Opinião: É urgente a economia local

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Todas as crises trazem consigo a discussão sobre o modelo de desenvolvimento económico ou as políticas económicas que lhe deram origem e podem conduzir à recuperação.

A crise económica sem precedentes que estamos a viver, e que se irá agravar, não teve origem no modelo de desenvolvimento económico ou políticas económicas. Como sabemos teve origem numa crise sanitária à escala global.

No entanto, há uma palavra que, em tudo o que estamos a viver em termos económicos, soa mais alto do que todas as outras: resiliência. A ideia central associada a esta palavra é aguentar, não ser muito afetado, não seguir na torrente de perda de valor, perda de riqueza, desemprego, fome … e estar em condições de recuperar mais rápido desta catástrofe que nos assolou.

A lição a tirar é que o modelo de desenvolvimento económico que temos, massificado, de comercio global, de produção em massa numa parte do globo, para consumo em massa na outra parte, este sistema de interdependências económicas globais, em que uma crise sanitária na China pode espalhar-se rapidamente pelo mundo e aniquilar a economia, este modelo económico não é resiliente.

Além desta notória fragilidade, é evidente uma outra ainda mais grave: este modelo, com uma crise global, precipita a concentração de riqueza e as desigualdades. Quem ganhou com esta crise, não foram a generalidade das mercearias das aldeias ou os produtores locais, foram sim colossos como a Amazon e outros, poucos, fornecedores globais. Quem ganhou mais foram as mega cadeias, que multiplicaram a sua riqueza, em contraste com falência de milhões de pequenos produtores, comercio, hotelaria e turismo por todo o mundo.

Surge assim a urgência da alternativa a este modelo. E essa só pode estar na economia local.

Não há margem para um crescimento económico sustentável global.

Aproximar a produção do consumo é urgente, não só porque torna a economia mais resiliente, como facilita a harmonia entre a criação de riqueza e a sustentabilidade ambiental

Há décadas que a União europeia desenhou políticas e desenvolveu programas de apoio à economia local. Com financiamentos destinados a promover a competitividade dos territórios, valorizando os produtos e comercio locais, com prioridade para a instalação de pequenas unidades produtivas centradas nas competências, recursos e produtos locais, como alternativa, por um lado, à instalação impactante, mas efémera, das grandes multinacionais, por outro lado, menos dependente da instabilidade e impacto da economia global.

Infelizmente, não obstante a disponibilidade de milhões de euros nos últimos quadros financeiros de apoio da União Europeia, muito pouco foi feito por uma verdadeira economia local. Poucas empresas centradas nos recursos locais foram criadas, demasiado poucos empregos surgiram, muito poucos negócios fluíram.

Os Municípios estão na linha da frente da responsabilidade em criar condições para o florescimento da economia local.

Em Penacova, em concreto, urge uma estratégia sobre em que sectores apostar, que produtos promover e valorizar, com mecanismos de apoio às iniciativas empresariais. Não é compreensível que não exista no nosso concelho um verdadeiro gabinete de apoio e orientação para as iniciativas empresariais locais.  Faltam políticas e medidas consistentes para a promoção de negócios centrados no território, nos seus recursos e competências.

A intervenção municipal na economia local não se esgota em festivais gastronómicos ou feiras. Urgem políticas ativas, permanentes, consistentes e persistentes, de promoção de iniciativas de produção e comércio locais.

Não bastam iniciativas pontuais, ditadas por interesses de circunstância.

 

Mauro Carpinteiro

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