Ilustres (des)conhecidos – Raul Lino da Silva (1879 – 1974)

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Poderá parecer forçado incluir este nome na galeria de personalidades ligadas a Penacova. No entanto, como todos sabemos, desde 1918 que a Pérgola, por si idealizada, é uma das janelas panorâmicas da sala de visitas da vila. Também a lápide do Penedo do Castro, os azulejos do Mirante Emídio da Silva e, segundo consta, o traçado de uma vivenda da Cova do Barro, têm a marca do seu talento artístico.

Raúl Raul Lino da Silva, nasceu em Lisboa (Lapa) a 21 de Novembro de 1879 e faleceu na mesma cidade a 13 de Julho de 1974.

Filho de José Lino da Silva, abastado negociante de materiais de construção e de Maria Margarida de la Salette da Silva, casou em 29 de Julho de 1907 com Alda Decken dos Santos, de quem teve duas filhas, Maria Cristina Lino e Isolda Lino.

As possibilidades financeiras familiares, permitiram que estudasse em Inglaterra e Alemanha. Ao regressar a Portugal concluiu o curso livre de Arquitetura (1926). Em 1899 já havia apresentado um projeto para o Pavilhão de Portugal na Exposição Nacional de Paris (1900).

Ainda nos finais do século XIX, fez os primeiros trabalhos de arquitectura e muitas viagens pelo país, em especial pela região do Alentejo, recolhendo elementos sobre a arquitectura tradicional. Ao longo da sua carreira, procurou que a essência da “Casa Portuguesa” traduzisse a maneira portuguesa de ser e de estar, utilizando o alpendre, recorrendo aos revestimentos em azulejo e a materiais típicos de cada região. Ao longo da vida, Raul Lino desenvolveu áreas como azulejaria, vitrais e mobiliário.

Foi autor de obras como “A Casa Portuguesa” (1929) e “Casas Portuguesas” (1933). No sector da imprensa, foi colaborador em diversas publicações periódicas, nomeadamente nas revistas: Atlântida (1915-1920), Homens Livres (1923), Ilustração (1926) e na Revista Municipal de Lisboa (1939-1973).

Raul Lino desenvolveu grande parte da sua atividade enquanto profissional liberal mas desempenhou igualmente cargos públicos, nomeadamente na Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Foi Superintendente dos Palácios Nacionais e membro fundador da Academia Nacional de Belas Artes, sendo seu presidente no momento da sua morte.

Entre as suas obras destacam-se a Casa dos Patudos (Alpiarça, 1904), a Casa do Cipreste (Sintra, 1912), o cinema Tivoli (Lisboa, 1925) e o Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940).

Historiador de arte, ensaísta, pensador, recebeu o prémio José de Figueiredo da Academia Nacional das Belas-Artes em 1948, pelo estudo “Quatro Palavras sobre os Paços Reais da Vila de Sintra.”

Quanto às obras de restauro e museologia, tendo Raul Lino sido Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais e Arquitecto-chefe da Repartição de Estudos e Obras de Monumentos do Ministério das Obras Públicas, estendeu as intervenções nestes âmbitos desde o Paço Real de Sintra, passando pela conversão do Palácio de Seteais em hotel, até aos jardins do Palácio de Queluz, entre as largas centenas de intervenções que fez por todo o país.

Foi na região de Lisboa que deixou maior número de obra mas os seus serviços também foram solicitados em Coimbra, onde se deslocou pela primeira vez a em 1902. Além do Jardim-escola João de Deus (1911) e do edifício sede da Associação Cristã da Mocidade (ACM) conta-se uma vivenda familiar que pertenceu a António Maria Pimenta (1902) e também a vivenda Caetano da Silva. É de referir igualmente uma moradia pertencente à quinta atualmente conhecida como da Urgeiriça, antes chamada Quinta da Lapa, mandada construir por Francisco França Amado, na freguesia de Castelo Viegas.

