História(s) mal contada(s): Muitos palitos gastavam as freiras!

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Quando se fala da origem da manufactura de palitos em Lorvão é costume fazer-se referência a um documento do séc. XVII, mais propriamente a uns livros de contabilidade do mosteiro onde aparece a quantia anual de seiscentos mil réis para pagamento de palitos.

Desde Alexandre Herculano (cf. Opúsculos), passando por Lino d´Assumpção (As Freiras de Lorvão), se disseminou a ideia, provavelmente acertada, de que tudo aquilo servia, no fim de contas, para encobrir gastos, sabe-se lá quais, que dificilmente podiam ser escriturados de outra maneira.

Parece que nem seriam as freiras a cometer essas “trafulhices”, mas sim um grupo de frades cistercienses, que organizavam a contabilidade oficial à sua maneira e abusavam daquele estatuto, roubando para uso próprio, em luxos e desregramentos, tudo o que podiam.

Além de Herculano e Tomás Lino, encontrei uma outra referência a este caso.

Alberto Pimentel (Espelho de Portugueses, 1901), escreve: “Em 1853, Alexandre Herculano, n’uma carta que ficou célebre, implorou a caridade pública em favor das últimas freiras de Lorvão, que a esse tempo, espoliadas por vários modos, estavam reduzidas a não ter pão para matar a fome. Um dos modos de espoliação era exercitado por cinco egressos bernardos, que, administrando os rendimentos das freiras no tempo em que elas ainda eram ricas, viviam à larga n’um palacete contiguo ao mosteiro. Nas contas anuais que eles davam, para lançar poeira aos olhos da comunidade feminina, figuravam verbas escandalosas, tais como esta: palitos, 600 000 réis.”

“Este roubo torpe de 600 000 réis por ano, perpetrado na própria localidade onde o palito podia ser adquirido directamente da mão do manufactor e, portanto, muito mais barato do que depois de entrar no comércio intermediário” permaneceu durante muito tempo na memória das gentes e “foi desde então que começaram a entrar palitos nos orçamentos em Portugal. Os frades foram-se embora, mas os palitos ficaram, especialmente no orçamento do estado.

Uma “página negra” na longa e singular “história do palito português”, conclui o autor de “Espelho de Portugueses”.

 

David Gonçalves de Almeida

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