A psicologia que há em nós: Chorar… (As lágrimas emocionais)

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Às vezes, surgem aqueles dias em que só dá vontade de chorar. Para aliviar toda a pressão que fervilha dentro do nosso coração. Mas… Para que servirá o choro? Será mesmo para desanuviar e aliviar a dor do coração? Existirá alguma explicação “mais” científica? O que nos diz a própria evolução humana? É certo que chorar faz parte da nossa bagagem de ferramentas emocionais, que nos acompanha desde que nascemos. Neste sentido, os contributos da Ciência têm sido importantes no desenvolvimento de ideias e teorias acerca deste fenómeno evolucionário que nos caracteriza. Contudo, a sua razão, ou propósito, constata-se ainda como um mistério a ser resolvido… Mais um, entre os muitos mistérios que nos caracterizam enquanto espécie. Que seres raros e complexos nós nos saímos!…

A definição de choro é tida como uma resposta a um estado emocional, na forma de lágrimas. Porém, chorar é diferente de lacrimejar. Embora ambas impliquem soltar lágrimas, a primeira inclui um fator emocional, enquanto a última não. Esta diferença pode ser algo banal, mas de facto, leva-nos a uma outra constatação bastante curiosa… Significa, então, que nós produzimos diferentes tipos de lágrimas!… Segundo as investigações nesta temática, existem três tipos de lágrimas: as basais, cuja função é lubrificar a córnea; as reflexivas, que reagem a partículas externas (por exemplo, quando cortamos cebola); e as psíquicas, ou emocionais, que são produzidas perante uma emoção forte. Mais impressionante é que, de acordo com o psicólogo holandês Ad Vingerhoets, os humanos são os únicos a produzi-las! Mas qual a sua função, ou objetivo? Charles Darwin, conhecido naturalista e biólogo britânico, autor da Teoria da Evolução, defendia que as lágrimas emocionais não teriam qualquer função, ou propósito. Desta forma, não lhes reconhecia a sua componente emocional. Então, se não existiria qualquer objetivo/função deste tipo de lágrimas, porque é que as mesmas persistiram ao longo da nossa evolução? Atualmente, sabe-se que implica a atuação do sistema límbico, localizado no cérebro, que é responsável pelas emoções. Este sistema atua na estimulação do processamento de substâncias como a noradrenalina e a serotonina que, por sua vez, levam o sistema nervoso autónomo (que coordena internamente o nosso corpo e funciona independentemente da nossa vontade) a contrair a glândula lacrimal. De qualquer modo, apesar de já se perceberem os mecanismos subjacentes, permanece ainda a questão do seu propósito… Porque choramos?

Esta questão tem intrigado também alguns investigadores, que se têm debruçado nesta aventura de descoberta. Neste sentido, existem já algumas ideias que têm vindo a ser consensuais na comunidade científica. A ideia mais conhecida e que explica o porquê deste fenómeno evolutivo permanecer na nossa espécie é que o choro consiste num gesto de “rendição”. Mais concretamente, significa que chorar serve como um sinal social, para indicar aos outros que estamos vulneráveis e precisamos de ajuda. Este aspeto é ainda mais evidente durante a infância: o bebé é indefeso perante o mundo que o rodeia e, de igual modo, através do choro estabelece a comunicação com os pais. Mas… Porque persiste o choro mesmo após sermos adultos? Parece não fazer sentido do ponto de vista da evolução… O psicólogo holandês Ad Vingerhoets defende que o choro é uma ferramenta que permite conectarmo-nos socialmente, para criar laços. Isto porque mostrar vulnerabilidade aos outros é a chave para que eles criem empatia e compaixão para connosco.  E, mesmo quando atingimos a idade adulta, passamos por momentos em que nos sentimos vulneráveis, indefesos e a precisar de ajuda/apoio. Um contributo importante para esta teoria é a evidência encontrada na própria composição das lágrimas emocionais: este tipo de lágrimas contém maior quantidade de proteínas, tornando-as mais viscosas e, por isso, ficam mais “coladas” à pele da nossa face, demorando mais a escorrer. Deste modo, tornam-se mais facilmente vistas pelos outros que nos rodeiam e fornecem-lhes pistas de que precisamos da sua empatia e compaixão.

Porém, as lágrimas podem também aparecer em momentos de muita alegria, servindo como uma forma, de lidar com intensidade da emoção e, assim, voltar a estabelecer o equilíbrio emocional (servindo como uma catarse). No entanto, a função de catarse do choro não é consensual na comunidade científica… Alguns investigadores assumem que realmente é um fenómeno “libertador” a nível psicológico, outros acreditam que essa sensação provém do conforto que os outros nos dão. Além disso, muitas vezes também choramos em privado, sem ter necessariamente a presença de outros… Ou ainda, existem pessoas que não choram, ou quase não choram (existindo já algumas investigações com este tipo de amostra). Por isso, através destas contradições e questões ainda por responder, é possível perceber que há ainda bastante caminho a percorrer nesta temática.

O que é consensual é que a experiência de chorar varia de pessoa para pessoa e pode haver influências, por exemplo, do temperamento, de género ou culturais. Ainda de referir que as lágrimas emocionais são um sintoma/resposta a um largo espectro de emoções, sejam no polo mais negativo, ou mesmo no mais positivo.

Então, a pergunta que vos deixo: Conseguirá a Ciência um dia explicar o propósito de chorar? Ou será um mistério sem resolução? Nós, humanos, somos mesmo seres muito complexos…

Mariana Assunção

Fontes:

Sidebotham, C. (2020). Why do we cry? Are tears ‘purposeless’?. British Journal of General Practice, 70(693), 179-179.

https://rotasaude.lusiadas.pt/prevencao-e-estilo-de-vida/bem-estar/choro-ciencia-explica-choramos/

https://time.com/4254089/science-crying/

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