O antigo edifício do Governo Civil de Coimbra – projeto de Raul Lino – começou por ser pensado para ser um hotel, o Palace Hotel Estrela. À época, existiam no local as ruínas de um antigo colégio, o Colégio de Santo António da Estrela. As obras iniciaram-se em 1923, mas não chegou a ser concluído pois a empresa construtora faliu. As obras arrancaram outra vez em 1925, depois de o edifício ter sido comprado pelo Dr. Ângelo da Fonseca, que aí morou até à sua morte. Raul Lino foi chamado para proceder às obras de adaptação às novas funções residenciais. Destaca-se o jardim exterior com um belíssimo miradouro, muito semelhante à pérgola que projectara para a vila de Penacova. Por último funcionou ali o Governo Civil, desde 1952 até à extinção deste organismo.

Ainda em relação a Coimbra, elaborou (1934-1936) um anteprojecto de urbanização da Cidade Universitária em co-autoria com Luiz Benavente. Naquele estudo propunha-se uma “remodelação” da Alta atenta à salvaguarda e manutenção de aspetos “pitorescos” da sua imagem urbana, “na direção oposta ao que se viria a afirmar no terreno, sob o demolidor traçado de Cottinelli Telmo e Cristino da Silva.”

Raul Lino, que em 1941 recebeu a Comenda da Ordem Militar de Cristo, também se notabilizou na arquitetura escolar. Talvez pelas ligações que estabeleceu com personalidades ligadas ao campo educativo (nomeadamente João de Deus Ramos), interpretou e plasmou nos seus projetos um conjunto de ideias em voga durante a segunda década do século XX acerca do desenvolvimento da criança, do ensino e da aprendizagem.

O nome de Raúl Lino não é estranho a Penacova. Em 1916, a Sociedade de Propaganda de Portugal, que tinha uma delegação local, presidida pelo Conselheiro Luís Duarte Sereno, reconhecendo que esta vila se afirmava já como ”um centro de turismo de certa importância”, decidiu mandar construir aqui uma Pérgola, convidando o “distinto arquitecto Raul Lino” para fazer o respectivo projecto. Junto à Pérgola existe uma placa [colocada numa parede que na época não existia, pois o actual edifício da Câmara é muito posterior] com os seguintes dizeres: “Esta ramada delineada pelo arquitecto Raul Lino, de Lisboa, foi mandada construir pela Sociedade de Propaganda de Portugal e oferecida pela mesma ao povo de Penacova a quem é confiada a sua guarda e conservação – Ano MCMXVIII”.

Raúl Lino, que pertencia ao círculo de pessoas ligadas à Sociedade de Propaganda de Portugal, estivera já na inauguração do Mirante em 1908. O Diário de Notícias de 31 de Maio daquele ano noticia o acontecimento com grande destaque. No artigo “Festejos em Penacova” lia-se que “a convite do Sr. Presidente da Câmara Municipal, o dr. José Albino Ferreira”, tinham seguido para ali “muitas pessoas de Lisboa e Coimbra” para “assistir à inauguração do belveder (…). Entre essas pessoas de Lisboa” figuravam “os Srs. Raúl Lino e esposa D. Alda dos Santos Lino “.

A marca deixada por Raúl Lino em Penacova não se delimitou à Pérgola. Como sabemos, também a lápide do Penedo do Castro foi por ele desenhada, e consta que a vivenda mandada construir por Joaquim Correia de Almeida Leitão, na Cova do Barro, terá tido também a mão deste afamado arquitecto. De referir igualmente que os azulejos do Mirante, colocados em Fevereiro de 1917, foram desenhados pelo “ilustre artista”, conforme noticiou o Jornal de Penacova.

Em 2018 o Município de Penacova assinalou o Centenário da Pérgola. O Dia Mundial do Turismo desse ano ficou marcado pela inauguração da exposição “Raúl Lino – A Casa Portuguesa”, patente na Biblioteca Municipal, a que se seguiu uma tertúlia sobre a obra e vida de Raúl Lino. Na ocasião, foram tecidas várias considerações sobre a singular personalidade de “um homem diferenciador na sua época que deixou uma marca intemporal no concelho de Penacova, o miradouro com o seu nome, lugar de eleição para os penacovenses e para todos quantos visitam esta vila”, referiu um comunicado da autarquia.

Também na abertura da exposição, Humberto Oliveira, presidente da Câmara, destacou o “legado deixado por Raúl Lino em Portugal, e mais concretamente em Penacova, sendo uma das maiores figuras no panorama das artes em Portugal, no séc. XX.”

 

David G. Almeida

 

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