Editorial: Desconfiancialite

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Lamento o tom pessoal, mas a minha inquietação semanal prendeu-se com uma vigente, ora declarada, ora subentendida, desconfiança generalizada, mascarada de ‘espírito crítico’, que parece grassar em Penacova. No fundo, este espírito olha a desconfiança como ‘modo de vida’ e não como método aproximativo da verdade. Contenta-se com a opinião, mesmo se superficial.

Sem confiança, a ‘vida individual’ degrada-se num auto empobrecimento que conduz ao escombro irreconstruível e a ‘vida social’ auto aniquila-se, ao ponto de se tornar impossibilidade lógica, humana e, no limite, biológica. Creio que vivemos localmente num território de desconfiados, incompatíveis em razão dessa desconfiança estrutural. Desde cátedras que se auto convencem que detêm a exclusividade do equilibrado bom senso, até palcos onde o legítimo e necessário escrutínio parece dispensar a argumentação consistente e alternativa. Parecemos entrincheirados em lugares e narrativas que se alimentam de mesmidade cíclica e confortável, povoados de pretensos donos da realidade e, como tal, com medo do avesso diferente. A novidade de um espaço só se constrói com gente sem dono, a quem ninguém tira a liberdade, ainda que, no limite, seja capaz de a oferecer em nome do serviço a um bem comum que seja maior que o mero interesse individual. Enfim, se os outros são lobos predadores [Hobbes] ou um inferno [Sartre], as relações de poder fundam-se no temor [Maquiavel] e isso abre espaço a lutas fratricidas [Caim e Abel, livro dos Génesis], conduz à auto destruição [Dilúvio, livro dos Génesis] ou abre espaço a ópios alienantes e cosméticos de diversa estirpe [Marx], o que talvez não seja coisa assim tão diferente.

O tempo presente carece da arte de educar [‘guiar, conduzir, para um horizonte com um mínimo de comum’] os interesses, para que eles coincidam com os valores. Nesta conjugação de interesses e valores residirá o sucesso da ação política. Assim, quem conduz não é finalidade, mas instrumento. Quem é conduzido, não é amestrado, mas pensador crítico. A diferença não é hostilidade, mas perspetiva parcial do comum. O diálogo não é alternância de monólogos, mas acrescento cooperante. Este tempo exige decisão e reciprocidade de confiança. E esta operacionaliza-se com responsabilização também recíproca. E daqui recorre o escrutínio mútuo, mas que avalia para prosseguir sempre do ponto seguinte e não para regressar ao zero. De contrário, levaremos ao limite o relativismo ético [‘o bem é meramente individual e depende dos interesses de cada um’] e instauramos uma insustentável leveza de ser, que abdica da condição de pertencer [a algures]. A desmaterialização das relações aí está, com uma paradoxal privatização [física, higiénica e sanitária] da existência, que convive com uma [quiçá pouco regulada] publicidade virtual da mesma. Também a digitalidade carece de gramática!

Uma vez recuperada e merecida a confiança, sobretudo onde ela é necessária, naqueles de quem discordamos ou nos são indiferentes, carecemos de um discurso de esperança consistente, contra a invisibilidade perigosa de um medo impessoal e sem rosto. Repetir à saciedade escrita e falada a existência de ‘diabólicos inimigos’, que ninguém viu, ou tornar universal aquilo que [ainda que lamentavelmente] é só particular é um recorrente truque que apenas favorece o sebastiânico messias pronunciador. Simetricamente, a esperança multicolor do país das maravilhas não colhe porque lhe falta chão, corpo e história. Uma esperança séria e mobilizadora, precisa de um mínimo horizonte coletivo e de meios. Sem isto a vida coletiva vagueia entre acasos e novelas casuísticas, onde apenas alternam ocasionalmente os protagonistas.

Este ressurgimento obrigará a uma cidadania individual e coletiva ‘urbi et orbi’, que olhe a ‘Cidade’ e o Mundo. O enquistamento equivale à germinação da pobreza intelectual, primeira e ainda mais estruturante que a financeira. Estou convencido que um projeto de território que prescinda deste olhar será ‘remendo novo em pano velho’ e nem regenera o pano, nem aproveita o remendo.

Preencher a esperança reclamará que se aposte nas pessoas e na sua capacidade de transformar a fragilidade em vida. Este talvez seja o principal paradigma a alterar. Terminar com a cómoda dicotomia que coloca a maior parcela da comunidade no mero papel de destinatária da vida pública, para lhe dar voz e vez protagonistas. Certamente que [com] poucos, mas a minoria do fermento é que leveda a maioria da massa. Urge rever as convocações, acrescentando-lhes a tarefa que suscite compromisso.

Oferecer ‘espanto’ programado, ao invés de ‘fogachos’ com a popularidade estatística no horizonte, mobilizará contra a acomodação e engravidará a esterilidade. Finalmente, o mais difícil e dos menos bem cuidados aspetos nos tempos que correm, precisamos de encontrar o tom comunicacional certo, que sirva o conteúdo e alimente o pragmatismo do horizonte, sem deixar morrer a utopia.

 

Luís Francisco Cordeiro Marques

2 COMENTÁRIOS

  1. Para ler este seu texto, com palavras caríssimas e jogadas para o monte, é preciso ter mesmo muita paciência. Não consegui passar do 2º parágrafo (Zé póvinho, in lusitanea vizinha)

  2. Achei um texto bem escrito, mas meramente académico, poético e inconsequente. Penacova e de um modo geral, toda a sociedade, precisa de mudança, sim. Mas uma mudança ativa, não de teorias e metafóricas. O povo está farto de tanto, blá, blá, blá.

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