As palavras que descem da Serra: Mein Kampf de A.H.

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Hoje da Serra saem palavras de ódio, não porque me reveja nelas ou lhes encontre qualidade literária que as pudessem tornar uma mais valia. Ponho-as a correr porque as considero pertinentes dada a situação social que se vive no Mundo. Em países onde a palavra ditadura era quase obscenidade, onde Democracia e seus valores se têm julgado intocáveis ganham força movimentos que, sem pejo e sem medo, usam a primeira e, sem respeito, vilipendiam a segunda em actos e palavras.

Uma cópia do livro ‘Hitler, Mein Kampf. A Critical Edition” numa mesa de exposição de uma livraria em Munique, Alemanha, a 8 de Janeiro de 2016. Pela primeira vez desde a morte de Adolf Hitler, a Alemanha publica o tratado político do líder nazi ‘Mein Kampf’ (“A Minha Luta”), desencadeando uma fila altamente carregada sobre se o texto é uma diatribe racista inflamatória ou uma ferramenta educacional útil. REUTERS/Michael Dalder TPX IMAGENS DO DIA

Na semana que terminou o país mais mediático do mundo, que se quer assumir como baluarte da Liberdade e da Democracia, que já encetou guerras argumentando ter que eliminar ditaduras, deu um espectáculo medonho ao mundo. Um ataque caseiro a um dos seus “Fortes”. Morreram quatro manifestantes e uma pessoa. O terrifico desse ataque é ter sido incitado pelo ex-presidente. D. T. ganhou o epiteto de ex num acto público e democrático, as eleições, contudo recusa aceitar a derrota, preferindo banhar aquele bocado da América em sangue a deixar que a Democracia (mesmo a dos EUA que é um pouco bizarra, aos meus olhos) siga o seu curso natural.

Há uns anos, quando o clã Le Pen começou a ocupar manchetes nos jornais franceses, um tio meu, emigrante, para fugir a África, pouco aberto de espírito, andava felicíssimo. Finalmente, dizia-me ele, a França ia voltar a ser dos franceses!!! Tentei acordá-lo para a sua realidade de emigrante, mas foi em vão. Teve sorte o meu tio, o papá Le Pen nunca alcançou os seus intentos ou ele teria fugido, outra vez…

Os le pen deste canto do mundo a que chamamos Europa, andam em actividade reprodutiva intensa e em Portugal o “encantador de burros “, renascido das cinzas dos nacionais socialismos (que se mantiveram cinzentões o suficiente para não serem vistos, mas sem perder o folego) tem um mediatismo extraordinário. Diz exactamente o que o povo quer ouvir. Usa uma linguagem apelativa e já sabe quem são os culpados deste estado miserável, em que a maior parte de nós chafurda ao longo da existência. O pior de tudo é que muitos dos que o apoiam são os apontados por ele como culpados, um paradoxo estranho. Dado que é repetitivo ao longo da história e do espaço geográfico, este paradoxo já é quase dogmático. Para o nosso “encantador“ a culpa é dos ciganos, dos pretos, dos subsídio-dependentes. Nunca de quem lhe paga os outdoors!!!

Em 1923 Adolf Hitler, ditou ao seu secretário o livro que ora vos deixo, Meín Kampf. Este não é um livro sinopsável, pelo menos na minha perspectiva de leitora, apenas por nunca ter deixado de lado o asco tremendo em relação ao autor e ao conteúdo. Não me identifiquei com uma única virgula, por conhecer o que foi o III Reich. Se a História não estivesse aí para nos lembrar do que foi Oswiecim (polaco) ou Oshpitzin (idiche) depois de se chamar Auschwitz o texto até poderia ter alguns pontos (poucos!!!) com sentido mas a História não deixa… este livro foi proibido durante70 anos, por questões que se prendiam essencialmente com o respeito pelo povo judaico, tendo voltado ao prelo em 2015. Confesso que sempre tive curiosidade em saber o que continha.

Muito resumidamente vou tentar enquadrar a obra no contexto da altura. Hitler combateu na Primeira Guerra, a Alemanha foi barbaramente humilhada, Hitler intentou um golpe de estado e foi preso e condenado em 1923, com uma pena de 5 anos. Durante esse tempo amadureceu as ideias que marcarão o mundo por séculos. Ditou ao seu secretário um texto longuíssimo (649 páginas na edição que tenho) que se tornou o Livro da Alemanha durante muito tempo, de leitura obrigatória e veneração constante. É um texto repetitivo, mal escrito, delirante, mas muito claro na identificação da fraqueza alemã. Contudo os alemães caíram no conto, incluindo muitos judeus (tal como o meu tio português em França…) e a Segunda Guerra teve os desfechos que lhe conhecemos com milhares de assassínios por razões de supremacia racial. Foram assassinadas cerca de 19 milhões de pessoas (número ainda não fechado) entre judeus, ciganos, comunistas, alemães discordantes, deficientes e homossexuais. Estes assassínios foram o resultado do incêndio da candeia de ódio que existe dentro de uma grande parte de nós. Esses incêndios não aconteceram de um dia para o outro, foram-se acendendo, adquiriram brilho, contagiaram outros, e no final o povo acabou cego, de uma forma ou de outra.

Hoje nos EUA o ódio que sempre existiu, anda à solta, a ser incitado por um megalómano alucinado e a ter consequências.

Por cá já se ouve falar, sem pejo, que “a culpa disto tudo” é de umas minorias, o racismo que sempre existiu já não se envergonha. As candeias de ódio começam a ser acesas e as pessoas de bem aparentam estar a ter dificuldades em extrair a gordura rançosa que as alimenta. Mas o facto de haver dificuldades não legitima nem valida o discurso de ódio. Nenhum Ser Humano pode validar discurso de ódio…

Deixo-vos com algumas citações, que descontextualizadas perdem todo o sentido podendo-lhes ser dado o uso que se quiser…

“Não pode haver autoridade pública que se justifique pelo simples facto de ser autoridade, pois nesse caso toda a tirania deste mundo seria inatacável e sagrada.”

“Preparam com grande habilidade a opinião pública, formando dela o instrumento de combate para o futuro da sua causa.”

“O judeu sabe muito bem que com a sua capacidade de acomodação pode minorar os povos europeus e transformá-los em mestiços e que dificilmente poderia fazer o mesmo com um estado asiático nacionalista como o Japão.”

“O judeu na Inglaterra tornou-se hoje um rebelde,

O combate contra o perigo mundial judaico começará também ali.”

“Como o nosso movimento (Nacional Socialismo) não angaria os seus adeptos no campo dos indiferentes, mas sim, na maioria dos casos, entre os ideólogos mais extremistas, é muito natural que esses homens, no que diz respeito à política externa, estejam preliminarmente sobrecarregados de preconceitos …”

“O dever da política externa de um Estado Nacionalista é assegurar a existência da raça incluída no Estado, estabelecendo uma proporção natural entre o número e o crescimento da população, de um lado, e, e do outro, a extensão e qualidade do solo.”

“Se o desenvolvimento da França prosseguir, no mesmo ritmo, por trezentos anos, os últimos restos de sangue franco desaparecerão no Estado euro-africano de mulatos que se está a formar e ela terá um território formidável, do Reno ao Congo, povoado por uma raça inferior que se forma lentamente sob a influencia de uma mestiçagem prolongada.”

Boa semana… com livros!!!

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