Ilustres (Des)conhecidos: Eurico Almiro de Meneses e Castro (1934-2017)

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Sempre se considerou penacovense, sem deixar de ser tondelense. No nosso concelho constituiu família e passou muitos anos da sua vida, exercendo clínica médica de excelência, apoiando o desporto no Alto Concelho e presidindo à Assembleia Municipal, na sequência das primeiras eleições autárquicas do pós 25 de Abril.

Eurico Almiro de Meneses e Castro nasceu em Canas de Sabugosa (hoje Canas de Santa Maria) no dia 16 de Julho de 1934, filho de Augusto Rodrigues Almiro, médico e industrial, e de Maria Máxima de Melo Menezes e Castro. Era o mais novo de oito irmãos. Refira-se que um deles, João Almiro, se distinguiu como industrial de produtos farmacêuticos, criando em Campo de Besteiros um dos maiores laboratórios portugueses (Labesfal).

Quando ia fazer 10 anos e depois de concluir a 3ª classe na escola da localidade, Eurico Almiro perdeu o pai. O ano escolar seguinte já o fez em Coimbra, no Colégio Camões (fundado e dirigido por Carlos Proença), cidade onde os irmãos mais velhos viviam e estudavam.

Frequentou o Liceu D. João III (actualmente Escola Secundária José Falcão), concluindo aí o 7º ano. Seguiu-se a entrada na Universidade, em 1955, para cursar Medicina, licenciando-se em Julho de 1962.

Em Janeiro de 1963, prestou provas públicas para Médico de Internato Geral, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, tendo sido admitido. A partir daí, prosseguiu a actividade clínica como Médico do Internato Geral.

Durante o cumprimento do Serviço Militar Obrigatório frequentou o Curso da Escola de Saúde Militar e o Curso de Medicina Tropical. Em 1964 foi mobilizado para Angola como Oficial-Médico, regressando em finais de 1966 e iniciando, de imediato, o Internato Complementar.

Em 29 de Dezembro de 1970 prestou provas para Médico Graduado de Medicina Interna e em 1975 candidatou-se ao concurso para Especialista daquela área. Passados quatro anos, concorreu a Chefe de Clínica dos HUC, não entrando por falta de vaga. A partir de 1982 passou a chefiar a Consulta Externa de Medicina III e em 1984 iniciou as funções de Chefe de Serviço Hospitalar de Medicina Interna.

Fez parte do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos e Membro Consultivo do mesmo. Publicou diversos trabalhos científicos em revistas da especialidade  e fez diversas comunicações em conferências e congressos. Ao nível da docência colaborou em aulas de alunos do 6º ano médico e de pós-graduação.

Além da actividade hospitalar, exerceu clínica nos Serviços Médico-Sociais e Casa do Povo de S. Pedro de Alva. Tendo surgido vaga para médico municipal (Partido Médico de S. Pedro de Alva) na sequência da morte do Dr. Viegas Pimentel, concorreu ao lugar e foi admitido. No entanto, surgiu o Serviço Militar e só em 1966 começou a exercer essas funções. Na altura foi também  convidado pela Casa do Povo para médico daquela instituição. Teve consultório particular, primeiro no Porto da Raiva, seguindo-se Silveirinho, S. Pedro de Alva e Coimbra, onde acorriam muitas pessoas reconhecendo nele um bom médico. Sempre que se apercebia que os doentes tinham dificuldades não cobrava os seus honorários. Além disso – conta a esposa – passava muitos serões à luz do “petromax” (recorde-se que a electricidade só chegaria à Raiva por volta de 1963) a dirigir pedidos de amostras aos laboratórios para depois os distribuir gratuitamente a quem não podia comprá-los na farmácia. Quer na Raiva, quer em S. Pedro de Alva, com muita frequência o Dr. Almiro dava boleia a quem precisasse de ir a Coimbra ao Hospital ou fazer exames.

Em 17 de Setembro de 1961 casou com Lúcia Odete Ferreira Veiga, professora, natural de Chelo. Deste casamento, celebrado  na Igreja do Mosteiro de Lorvão, nasceram três meninas: Maria de Fátima (1963), Rosa Branca (1966) e Ana Cristina (1968).

O casal fixou residência no Porto da Raiva, dado que a esposa tinha efectivado na escola de Paredes. Mais tarde, foram viver para S. Pedro de Alva, instalando-se na “Casa do Médico”, pagando renda à Junta de Freguesia.

