As palavras que descem da Serra: Peito Grande, Ancas Largas de Mo Yan

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Hoje é o primeiro domingo deste ano que se quer da Graça. Da Serra sai um peso pesado. Diria mesmo muito pesado, em tamanho, mas sobretudo em conteúdo. Vem da China, ou pelo menos por lá foi engendrado. É, sem dúvida, maravilhoso… de uma crueza nas descrições que farão doer as almas mais empedernidas; transmite-nos um retrato que, eventualmente, nos fará entender o porquê de se venderem, em pleno sec. XXI, animais selvagens, vivos, para a alimentação humana nos mercados chineses.

Fiquemos com as Palavras de Mo Yan (significa “não fale”), prémio Nobel da literatura em 2012, no seu romance Peito Grande, Ancas Largas.

Mo Yan

Nesta foto tirada na terça-feira 2 de Agosto de 2011, o escritor chinês Mo Yan posa para fotografias num teatro em Pequim. Mo foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura na quinta-feira, 11 de Outubro de 2012, motivo de orgulho para um governo que tinha deserdado o único vencedor chinês anterior do prémio, um crítico exilado. (AP Photo) CHINA OUT

Peito Grande, Ancas Largas.

Sinopse

Este romance retrata a China de antes e depois da revolução cultural. O quadro que nos é apresentado é de um povo pouco solidário, em que os homens exploram e maltratam as mulheres, e em que as mulheres maltratadas se tornam facilmente em maltratantes, se a ocasião a isso propiciar. As descrições de paisagem são de tal forma realistas que é impossível não sentir o frio inclemente e a humidade doentia. Depois de ler a obra descrever o clima é de todo impossível, existe sempre frio, calor, humidade, vento, tempestades, secas… um desespero total. Também as descrições de cheiros e imagens associadas à morte são de um realismo tal que se sente a viscosidade dos cadáveres putrefactos, o cheiro nauseabundo da morte. A páginas tantas é descrito o ataque dos corvos à pilha de cadáveres que os sobreviventes do ataque japonês levam ao cemitério com tal crueza que foi possível sentir o adejar das asas sobre as cabeças. As fomes que ceifaram mais vidas do que qualquer guerra, são descritas em diferentes ângulos, por um lado temos a perspectiva do faminto,  que deita mão de qualquer recurso que lhe possa adiar por mais uns minutos a morte, o narrador, ele próprio um faminto que vai sobrevivendo, descreve o estado das pessoas, quer físico quer emocional com uma precisão que visualizar a sodomização não sentida da sétima irmã é imediata. Nesta situação a fome é tal que na Quinta do Dragão das Cheias os trabalhadores estão muito perto da inanição.

A história propriamente dita é a de uma família em que a figura central é a mãe, ou melhor a Mãe, quase como a do Gorky. É uma mulher pequena, com os pés deformados, dois lírios perfeitos, mas com uma resistência e uma resiliência notáveis. Esta mulher vive na fronteira entre dois tempos e os seus pés ainda são muito interessantes para uma certa fase social, mas pouco interessantes para a sociedade emergente. Para além do incómodo social são sem dúvida pouco práticos, pois são dolorosos, malcheirosos e tornam o corpo instável. Os períodos de fome que vai passando periodicamente podem ser a causa de se aguentar sobre os seus lírios tantos anos. Esta mãe perde a sua (mãe…) ainda bebé quando os japoneses invadem a china. A sua mãe esconde-a muito bem e de seguida suicida-se para evitar ser violada e depois morta. É criada por uma tia que lhe dá a educação adequada a uma menina do seu tempo (início do sec. XX). Chegada a hora de casar tem que aceitar casamento com um homem que não seria o adequado se a sociedade não sofresse mudanças tão drásticas e os seus pés não se tornassem um defeito ao invés da virtude que deveriam ser. Casa com o filho do ferreiro de nome Shanguan. A sua nova família é estranha, quem manda é a mãe, mulher brava e pouco simpática, que todo o dia malha o ferro. O marido e o filho são dois preguiçosos que se deixam conduzir por ela. Os problemas da jovem surgem cedo, a gravidez não aparece  e a sogra começa a duvidar da sua feminilidade. Todos os anos as jovens noivas vão visitar a sua família de origem, 3 anos depois de casar a jovem Shanguan volta sem filhos, é levada ao médico, pela tia, que atesta as suas qualidades, o que deixa o marido como deficitário. Por não poder fazer nada quanto a isso pois não teria aceitação por parte da sogra, a jovem segue o conselho da tia e faz o primeiro filho com o tio, nasce uma menina, um ano depois quando regressa leva outra na barriga, e depois passa a deitar-se com quem lhe apetece, é violada uma vez, e tem assim sete filhas. A sogra não a pode tratar pior, sete filhas representam o pior dos castigos. Da sua última gravidez, em que o pai é um monge nórdico, tem dois filhos um menino, Jintong, e uma menina cega. O parto é muito difícil, decorre durante uma invasão dos japoneses, e a mãe quase morre. Como quase não é nada a vida prossegue e esta mãe vai atravessar tempos e espaços com os seus 8 filhos, 7 raparigas e 1 rapaz.

