água, em francês, que era uma das poucas palavras que lhe ensinaram a falar.

– L’eau , l’eau !

A freira reconheceu nele um soldado português e, por coincidência, ou não, também ela era portuguesa. Foi acolhido, deram-lhe de beber e de comer. Para satisfazer o estômago foi-lhe dado pão com marmelada. A marmelada tornou-se, desde então, o seu lanche preferido até à sua morte, com a idade de 83 anos, em 29 de agosto 1977.

O terror da guerra tornou-o numa pessoa austera. Contudo, era uma pessoa amiga, bom conversador, metia conversa com conhecidos e desconhecidos e o tema acabava sempre por chegar à sua aventura na Grande Guerra.  Infelizmente, muitas das histórias por ele contadas acabaram por se perder.

Enquanto viveu, sempre que vinha a Penacova, não deixava de visitar o memorial, prestando, assim, homenagem àqueles que haviam falecido no teatro de operações e, ao mesmo tempo, prestar homenagem particular ao seu irmão.”

David G. Almeida

 

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