Hoje da Serra as palavras a sair são belas, são feias, são ternurentas, são duras, são tristes, são alegres, são de amor, são de ódio, são de esperança, são de desalento… quem as escreveu foi Susan Abulhawa. Antes de se fixar nos EUA, esta filha de refugiados da guerra dos 6 dias, viveu em vários locais todos no Médio Oriente. É palestina. Conhece na primeira pessoa o que é viver sem. Sem identidade cultural, sem casa, sem terra, sem dignidade, sem acesso a bens essenciais, sem liberdade… Estes “sem” existem por imposição, tudo o que tinha foi roubado e esse crime está, até hoje, sem punição.

A segunda guerra mundial começou em 1de setembro de 1939 e terminou em 2 de setembro de 1945. Foi um tempo de treva em que mais de 19 milhões de pessoas foram assassinadas de forma infame. Os judeus foram dos mais massacrados, havendo um plano para a sua erradicação definitiva. A causa judaica motivou muita solidariedade e simpatia no mundo.

Em 29 de agosto de 1897, durante o primeiro congresso sionista, a Palestina foi escolhida como o local ideal para fundar o Estado Judeu. Durante anos houve convivência pacifica entre palestinos (a Palestina era uma província turca) ingleses e judeus. A população judaica vai aumentando e em 1909 funda a cidade de Tel Aviv- exclusivamente judaica. É de salientar que os judeus da diáspora, bem integrados nas sociedades em que viviam não tinham qualquer vontade ir para a Palestina, mas as sucessivas perseguições a que iam sendo sujeitos acabaram por modelar essa falta de vontade e a Palestina estava ali, com paz e farturas…

Em 1947, dois anos após o fim da segunda guerra os judeus fizeram aos palestinos exactamente o mesmo que lhes tinham feito a eles. Desalojaram famílias deixando-lhes levar o mínimo, que, mesmo esse pouco, depois lhes foi tirado. Forçaram os desalojados a longas e violentas marchas sem comida e sem bebida, mataram a tiro sempre que se lembravam, despejaram os sobreviventes em guetos, sob o nome de campos de refugiados. Nesses campos foram nascendo gerações de filhos da Palestina. Nesses campos foram nascendo sentimentos difíceis de controlar, porque quem não tem nada, nada tem a perder. Queremos acreditar que a Jihad que nasceu nesses campos tem um fundo religioso, mas é mentira, é apenas conversa para adormecer bebés ou velhos muito senis. Esta guerra horrível nasceu apenas pelo descontentamento de homens e mulheres espezinhados durante gerações, e tem apenas um fundamento humano. Deus nada tem a ver com o assunto.

As palavras de Susan Abulhawa soltam emoções. Dei algumas gargalhadas, mas sobretudo chorei, nas duas leituras que fiz deste livro. Durante capítulos inteiros o mar dos olhos transbordou como se fosse tsunami, o nevoeiro instalou-se nos óculos, toldando a visão, a alma, essa há muito que sofria com a dor do povo palestino…

Susan Abulhawa

As Madrugadas em Jenin

“Os sionistas não param de matar ingleses e palestinos. Estão a livrar-se dos ingleses para se poderem ver livres de nós, mas não há ninguém suficientemente inteligente para perceber isto e tentar fazer alguma coisa.”

Seria possível que eu conhecesse estas mulheres ou estes bebés? Quantas daquelas crianças teriam sido minhas alunas? Durante quarenta e oito horas, os soldados israelitas, com bebidas e batatas fritas a jeito, tinham assistido a esta manifestação de pura raiva. Como é que um soldado israelita um judeu, é capaz de suportar a visão de um campo de refugiados a transformar-se em matadouro?

Fatima. Falasteen.”

 Sinopse

O texto chega-nos por muitas vozes Amal, Yousef (irmão mais velho de Amal), Sara (filha de Amal e Magid, assassinado em Beirute), David ou Ismael, o homem que não tem identidade. Temos um narrador não participante que nos vai orientar pela complicada vida de todos os personagens. É uma obra artística bem construída, mas um pouco fora daquilo que seria uma narrativa “segundo as regras”. O texto é belíssimo, cheio de sons, cheiros, sabores, cores, texturas… Os sentires de cada um chegam-nos com uma intensidade tal que nos contagiam, acabamos a sentir, o bom e o mau…

As Madrugadas em Jenin eram lindas, Hassan ia buscar a menina dos seus olhos, que amava com todas as partículas do seu corpo e lia para ela até ao nascer do sol. Por isso Amal sempre amou as madrugadas. Traziam-lhe o cheiro e o som do pai que morreu antes do Regresso.

Amal, filha de Hasan e Dalia, a beduina imprestável, é a principal personagem e é através dela que melhor se compreende o que é viver num campo de refugiados sob a protecção da ONU. Nasce no campo de Jenin, sete anos depois da chegada dos seus pais. Nasce Amal, sobrevive muitos anos como Amy, renasce quando volta a ser Amal e por isso vai morrer. A história de quatro gerações da mesma família é contada entre um cano de espingarda apontado à cabeça, a decisão do  atirador de não matar e um tiro com outro destino que matará. No meio vamos conhecer os meandros de uma velha aldeia de agricultores “pobres”, têm muitas terras produtivas, ouro, casas com lindos jardins e tapetes persas no chão… contudo vivem para amar e trabalhar a terra que herdaram dos antepassados. As suas competições, os seus orgulhos e vaidades, as suas dores, no fundo os rituais da vida normal. Em 1947 são desalojados e empurrados para Jenin. Por lá ficam à espera do Regresso, transmitindo aos seus filhos sobreviventes à viagem e aos ali nascidos, as bases da sua cultura, sempre cheios de esperança de um dia poderem voltar a entrar nas suas casas, cuidar das suas terras, colher os frutos das oliveiras milenares, das laranjeiras que davam “laranjas do tamanho de melões”.

Do casamento de Hasan e Dalia nascem dois rapazes, Yousef, o mais velho e Ismael, ainda bebé de peito quando os judeus decidem ocupar a aldeia. Dalia usa umas pulseiras de moedas de ouro no tornozelo que fazem “um barulhinho ao andar”. Num dos primeiros ataques uma é-lhe arrancada da perna, o que deixa o seu menino triste, porque gosta de ouvir a mãe a andar. A restante servirá, um dia ainda longínquo, para comprar uma cadeira de rodas para o seu cunhado. Dalia perde tudo durante a expulsão de casa, quando um soldado judeu lhe rouba o seu bebé para dar à sua mulher esterilizada pelos abusos dos nazis no campo de concentração. Torna-se extremamente eficiente e dura, acaba por se perder entre as brumas de tantas dores que vai sofrer, partindo o seu espírito muito antes de o seu corpo. Amal vai perder toda a família, nos sucessivos ataques ao campo. Quando fica completamente desamparada é encaminhada para um orfanato e vai prosseguir estudos, apenas para agradar ao pai, que adorava. Sobrevive uns anos no exílio, mas volta… o apelo do sangue é forte.

Boa semana, com livros!!!

 

1 COMENTÁRIO

  1. Realmente a Dra.Anabela consegue criar em nós a vontade de correr até à livraria mais próxima e comprar o livro que descreve.
    Obrigada por arranjar tempo ,dentre os seus muitos afazeres, para ler os livros que recomenda,que certamente por aqui nos passariam completamente ao lado!
    Não deixe de fazer o que faz tão bem.
    Obrigada uma vez mais.

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