Editorial: Porquê reconhecer uma mediação, se não admitimos a outra margem?

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Mais que os ‘factos’ em si ou a [necessária] resolução da negatividade deles advinda, creio que importa refletir a doutrinação subliminar [ideológica!] que alguns deles eventualmente possam suscitar. Ou o aproveitamento dessa circunstância por parte de alguns! Acompanhou-me esta semana a interrogação inquietante se ‘não estaremos a fazer falir as mediações [algumas], tornando-as dispensáveis’. Resultaria daqui uma maximização da autonomia como caraterística única da pessoa humana, que, no limite, poderia tornar a vida num exercício amplo de ‘bricolage’, sustentada em ‘tutoriais’ avulsos e acríticos. Onde o indivíduo é a única medida legitimadora e a sociedade seria suportada unicamente por uma espécie de pacto universal de não agressão. Algo como uma solidariedade pela negativa. Sem proposta e sem projeto. Apenas reativa e mínima. Uma mediação é um elo que une duas margens. Se não admito um ‘lado de lá’ virtuoso ou, pelo menos, não descubro uma estranheza na minha própria pessoa a necessitar de ser descoberta, logicamente que posso abdicar, sem sensação de perda, de todas as mediações. A questão pode ser esta.

É sabido que é imparável, por exemplo, a caminhada para a generalização da realidade virtual e da inteligência artificial. A velocidade destes acontecimentos possui um vigor revolucionário de tal ordem, esmagadoramente maior que a nossa capacidade de apreensão, que é impossível antecipar como será o mundo dentro em breve. Não sendo especialista, creio que subjaz a esta dinâmica, entre tantas outras, a ideia de possibilitar à pessoa uma imersão tão absoluta quanto possível na realidade, reduzindo [eliminando?] os filtros com alguma opacidade que os ‘meios’ [como os conhecemos] ainda representam. E esta experiência está aí, desfrutável e a reclamar a adaptação humana.

A pergunta que me ocorre é como é que uma sociedade que está a [auto]treinar-se para prescindir [de algumas] das mediações, lidará com outras, onde a tecnologia pode ser só uma parte e não o todo. Conseguirá a pessoa uma ‘linha direta’ com a realidade [parte dela] de que pragmaticamente necessita, superando as suas carências pela auto suficiência e prescindindo do auxílio das mediações? Nem nunca, mas de certeza que nem sempre.

Que lugar, desde logo, para a mediação da família na contemporaneidade, mesmo com desenhos múltiplos e preenchida de várias tensões na essência e nos paradigmas? Mesmo a ‘contemporanizar-se’, a família é mediação genética, patrimonial, cultural, em permanência e na liberdade. Que espaço terá, ‘batendo de frente’ com autonomias absolutas, sem abertura para uma porosidade esclarecida e sem darem conta da permeabilidade a ‘mediações discretíssimas’, marcadas também por paradoxos de disfuncionalidade? Pouco… Contradição deste tempo, a rejeição da proximidade, por invasão da privacidade inviolável e a aceitação voluntária, não só da exposição da intimidade, como da presença inquestionada do ‘estranho’ como ‘influencer’ das vidas.

E a Escola parece começar a parecer um lugar ‘prescindível’, ‘zoomificável’. Se a reduzimos a ‘dispositivo’ que debita quantidades mensuráveis de ‘conhecimento’ [informação?], organizado segundo a perspetiva do poder, e ‘mecanismo contabilístico’ que afere que parcela desse ‘saber’ foi assimilada ou expelida, ela pode muito bem deixar de ser um lugar físico. Mas o ponto é que a Escola é um mediador de humanização, de socialização, uma ponte entre as vidas individuais e o Mundo feito das vidas de todos. E não há vida sem corpo, situado em circunstância. Pessoalmente, não vejo como esta complexidade possa ser toda transubstanciada em virtualidade, mesmo se de ponta. Uma coisa é potenciar meios, com criatividade aguçada a gerar mesmo novidade e não transferência ‘requentada’ do ‘contentor velho’ [‘escola clássica’] para o ‘recipiente novo’ [tecnologia]. Outra será fazer dos meios um fim. Que a Escola tenha deixado de ser essa mediação, é uma coisa. Que nos resignemos à não reflexão sobre o modo como ela pode atualizar [não recuperar] a sua identidade, pautando-a sossegadamente pelo mínimo, é uma falência civilizacional.

Nesta lógica reflexiva cabem todas as instituições que são lugares de relação. A título de exemplo, as igrejas físicas, espaços de mediação também, tomam esse nome em função das pessoas que congregam e da atividade que realizam, sendo, por definição, ‘lugares vividos’ não transferíveis apenas para a virtualidade. De modo semelhante, a cultura parece reduzida a uma ‘performance’, limitada agora na execução e no consumo, com trágicas consequências para os agentes. Mas também a cultura é mediação, com múltiplas estéticas, da relação de cada um consigo e com o mundo. E é património cuja auto apropriação é impossível. É herança para capitalizar. Logo, não se suporta como construção exclusivamente autónoma. Irá certamente encontrar linguagens diversas para se dizer, mas não poderá prescindir de todo da dimensão somática e material. Aprender só no auto didatismo não parece ser caminho e, simetricamente, consumir só o que ‘entra em casa’, escolhido ao sabor do critério de uma subjetividade absolutizada e sem confronto, pode ser, no limite, uma fecundação geradora de esterilidade.

E a informação em processo de desinstitucionalização, democratizada sobretudo nas redes sociais, está também a deixar desvanecer o seu papel de ‘media’ [meios]. Será irracional e anacrónico não reconhecer virtudes a esta difusão informativa. A riqueza da polifonia de vozes e a vez conferida à pessoa anónima estão entre elas. Mas ‘pensar’ a realidade apenas à luz de um ‘tweet’ faz confundir reflexão com desabafo. Encurtando o número de palavras, diminuímos as possibilidades de ponte com o Mundo e a Vida. E estes não ficam necessariamente menos compreensíveis, mas inevitavelmente mais estreitos. E nós mais pequenos e menos expansíveis, porque conformados com a menoridade.

Concretizando, quando falamos, por exemplo, do fim do papel e da imparável erupção do digital [inegável avanço civilizacional], não sei se, por arrasto, não estaremos a permitir o fim de outros ‘meios’ [mediações] dificilmente convertíveis. Se é verdade que vivíamos emaranhados em muita ‘ganga’ dispensável, talvez seja prudente não embarcar numa apressada simplificação do papel das mediações sem a consistência do tempo. Os meios estão em função dos fins. Provavelmente são estes que não estão muito claros. Perdendo de vista a reflexão sobre o ‘para quê’ das coisas, enredamo-nos nos inconsequentes ‘porquês’ que nos fazem caminhar só para a fonte. Como este exercício perguntador cansa, facilmente desistimos dele. Apressadamente retiramos as metas do nosso horizonte e tornamos as mediações dispensáveis. Supostamente por não terem respostas, sem nos perguntarmos se fizemos as perguntas corretas.

 

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