A consciência cívica, o espírito colaborante e a capacidade de doação às pessoas e instituições começou a revelar-se desde muito cedo. Ainda caloiro na Universidade, foi eleito pelos colegas como “Representante de Curso”, responsabilidade que manteve até final do mesmo. No 6º ano, pelos mesmos, foi escolhido para “Presidente da Comissão Central da Queima das Fitas”, desempenhando o cargo com competência, dando mais brilho ao evento e equilibrando as contas.

O Fado e o Futebol foram duas das suas paixões. Desde o liceu que começou a jogar e mais tarde, na Associação Académica, foi contemporâneo de Bentes, Torres, irmãos Wilson e outros, alinhando mesmo nalguns desafios da 1ª divisão. Praticou ainda ténis de mesa e boxe. Em S. Pedro de Alva foi um dos fundadores da Associação Desportiva e Cultural, chegando a ser treinador da equipa de futebol. Em carro próprio transportava e acompanhava muitas vezes, para não dizer, sempre, os jogadores nas deslocações para fora da localidade.

Quanto ao Fado, foi autor de alguns temas, e entre 1950 e 1955 pertenceu a um grupo de Fado de Coimbra, participando numa das primeiras serenatas no Penedo da Saudade (1954) juntamente com Levy Baptista, António Baptista Duarte e Paulo Morais Fonseca. Estávamos nos tempos da Coimbra de “Zeca Afonso” e de António Portugal, de quem era amigo pessoal. Até ao final da vida sempre cantou para os amigos e familiares.

Na política, Penacova honra-se de o ter tido como Presidente da Assembleia Municipal. Foi o 1º Presidente eleito no pós 25 de Abril, na sequência do acto eleitoral de Dezembro de 1976. Nesse ano já havia sido mandatário concelhio da candidatura do General Ramalho Eanes, que vencera as Presidenciais. Enquanto autarca, percorreu todas as freguesias do concelho, em carro próprio, usando muitas vezes o jeep que comprara para os domicílios, para se inteirar das necessidades que eram muitas: falta de estradas e caminhos, de luz eléctrica, de água…

Sócio dos Bombeiros de Penacova e também de Campo de Besteiros, aderiu ainda à Associação dos Combatentes do Concelho de Penacova.

Por último, a família passou a viver em Coimbra, mas “foi  tal a empatia que o Dr. Almiro criou por esta terra e suas gentes que nunca deixou de vir a S. Pedro de Alva visitar os inúmeros amigos” e, “com isso, nos sentimos honrados e orgulhosos.” (…) “Quer num lado, quer noutro, continuou a ser o braço amigo para ajudar quem a ele recorria.” – escreveu Alfredo Fonseca  no jornal “Comarca de Arganil” aquando da realização de um almoço de homenagem a este médico e sua família, no dia 13 de Outubro de  2013, organizado pela Casa do Povo de S. Pedro de Alva, com a presença de dezenas de pessoas que prestaram “tributo ao clínico, que dedicou cerca de 30 anos à localidade” e ao concelho de Penacova.

De referir ainda que em 16 de Julho de 2017 – poucos dias depois de ter falecido – na sessão comemorativa dos 40 anos do Jardim de Infância de Travanca do Mondego, foi recordado como “grande amigo e admirador desta obra e dos seus promotores”.

Eurico Almiro de Meneses e Castro faleceu no dia 3 de Julho de 2017, em Coimbra, na sequência dos problemas de saúde que o acompanhavam havia alguns anos.

Naquela hora de luto, a União de Freguesias de S. Pedro de Alva e S. Paio aprovou um voto de pesar e a Câmara Municipal de Penacova decretou dois dias de Luto Municipal.

“(…) E num gesto largo,(…) arrancou de sobre o peito hercúleo o flamejante manto da imortalidade: e em seu lugar colocou um simples coração mortal; mas – oh maravilha – um coração de ouro puro…E Hércules tornou-se homem apenas, mas um Hércules de coração de ouro. Vêde-o: olhai-o bem, que o merece; é o nosso delegado de curso, o nosso amigo de sempre: o Almiro.” – lê-se na dedicatória dos colegas, gravada na plaquete do seu 4º ano de Medicina, e pode muito bem traduzir as grandes qualidades cívicas, sociais e humanas, que cultivou ao longo da vida.

David G. Almeida

 

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