Opinião: Usar a máscara com o nariz de fora

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Quantas pandemias – tão más ou piores do que esta – não teríamos já enfrentado se não tivéssemos vacinas?

Atualmente, porém, vê-se com preocupação o crescimento dos movimentos antivacinas, alimentados por pessoas mal informadas que propagam que a vacinas fazem mal. Negam os riscos de doenças e os benefícios imunizantes das vacinas. Em suma, negam a sua importância para a saúde mundial.

Contudo, é exatamente o contrário: apenas por causa das vacinas a Humanidade conseguiu erradicar doenças que traziam sofrimento e mortandade a larga escala, como a varíola, uma praga que ceifou milhões de vidas durante séculos, e está perto de acabar com outras doenças, como a poliomielite. Não se pode retroceder nesta área, pois corrermos o risco de trazermos para este tempo – o nosso –  enfermidades que a ciência já havia dominado ou até mesmo erradicado.

Com a pandemia de Covid19, surgiu uma verdadeira pandemia de negacionistas, que negam que haja uma pandemia e que a doença seja real. Negam a ciência, não acreditam em médicos, virologistas e cientistas. Alegadamente, defendem a liberdade individual, mas esquecem-se que vivemos em sociedade e que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Negam a segurança dos outros, o uso da máscara é considerado desnecessário, justificado em que tudo isto não existe, de facto. E, nos sítios onde é obrigatório, quantas vezes não usam a máscara com o nariz de fora, não por descuido ou distração, mas como uma atitude assumida. Aliás, fazem questão de ostentar este pormenor, mas de maior, e estão em todo o lado –  nos locais de trabalho, nos hipermercados, e nos mais diversos locais públicos.

Negando a ciência e o conhecimento cientifico, nega-se a realidade em nome de outros valores, mas o niilismo traz o fim do mundo na ponta do nariz de fora da máscara.

O vírus agiu como um catalisador para algo que já surgia visível na sociedade: o aparecimento de movimentos sociais e políticos que fazem da discórdia e da desconfiança perante a ciência o seu mote. Uma pandemia da imbecilidade em que o presidente Bolsonaro é supra-sumo, o qual questionou os possíveis efeitos colaterais da vacina contra o coronavírus, afirmando que não há garantia de que esta não transformará quem a tomar “num jacaré” (“Lá no contracto da Pfizer, está bem claro nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu”, disse).

As redes sociais encheram-se de uma parafernália de especialistas de almanaque, com menor e maior capacidade de contestação e refutação, que deveriam deixar a discussão e divulgação de conhecimentos para quem domina, de facto, essas especialidades e que são cada vez mais especializadas e minuciosas.

A confiança na ciência e nos cientistas que investiram anos e anos das suas vidas a produzir conhecimento científico e o respeito pelas decisões políticas que devem seguir a ciência para conter a pandemia global, devem ser promovidos, não no amigo/colega/conhecido que leu umas coisas e viu uns vídeos na Internet.

A ciência não é perfeita, mas também não é estática, está em constante evolução em busca de mais e melhor conhecimento, o método cientifico apesar das imperfeições, salva vidas humanas. Sem o conhecimento proporcionado pela ciência ficaríamos à mercê de charlatões e de crendices. É fundamental aprofundar o pensamento crítico, desarmar charlatães e impedir que ideologias baseadas em mitos se propagem ignorantemente pelas sociedades em benefício apenas daqueles que precisavam desse obscurantismo para ter poder.

As vacinas, os seus efeitos e eficácia, não se tratam de uma opinião. Advêm de estudos científicos, fundamentados, criticados, refutados, verificados, replicados há décadas. Salvaram e salvam milhões de vidas. Aumentaram a esperança média de vida, de uma vida que se quer vivida com qualidade. São uma das melhores invenções da Humanidade. É de lamentar ver a quantidade de pessoas que, nos últimos anos, têm vindo a público apoiar crenças, sem qualquer juízo crítico na análise dos factos.

A vacina desenvolvida em tão pouco tempo – numa celeridade nunca vista –  representa um incrível esforço de cientistas à escala planetária que se uniram para lutar contra este coronavírus, os quais são uns verdadeiros heróis, e por muito que queiram tirar-lhes o justo foco.

Com as vacinas – não obstante, estarmos ainda longe do fim deste pesadelo – foi dado o primeiro passo de um caminho que se pretende seguro e confiável.

Aceito que as pessoas tenham a liberdade de não aceitar a ciência e de não tomar qualquer vacina. Que vivam num mundo infestado pelos demónios da negação e da conspiração, e que morram mais cedo se assim quiserem. Mas a voz da razão tem que ser maior. Para que continuemos a resolver pandemias em menos tempo do que o que alguma vez resolvemos. Para que nós, e as pessoas de quem gostamos, avós, pais, filhos ou netos, possamos viver mais tempo e com qualidade.

Que morreram com Covid- 19 já mais de um milhão de pessoas ao redor do mundo, é um facto. Que os sistemas de saúde dos diversos países – inclusive o alemão, um dos melhores do mundo e com mais recursos – estão sobrecarregados e mesmo à beira do colapso, outro facto. Que as vacinas são o melhor facto, não há qualquer dúvida.

Posto isto: fique em casa, desinfecte as mãos, use máscara a tapar o nariz, e tome a vacina quando chegar a sua vez.

 

Marília Alves

 

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