A cultura chinesa rejeita as meninas, estas são consideradas um peso para as famílias, os rapazes representam garantias de um futuro que nem chega a ser posto em palavras, porque no fundo quem gera riqueza, quem trabalha são as mulheres…  Esta família não é excepção.

A Mãe era nora de um homem molengão e preguiçoso e de uma mulher brava, que vai ter de matar um dia porque o raio da velha teima em não morrer. Era mulher de um falhado e deitou-se com homens básicos, pobres frutos de uma educação permissiva e demasiado tolerante com as suas falhas de carácter. Neste romance as mulheres acabam por ser retratadas como pilares da família e da sociedade, capazes de aceitar sem uma reclamação todas as imposições, de se esforçarem por garantir a continuidade e a sobrevivência dos seus e em simultâneo por manterem os princípios misóginos que caracterizam a sua cultura e sociedade. As filhas desta Mãe vão demonstrar características de força de carácter não esperadas no seu tempo e espaço. Cada uma delas vai casar com o homem que escolhe, mesmo desafiando costumes sociais e decisões maternas, vão perseguir os seus sonhos e projectos, nem sempre consentâneos com os da Mãe. Cada uma das filhas terá um destino trágico e cada uma delas deixa netos e netas que a Mãe via criar como se de filhos se tratassem. Também o destino dos netos é terrível, as mortes sucedem-se na vida desta mulher a uma velocidade alucinante, não lhe dando tempo para lutos individualizados.

Todas as filhas têm a sua quota de sofrimento, mas a Quarta Irmã tem o pior de todos. Para salvar a família vai vender-se a um bordel, entrega todo o dinheiro da venda à mãe, e nos anos seguintes amealha tudo o que pode para a sua família. Morre sifílica nos braços da Mãe. A Sétima Irmã é vendida a uma condessa russa que depois cai em desgraça. A criança fica abandonada na Rússia, o regime dá-lhe formação (medicina) e depois recondu-la à sua terra natal. Aí, por contrariar uma decisão tola e sem qualquer lógica (cruzar uma coelha com um porco ou algo do género) da Terceira Irmã, que está revestida de poder pelo regime, acaba a carregar estrume num galinheiro e a roubar ovos com perícia. Algo de extraordinário e positivo, antes que mais não seja pela grandiosidade, há a apontar às filhas, o filho (narrador), tão almejado e desejado é uma verdadeira aberração. A mãe vai criá-lo sem qualquer regra que poderia fazer dele um ser humano equilibrado. Até a alimentação do garoto é estranha, durante anos apenas bebe leite, da sua mãe claro!. Quando ela chega ao limite da extenuação (vários anos depois de ele ter nascido!) passa a ter uma cabra para tratar do seu sustento. É medroso, egoísta, fútil, cobarde, enfim um verdadeiro homem tendo em conta a Mãe, que os tem a todos em pouca conta, excepto os seus genros, que quase todos foram homens grandes e capazes de feitos grandiosos, ainda que por vezes absolutamente negativos. Jintong é um homem fraco sempre dependente de alguém, com psicoses terríveis. Tem uma fixação em mamas que o levam a cometer actos tolos e perigosos. Quando está muito bem na vida deita tudo a perder por ser um incapaz.

O regime maoista é retratado como um conjunto de decisões arbitrárias insensíveis às consequências que vão semeando na sociedade. As pessoas morrem de fome como mosquitos pulverizados com insecticida mas isso não representa nenhum entrave ao prosseguimento do Grande Desígnio. As regras são estabelecidas de forma arbitrária e quando se verifica a negatividade sobre a população isso não representa qualquer entrave. Os trabalhadores são distribuídos, não de acordo com a sua formação e as suas aptidões mas, de acordo com decisões burocráticas tolas e mesquinhas.

O sentimento que marca é a miséria a todos os níveis, uma fome terrível, um frio de morrer, até o verão acaba por ser um horror. A sociedade é misógina, falsa, hipócrita, egoísta.

Uma das piores descrições é a da Sétima Irmã a ser sodomizada por um sacana que tem acesso a comida. Ele manda para o chão uns bolinhos, a fome é tanta que a irmão vai apanhá-los de quatro. Fica nessa posição a comer enquanto o bandido a sodomiza. Aparenta nada sentir, e ele vai atirando bolinhos para o chão, ela vai comendo e ele vai investindo. Quando fica saciado deixa a desgraçada, que só depois se apercebe das dores anais e acaba por morrer fruto da indigestão que os poucos bolinhos vão provocar no seu corpo há tanto privado de comida.

O sexo e a comida, são aqui descritos e evocados como coisas básicas, fundamentais. Em poucas situações estão acessíveis ao chinês como algo que está para além da satisfação de uma necessidade primitiva e imediata, como algo capaz de dar consolo não só físico, mas também espiritual.

Bom ano, com saúde, alegria e claro…com livros!

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