As palavras que descem da Serra: Shalimar o palhaço de Salman Rushdie

0
27

Hoje da Serra as palavras a descer pertencem a Salman Rushdie. Dizer que pertencem será correcto? Na verdade quando um escritor verte num monitor de computador (claro que já não é em papel!!!!) as palavras que formam uma obra, deixa de ser dono delas, elas passam a ser uma oferta aos leitores, podendo ser até uma oferta gratuita, se formos a uma biblioteca pedir emprestadas essas palavras. Portanto vou reformular, hoje da Serra descem palavras que pertenceram a Salman Rushdie e que ele resolveu doar ao mundo.

Todos nós já ouvimos falar deste homem, que nasceu em Bombaim em 1947, e que foi condenado à morte pelo Aiatola Ruhollah Khomeini, depois de ter escrito os Versículos Satânicos. Esta obra foi publicada em 1989 e agitou um mundo já de si agitado, o do Islão. Comprei, tentei ler e desisti. Seria demasiado jovem? Demasiado ignorante? Provavelmente as duas coisas…em relação ao Islão continuo a mesma ignorante que era então, a juventude essa foi passando. Um dia hei-de ler. Por hoje trago às lides Shalimar o Palhaço.

Salman Rushdie

Shalimar o palhaço

“A religião era um disparate e, contudo, as histórias religiosas comoviam-na, o que era confuso. Será que a sua mãe morta, sabendo do seu ateísmo, teria chorado por ela, como uma santa?”

“-Não penses na corda como um trilho seguro no espaço- tinha-lhe dito o pai. -Pensa nela como um trilho de ar compacto. Ou pensa no ar como algo que se está a preparar para se transformar em corda.(…) Abdullah Sher Noman  iniciava assim o filho num mistério.”

“ A primavera era uma ilusão de renovação. As flores abriam, os vitelos e os cabritos nasciam e os ovos fendiam nos ninhos, mas a inocência do passado nunca mais voltava. Boonyi Kaul Noman nunca mais voltou a viver em Pachigam. Viveu durante o resto da sua vida nessa cabana na colina cheia de pinheiros onde, um dia, uma profetiza tinha decidido que o futuro seria demasiado horrível e tinha ficado à espera, de pernas cruzadas, da morte.”

Tudo o que sou é a tua mãe que me faz, começava a carta. Cada golpe que me atinge é o teu pai que o desfere.”

Sinopse

A escrita de Rushdie, sendo única, tem laivos interessantes do realismo mágico sul americano. É uma escrita intensa, prenhe de cor, de cheiros, de sensações tácteis. Todos os nossos sentidos são convocados para a leitura. Somos obrigados a viajar pelo interior das personagens, vendo o belo e o horrível que coabitam em cada um; pelos olhos de cada uma vemos o mundo, que assim assume, obrigatoriamente, nuances diferentes. As descrições espaço-temporais são de uma vivacidade que dá para sentir na pele a água gelada do MusKadoon ou o toque do Sol num campo florido de açafrão.  Os mortos falam que se desunham, umas vezes coisas agradáveis outras nem por isso.

A obra começa pelo fim e numa analepse velada viajamos do presente até ao passado. No terceiro paragrafo do texto o leitor fica a saber que o embaixador morre, pouco depois fica a saber que é assassinado pelo seu motorista que se chama Shalimar. A riqueza impressionante da obra está nos motivos e nas vidas que conduziram a este final. O cenário é Caxemira, o vale paradisíaco que, depois da saída dos ingleses da região, é incorporada na India (hindu) embora a sua população seja maioritariamente islamita, o que gera uma banho de sangue. A história é de amor. Um amor de dimensões diferentes. Noman ama Boonyi de forma absoluta. O amor de Boonyi é titubeante. O resultado é um crime passional que tinha tudo para ser um crime político uma vez que o embaixador esteve embrenhado no nascimento do conflito que dizimou milhares de caxemirenses e para uns foi deus e para outros o demónio. Da procura incessante do Amor por Boonyi nasce India, uma mulher que aos 24 anos ainda não consegue dormir sossegada por no seu quarto ter continuamente um intruso, que mais não era do que uma ausência dolorosa, a da mãe que nunca conheceu. Este intruso desaparece com a morte do pai.  A mudança de rumo de Boonyi mata Noman, na altura já Shalimar o palhaço. Do menino feliz e sorridente, embora já aprisionado num corpo de homem muito disciplinado e exigente com as suas performances, nasce um assassino eficientíssimo que esteve no centro das guerrilhas à volta de Caxemira, que continua a manter no rosto as rugas de felicidade de outrora. Cabe a India a reposição de uma certa moralidade…

Boa semana com livros!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui