Editorial: Detalhistas e conjunturistas

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Detalhistas e ‘conjunturistas’. Desta agrupação poderia resultar o melhor dos mundos. Nos génios, tais aspetos agregam-se. No mortal comum, a predominância de um converte-o em positivamente dependente do outro. Seres humanos do detalhe e seres humanos da conjuntura. Precisamos de congregar estes protagonistas em nome do bem comum, mais amplo ou mais circunstancial.

Em paralelo com a fulanização da vida pública, que confunde pessoas com instituições [sobretudo partidárias, já que as ideológicas – quase – não existem por aqui], considero esta tendência de fazer do detalhe a conjuntura e de trocar esta por aquele um dos grandes ‘envenenamentos’ dos diálogos locais. Falar de macro conjunturas sem detalhe é prescindir do chão. Absolutizar a casuística do detalhe, sem reflexão conjuntural faz mirrar a circunstância até ao asfixiamento. No primeiro caso costuma situar-se a retórica propagandista ou a verborreia panfletária. No segundo, a perversão falaciosa de uma agenda escondida ou o simplista ‘ativismo porreirista’.

O olhar da conjuntura foca-se, por exemplo, na reflexão das grandes correntes doutrinárias que subjazem nos bastidores na vida humana. Ou na sua ausência. Promove o espírito crítico, que adverte os menos despertos para o facto indesmentível de que todos agimos motivados por uma ‘doutrina’ e que, quando não a pensamos discernidamente, ela é-nos subliminarmente inculcada por um qualquer ‘sistema’. Atende ao grande Ecossistema, do qual somos uma minúscula porção e descortina as conexões atualizadas e potenciais. Estuda e aprende, importa e promove saber esponjoso e poroso. Programa e avalia. Refaz, porque escuta o bom senso distribuído na comunidade. A conjuntura não é moda ou ocasionalidade, não é ‘ziguezagueamento’ nem arrogância, ‘fundamentalismo’ ou ‘xenofobia’ de escala local. A conjuntura dá Mundo ao local. Sem este, encerrado ‘só’ em qualidades bairristas, está condenado à irrelevância, por muita cosmética que se sobreponha em camadas. O conjunturista é o ser da grande narrativa e da hermenêutica como serviço ao bem comum.

O detalhe é apanágio de quem desfruta do tempo como oportunidade, de quem repara no simples e no frágil, de quem molda de beleza as coisas pequenas. Ser detalhista é ficar sobressaltado com a injustiça, a ignorância, a subversão da ética mínima. E não se resignar à normalização desse estado de coisas. O detalhe é o espaço do fermento, com boa relação com o tempo, que aprecia o instante, mas não é escravo do instantâneo. Sabe-se num intervalo da história e não reclama para si o protagonismo da história inteira. O detalhista é o ser do pormenor, da decifração autopsiadora da realidade, que lê a parte em diálogo tensional com o todo.

Nesta lógica, os lados, como as diferenças, são [parte] [d]a mesma coisa. Precisam um do outro para existir. Apenas sobrevivem por causa dessa referência simétrica. Fazem-se um ao outro e não subsistem sozinhos. Não é socialmente saudável esbater esta tensão. Razoável e são é alimentá-la de detalhes preci[o]sos e de conjunturas emoldurantes e perspetivadoras, analíticas quanto baste, mas prospetivadoras na essência.

Assim, um estendal tentacular de ‘radares’ capazes de dar voz aos detalhes silenciados, de trazer para os centros [plurais] as periferias marginalizadas, de traduzir a ética da proximidade e do cuidado em reivindicação consciente e consistente, seria um itinerário lúcido e desejável. Sem laivos ‘pidescos’, ‘voyeuristas’ ou amestradores das consciências. Logo, sem subordinados submissos, ‘acólitos’ laudatórios, rebanhos acriticamente arregimentados. A compaginação desta face com a de plataformas conjunturais não autistas, com cheiro e sabor a terra e a pessoas, com a inteligência e a criatividade motivadas e mobilizadas talharia para o melhor o nosso território.

O que distingue os lados eventuais não é a ética dos protagonistas. Isso, a existir, esgrime-se na autonomia do poder judicial, que tem narrativa e cenário próprios. A marca identitária deverá ser, onde a ‘coisa’ é levada a sério, o edifício dos princípios. É possível pensar um progresso sustentado no mérito e na crença de que quem o conquista possui um fundo solidário e distributivo. E isto por essência lógica, como raciocínio silogístico consequente, que nos diz que ao sucesso de alguns corresponde algum [mesmo se menos] sucesso para todos. Tudo regido por um sistema com ‘vida própria’, com uma intrínseca capacidade auto corretora. É possível igualmente pensar um progresso baseado na luta contra as desigualdades de ‘classe’, aproximando oportunidades e colocando os protagonistas na maior possível igualdade de circunstâncias. Na primeira hipótese, teríamos a acentuação lúcida e legítima do valor da liberdade. Na segunda, a centralidade está conferida ao valor, igualmente lúcido e legítimo da igualdade. As ‘terceiras vias’ possíveis e procuradas são coisa séria, que não cabe num espaço exíguo de reflexão. Talvez a linha possa ser a da fraternidade, num tempo em que emerge a conclusão de que não basta um cuidado de proximidade, denunciando que a nossa cumplicidade humana precisa de alcance cósmico.

É daqui que tudo parte. Com a soma do detalhe, mas sem anular a distinção conjuntural das faces da moeda, porque isso significaria a insignificância da moeda inteira. Pode-se [talvez se deva] manter a tensão e isso significará viver na riqueza da fronteira e do paradoxo. Pode-se colorir a nossa liberdade individual e isso significará publicitar, não sem risco ou preço, o nosso empenho. É legítimo. Felizmente, pode-se. E essa é a nossa grande riqueza.

Luís Francisco Cordeiro Marques

 

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