Intervenção de David Almeida na apresentação do livro “De Penacova a Lorvão pela Estrada Verde”

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De Penacova a Lorvão pela Estrada Verde

Depois de alguns anos de preparação e de ter estado em risco de ficar na gaveta, por motivos de saúde, este livro, como a capa sugere, apresenta um conjunto de notas de carácter histórico e cultural sobre as principais localidades que encontramos pelo caminho, quando partindo de Coimbra queremos rumar a Lorvão, não pela Serra do Dianteiro, como outrora, mas pela beira-rio, seguindo a antiga Estrada Real nº 48, hoje designada por Nacional 110 ou Estrada Verde.

Mas, antes de falar deste livro, gostaria de, em meu nome e em nome do Dr. Leitão Couto, agradecer a todas as pessoas que connosco colaboraram na recolha e partilha de elementos e de memórias: Dr. António José da Silva Calhau, da Rebordosa; Dra. Sandra Ralha da Silva, do Caneiro; Sr. António Castanheira e Enf.º Amável Ferreira, ambos de Chelo;  D. Maria da Fonseca Simões, de Lorvão,  a quem prestamos uma homenagem especial, dado que já nos deixou. Referir ainda, da Rebordosa, D. Graça Pimentel, Pedro Cardoso e António de Miranda.

Agradecer também à Câmara Municipal de Penacova o estímulo que fomos recebendo e o bom acolhimento traduzido agora na publicação do livro.

Tal como é referido na Introdução, esta pequena monografia vem na sequência da publicação em 2013 da obra “Patrimónios de Penacova”, dos mesmos autores, cuja terceira edição revista e actualizada acaba de sair, e resulta também do desafio que na altura o Dr. Fernando Fonseca nos lançou no sentido de se elaborar um livro, agora sobre a Rebordosa. Aceitámos o repto e logo começámos a recolher elementos com essa finalidade. Algumas vezes andámos por aquela localidade e por outros lugares recolhendo testemunhos e registando memórias.

Mas falar da Rebordosa sem falar de Chelo e do Caneiro, revelou-se  difícil e mesmo redutor. E falar do Caneiro, da Rebordosa e de Chelo, e não referir Lorvão e Coimbra ainda mais redutor seria, apesar de estes dois importantes polos culturais já estarem devidamente documentados.

Como fio condutor do livro surge naturalmente a Estrada Verde que partindo da Portela passa por Torres do Mondego, Caneiro e Rebordosa. Depois, com um ligeiro desvio, passando por Chelo, seria imperdoável não visitar também Lorvão.

A estrutura deste livro é simples. Trata-se de um discurso linear, apenas entrecortado pelas referências mais específicas a cada um dos lugares. Não é propriamente um texto surgido ao “correr da pena”: foi necessário aprofundar, investigar, fundamentar algumas das considerações feitas. São bastantes as notas de rodapé, mais exactamente, 166. Notas que escritas em texto normal acrescentariam mais de 20 páginas às 110 que o livro tem.

Fizémo-lo para não cansar o leitor e não quebrar o ritmo da leitura. Consideramos que o livro é de leitura fácil. Quem quiser aprofundar ou ficar a saber pormenores por vezes escondidos, mas não menos importantes, poderá ler as letras mais “pequenas”.

O livro fala de paisagens, de paisagens naturais, de paisagens sonoras também, de paisagens culturais. Fala de pessoas, de lugares, de acontecimentos, sendo frequentes as descrições nesse sentido, recuperando textos do séc. XIX e inícios do séc. XX. É que este livro faz também uma viagem no tempo, levando-nos, não apenas ao passado, mas também a um futuro que o presente deixa vislumbrar.

Fala de pessoas, de profissões, de usos e costumes, fala de cultura e de natura. Revela acontecimentos menos conhecidos, fala do rio, dos barqueiros, das paliteiras e dos sarreiros, das lavadeiras, de barcas serranas e de barcos do lavrador, fala de abades e abadessas, de freiras e de monges, de bruxas e de santas, de doces e de pirolitos, de escaramuças e de suicídios. Fala de etnografia e folclore, de música, de danças e cantares. É o pulsar, passado e presente, que aqui fica registado e a convidar para um maior aprofundamento.

O Conselho da Europa define Património como “todo o testemunho de qualquer natureza capaz de iluminar o passado da humanidade”, neste caso, o passado e o presente das nossas terras, porque o presente só faz sentido, ou faz mais sentido, se estiver ancorado no passado.

Esta obra não é bem um roteiro no seu sentido funcional. No entanto, agora que foi lançada a Grande Rota do Mondego (GR48) ligando Figueira da Foz e Oliveira do Hospital, seguindo precisamente curso do rio Mondego, onde a zona de Penacova se destaca como ponto de transição entre o Mondego de planície e o Mondego de montanha, tudo o que neste livro fica dito, pode muito bem ser tido em conta num futuro roteiro organizado para  aquela Rota. Da Portela até à Rebordosa fica muito trabalho feito para quem se propuser fazer esse documento. E um roteiro da Figueira da Foz a Oliveira do Hospital, passando por Penacova, não pode deixar de fazer um pequeno desvio até Lorvão. Será imperdoável não o fazer.

Por fim, poderíamos, invocando algumas correntes actuais sobre o que se entende por património  dizer que, implicitamente, neste livro estão as ideias e as intenções de identificar, interpretar e estudar o território, alargando o conceito de património à valorização e reconhecimento das paisagens enquanto elemento agregador.

Teorizando um pouco mais, diríamos que estão aqui implícitas a valorização do património cultural e natural, a valorização das paisagens culturais, a preservação e reactivação das memórias e identidades. Em certa medida, este livro procurou tocar na “alma”, no “espírito dos lugares”, no carácter muito próprio destes territórios, o que é sempre  motivo de orgulho para os naturais e residentes e pode atrair visitantes.

E para terminar recordaria o último parágrafo da nota conclusiva: “De Coimbra a Lorvão pela Estrada Verde”, um modesto contributo necessariamente incompleto para compreender melhor e revalorizar o património natural e cultural que nos define e nos identifica, quer enquanto penacovenses que aqui crescemos, influenciados pelo Mondego e pela(s) Cultura(s) das suas margens, quer enquanto portugueses e cidadãos da Europa e do mundo.

David Gonçalves de Almeida

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