Opinião: Pastoral Portuguesa

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Socorro-me deste título do norte americano Philip Roth – Pastoral Americana – para titular de forma adaptada, uma crónica que, supostamente, deveria ser fácil de escrever, dada a “clareza” das coisas do presente.

Contudo, é essa suposta clareza que torna tão complicada esta escrita, levando o escriba à sanguínea expressão de Hemingway que declarava num cristalino fatal: “Escrever é simples. Basta sentares-te frente à máquina de escrever e sangrares!”

Os tempos não estão fáceis. Os sinais não passam as suas mãos sobre a pele dos dias e a tranquilidade não é uma palavra a que se recorra para tecer explicações ou formular juízos.

O país passou de um estado de multiplicação de sortidos milagres – economia e resistência à Pandemia – para um patamar inverso, isto é, a Economia em crescendo de agonia – coisa devidamente atestada pelo Governador do Banco de Portugal, justamente o mesmo que poucos meses antes havia proclamado o supremo milagre do lucro do Estado, coisa nunca antes vista e fê-lo agora sem o sorriso com que o anunciara para os devidos efeitos – sendo que tudo isto acontece sem que tal se ache, no mínimo, estranho… tudo porque a “realidade” que é servida leva à cativação da “verdadeira realidade”, à sua substituição por um intrincado de fios que transfiguram o espaço, como se esses fios nada mais fossem do que aqueles que alguém puxa e manipula num afã de espetáculo de Marionetas.

Com a Economia rumo a mais um colapso – que poderia ter sido “amaciado” ou até evitado – se reformas tivessem sido feitas quando tudo o recomendava, ao invés de continuar a servir os ditames da política de pequenas paróquias, ataque a pequenos fogachos e cedência a caprichos ideológicos. Posto isto, e para compor o ramalhete, paira a proto-possibilidade de a “Bazuca” salvadora não passar de uma granada de fumo, algo que apenas substitui espectros e adia o futuro; e surge agora a Pandemia a revelar-se mais ou menos fora de controle, por mais esbracejar que se dedique ao espaço mediático, alegadamente a ser mitigado por medidas cuja lógica não é indumentária constante no armário dos trapos que tapam as suas sensíveis partes.

Concedo que lutar contra um inimigo invisível e traiçoeiro não seja coisa fácil e estar atrás de um teclado a “sangrar”, como alude Hemingway, será provável e surpreendentemente mais confortável e fácil, por mais sangue que se verta no ato. Mas isso não impede que se possa pensar, discorrer sobre os dias e o seu respirar. Aliás, o ceder, o aceitar a agenda servida é o que convém a muitos dos que decidem porque isso desvia o escrutínio para o canto escuro das conveniências, a troco de silêncio ou de indiferença de vária ordem.

Para ajudar e provavelmente de modo não inocente, é servida em paralelo, sob confortável cobertura da linguagem dos escritórios – para os devidos efeitos – uma outra “realidade” que anda ali entre o espontâneo e o forjado, isto é, a discussão sobre os extremismos e a sua cândida dimensão e natureza.

Tudo se explica, mais suscetibilidade menos vulnerabilidade como se de uma competição de medição de fálicos comprimentos se tratasse – os cumprimentos ficam para outras abordagens… – para se aquilatar qual dos extremismos é mais ou menos, pior ou melhor e quais as almas – conhecidas e nem por isso – que lhes servem de referência.

Tudo isto ocupa os espíritos e o “espaço público” agora transformado num extenso campo por onde se corre de forma errática, trocando de direção e destino, fazendo-o aqui e ali como uma escarradeira de desabafos, sem que o horizonte se estabeleça com objetividade e/ou rigor. Pura e simplesmente se “está” e parece que que isso por si só já é prova de existência sendo que, paralelamente, se recorre à memória e aos seus ditâmes de forma seletiva, ignorando que ela, a memória e recorrendo ao polémico Bukowski, se afigura quase sempre “uma péssima desculpa para o presente”.

Localmente, o concelho depara-se com a Pandemia a agravar a situação das já de si débeis estruturas económicas de uma terra em perda e com a sintomatologia da interioridade suspensa nas gotículas dos nevoeiros do Mondego, tudo a acontecer por mais positivismo e otimismo que se tente passar por todos os meios, sob todos os pretextos. E se a cultura do positivismo, por definição, é louvável, já a demais argumentação auto-elogiosa mais não é do que atirar nuvens de poeira para a certificação de que a tragédia deva ser poupada aos sentidos do indígena, induzindo-o na realidade conveniente. São “somente” questões de cultura, que não apenas a política e de uma certa forma de exercer a cidadania, alijada de (alguns) dignos princípios, por mais casas que se lhe dediquem para a acoitar.

Já perto do fundo do texto, tudo isto se parece resumir a um certo fatalismo português, um conjunto de inevitabilidades mais ou menos atávicas, históricas e, lá está, a “pastoral” que nos parece orientar pelos séculos, por mais decretos de mudança e de novos “Homens portugueses” que se anunciem.

Já que convoquei Philip Roth no início para uma livre, e talvez ousada adaptação do título desta crónica, aproveito a sua “presença” para relativizar tudo o que escrevi, porque é sempre possível ver as coisas de outras formas, umas mais certas ou erradas do que outras, sendo que ambas – todas – dão corpo à liberdade para pensar e não caucionam a imposição de coisa alguma.

E a fatalidade do risco de emitir uma opinião, sangrada não da máquina de escrever mas do teclado do computador, leva à (terrível?) sentença de Roth: “Escrever transforma-nos em alguém que está sempre errado.”

António Luís

 

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