Editorial: Linguagem e equívocos ou viver [n]o paradoxo com racionalidade

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‘Ouvir dizer’ talvez seja, em simultâneo, o mais comum e o pior dos argumentos para dialogar ou decidir. Próprio de lideranças ancoradas em absoluto na técnica, a quem falta o estudo humanístico-social fundamentado e a relação com a pluralidade das pessoas para sustentar a discussão e a decisão e que, por isso, se resignam aos ‘correios’ seletivos e parciais. Próprio de ‘manhas’ de bastidores, de quem quer ‘dividir para reinar’, tomando os outros por ingénuos ou parvos [em sentido etimológico e ético]. Próprio de ‘chafaricas’ complexadas da sua pequenez, que comem, apressadamente e queimando etapas, do fruto-da-árvore-da-ciência-do-bem-e-do-mal e que, em princípio, não crescem também por causa daquele complexo e desta avidez gulosa de quem se aventura num repasto sem estômago para tal. Como diz a letra da canção, a outros propósitos, não temos ainda a noção do fim desta encenação débil e não damos conta de que se trata de uma “estúpida canção” que já só nós ouvimos. Nem sequer vale o argumento de “vender pelo preço que comprámos”, para, no limite responsabilizar o ‘vendedor da informação em saldos’, como o algoz incrimina o mandante do crime. Ou a tese de que ‘acusar’ no espaço digital oferece oportunidade para o contraditório do ‘acusado’, sobretudo por ser dúbia a legitimidade do ‘acusador’, questionável a arena argumentativa [pode haver quem não queira «ir a jogo» ‘aí’] e resvalante a tendência para ‘simplificações’, ‘superficialidades’ e mesmo para ‘aldrabices’ estratégicas e arremessadas como verdade. Isto diz algo do caráter dos a[u]tores, sendo que até concordo que isso ‘é lá com eles’ e é saudável que a liberdade de expressão não se coarte, porque uma ‘parvoíce’ dita é um contributo para o bem comum mais grandioso que uma silenciada, dado que assim se sinaliza e se fica a perceber claramente o que temos de recusar. Mais inquietante é que tal prática advenha de elites responsáveis ou com pretensões a sê-lo. Preocupante mesmo é esta tendência ‘quadrilheira’ de ‘dizer coisas’ [‘certas-e-determinadas-coisas’, muitas vezes] só por ‘ouvir dizer’ se perpetue como cultura social inevitável. E, pese embora a linguagem ser fonte de equívocos, não, não tem de ser assim.

Neste pano de fundo, generaliza-se o receio de ‘decidir’. Teme-se o aborrecimento desnecessário desse ‘escrutínio’ tonto. Medem-se as consequências do que ‘vão dizer’. Afere-se se o ‘martírio’ vale a pena e tem algum sentido. O drama é que a ‘não decisão’ é uma decisão. E as consequências da omissão são frequentemente mais nefastas e profundas que as do erro. Favorecem uma multiplicidade muita ampla de interpretações, transmitem insegurança ou passos titubeantes, enfraquecem a energia da convicção. Logo, geram auto exclusões da militância mobilizada e demissões da construção do bem comum, deixando a sua construção para aqueles de quem discordamos, mas a quem, afinal, até temos de estar gratos, por todos os dias, em nome de todos, arriscarem um prognóstico antes do jogo começar. E sim, temos todos responsabilidades nisto.

A comunicação vaga, silenciada ou excessivamente calculada até se tornar dogmática, é uma das consequências problemáticas deste ‘estado de coisas’. Simultaneamente promove um suicídio dos regimes civilizacionalmente consensualizados e liberta muito espaço vazio para contrapoderes duvidosos no conteúdo, na forma e na finalidade. Alternamos essa comunicação difusa com um clima de ‘guerrilha mesquinha’, onde creio que, sem se dar conta, se fala dentro de um ‘aquário’ que está a ficar sem água – sem contexto e, portanto, com validade limitada – e onde os peixes graúdos ressuscitam uma certa tendência predatória, consumindo as possibilidades que em seu redor já escasseiam. Em nome de um perfecionismo teórico e esmagador, quer da parte da iniciativa, quer do escrutínio, esquecemos um elemento próprio da condição humana, que é errar. E achamos fraqueza assumir e pedir desculpa por isso. Ou aniquilamos no caráter quem o faz, esquecendo que esse gesto é precisamente aquilo que o enobrece e que o distanciamento eventual se centrará apenas e só ao nível das ideias ou dos caminhos para as fazer prosseguir. E sim, temos direito à opinião, mas isso é uma responsabilidade que acarreta deveres, nomeadamente o de não confundir a mensagem com o mensageiro.

Por fim, três notas sobre os meios de comunicação social, nomeadamente em sede regional. No tocante às notícias, a não imparidade dos mesmos equivale a descarado frete. E aqui aplica-se o princípio lógico do terceiro excluído, a saber «ou é, ou não é». No tocante à opinião, precisam de ouvir várias ‘parcialidades’, sem espaço para unilateralidades dogmáticas, sem pactos com carreirismos calculados no anonimato e assumindo uma responsabilidade formativa do senso comum. No tocante à ‘imparcialidade’, dizem-me que é uma utopia que não se verifica, mas a questão é se é ou não um valor decisivo. O facto de não se concretizar não diminui a grandeza do objetivo. O ponto não é esmagar os paradoxos que animam a vida social. Trata-se, simplesmente, de não ceder a uma vivência estritamente afetiva dos mesmos e de trazer para a discussão a luz da racionalidade. A comunicação social regional não pode ser o quarto poder que a ‘doutrina’ proclama, simplesmente porque não há escala para tal. Nem conjunta e muito menos separadamente. E não, não tenhamos receio, porque não nos vamos colonizar uns aos outros, vamos apenas dar credibilidade à nossa dissensão.

Por maioria de razão no espaço regional, a comunicação sobrevive debilmente de costas voltadas com os poderes, independentemente de quem protagonize ambas as realidades. Simplesmente porque os poderes – públicos, por obrigação, e privados, por iniciativa – são os grandes motores da dinâmica social. Sem isto, os meios de comunicação não têm conteúdo relevante, o seu óbito é apenas um adiamento e alguns ‘acenos’ ressuscitantes ou miméticos inconsequências a prazo. Mas sem os meios também os poderes não alcançam expressão e cidadania para as suas iniciativas – no limite, não existirão porque ninguém noticiou – e empobrece-se o registo da narrativa que fará para os vindouros a história. Até porque, é ainda muito opaca a certeza de que a fugacidade do digital democratizado [vulgo, redes sociais ‘pessoais’] seja ‘o’ veículo do registo da memória coletiva. Nada disto tem a ver com ‘vender a alma ao diabo’. É apenas de inteligência que se trata.

Luís Francisco Cordeiro Marques

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