Editorial: Profecia-do-bem

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Resisto ao balanço habitual. Aliás, ‘balançar’ é ‘lançar para trás’, como impulso para ‘lançar para a frente’. O centro é a profecia, não a reminiscência. Não apagar a memória, registar e recordar é diferente de ‘viver disso’. Quer para o ‘mal’, no sentido do anátema inquisidor. Quer para o bem, no sentido de ingénua positividade. Prefiro pensar a retrospetiva como recordação [à letra, trazer ao coração], para armazenar no ‘sítio certo’ e enquanto experiência de reconciliação com a historia, com os espaços, com as pessoas… Connosco próprios… Esta será a ideia mais interessante de balanço. Profética, com esperança de carne, chão e inteligência… Mas muito para lá disso.

Este parece ser o tempo da urgência do silêncio. Da sua busca, pelo menos. O diverso, múltiplo e avassalador ruído, além de fazer perder as palavras, ensurdece e impede a escuta e a tecelagem do projeto. Do excesso de ruído sai espuma e esterilidade. O frenesim destrói o tempo como oportunidade de reflexão e criatividade. Do estilo de vida frenético nascem lugares comuns banais, solidão e encurtamento de tempo, quando as luzes da ribalta se apagam. A rapidez voraz consome e esgota os espaços, transformando a utilidade e o resultadismo nos critérios ‘mater’, que tornam descartável tudo o que escapa a esta catalogação. A rapidez estreita negativamente os espaços, porque diminui a nossa capacidade de os dizer. E espaço e tempo são categorias decisivas para dizer as palavras que constroem a identidade e a história.

Esta oportunidade histórica parece ensinar que da resistência temos de passar à convivência, ainda que a vivência não possa mais ser a mesma. Há que integrar socialmente a neutralidade ética da diversidade, sem a pressa de a rotular como boa ou má. É, tão só, outra coisa. Mesmo que, por vezes, seja a redefinição da matéria-prima-de-sempre. Importará que o novo não seja ávido escravo da novidade, nem refém do requentamento. Por vezes, tratar-se-á somente de melhorar o bem que já acontece, como alternativa aos partidários do salto da revolução ou da alteração paradigmática. A nostalgia do regresso tolhe o futuro.

Uma profecia-do-bem pode ser, esta ocasião, um programa que nos balance ‘para a frente’.

Formar e fixar juventude. A formação precisará de um traço criativo geo-cultural. Leio aqui a possibilidade de pensar no melhor das pessoas, mas tendo o território diante dos olhos, com ‘egoísmo não exportador’. Não se trata de ‘tirar mundo’ aos jovens, mas de trazer até nós o Mundo que inevitavelmente possuem. Para isso exige-se uma formação de excelência, do ponto de vista humanístico e técnico, com adaptações curriculares à identidade do território que se está a construir. É possível a formação não ser a-espacial e a-cultural. Sem desprimor para a questão do emprego, valerá a pena estudar as questões da residência [oferta, qualidade…] e das possibilidades de deslocação/comunicação. Importará a coragem de tornar os jovens presente e não apenas futuro da construção do bem comum. Penso nas Escolas.

Envelhecer criativamente e cuidar criativamente dos mais velhos. Envelhecer é um bem, uma inevitabilidade querida e um património. Como tal, a sociedade será tão mais saudável quanto for capaz de ‘treinar’ a agenda da velhice. Nomeadamente, ‘aprendendo’ e habituando-se a fazer algo mais que trabalhar e valorizando coisas que estejam para lá do ativismo desenfreado, dito ‘útil’. Programamos um pequeno período de férias com pormenor, por exemplo. Por maioria de razão, devemos programar um período de vida que desejamos ainda longo e de uma qualidade que não se deixa equivaler a utilidade. Do lado de quem cuida, é exigível, e será inevitável para a sobrevivência, ir além da formatação ‘estafada’ do ‘acondicionamento institucional’ e do ‘take away’ solidário. Penso nas Instituições de Saúde e Solidariedade Social.

Sentido de pertença. ‘Queremos ter bom ar’, atmosférico e estético. ‘Queremos que a natureza viva aqui’, do ponto de vista da possibilidade de fruição ambiental e em ordem à produtividade. Reclamamos por vezes [e bem!], como critério de governança, atores que conheçam o Concelho. Talvez seja bom trabalhar um pressuposto: que o Concelho se conheça. Isso tem que ver com muitas coisas, mas certamente também com uma dinâmica que torne a marca [aquelas ou outras] impressões tatuadas e não ténues ‘marcas de água’. Imagino um território policêntrico, descentralizado, com especializações e com fio condutor. Com criação de escala em nome da qualidade e com a itinerância necessária para que não existam margens. A tentação da absolutização de um centro magnetizador do todo pode ter um efeito perverso, porque muitos têm perto centros com outra capacidade sedutora. Penso nas Autarquias locais.

Estruturas com programa sistemático. Podíamos associar os binómios associações com projeto[s] e discussões com conteúdo, por exemplo. No fundo, trata-se de preencher de conteúdo os ‘contentores’ que possuímos. Sem recheio, auto destruir-se-ão. Não está em causa a necessidade de equipamentos, mas o questionamento sobre o que se faz com que eles e o desejo de que não nos contentemos com a fachada. E isto carecerá de rasgo e da persistência que não desista. Para que apareçam hábito e militância. Penso nas Associações.

Dizer escolas, autarquias, instituições sociais e de saúde e associações é dizer Pessoas. É dizermo-nos a nós, na nossa capacidade responsável de construir comunidade. E este é o ‘ouro’ que tem de ser vendido às empresas, que gerarão empregos e riqueza. O resto é tecnocracia. Investirão em Penacova aqueles que estiverem convencidos que aqui estão os melhores. Demorará a profecia. Mas será consistente.

Um ano muito bom!

Luís Francisco Cordeiro Marques

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