Desobediência como virtude maior: Aristides de Sousa Mendes

Na infância não nos ensinam a desobedecer. Os pais, em especial, preocupam-se com o desenvolvimento moral dos seus filhos, procurando que conheçam as regras e leis, para bem as cumprirem, e que obedeçam. Por outro lado, a desobediência é totalmente rejeitada e sempre transmitida com uma lógica negativa, enquanto o seu oposto é um indicador de progresso moral. E esse erro perpassa a educação informal (família, igreja, grupos sociais) e formal (escola). Afinal de contas, vivemos numa sociedade cujo lema, muitas vezes, é “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

“Qualquer pessoa que conheça a história da Humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem. O progresso é uma consequência da desobediência e da rebelião. O obediente mantém as coisas tal como estão” (Óscar Wilde, ObraA Alma do Homem Sob o Socialismo“).

É um facto que, por vezes, a conduta precisa ser totalmente ilegal, pois o que a lei pretende é, justamente, manter a situação que se deseja mudar. E aqui lembro algo dito por Luther King: “Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta…. Permito-me afirmar que o indivíduo que infringe a lei que a consciência lhe diz ser injusta… está, na verdade, expressando o mais alto respeito pela lei “.

Neste sentido, qualquer pessoa deveria ter aprendido que a obediência cega e irreflectida chegaria até a ser ridícula se não fosse sinistra. Desculpar quem lançou a bomba atómica sobre Hiroshima no facto de apenas ter cumprido ordens. A infame “desculpa” nazi de Nuremberg também. Estes exemplos ilustram bem até onde o ser humano pode chegar quando a sua consciência e a sua capacidade para a desobediência são neutralizadas.

O progresso é uma consequência da desobediência, mas existem outras consequências e a liberdade é uma delas. A libertação das colónias, do jugo português, teve na desobediência às leis portuguesas um de seus principais factores. O golpe de estado que permitiu o 25 de Abril e pôs fim à ditadura, teve na desobediência às leis fascistas a sua força motriz.

Temos Martin Luter King, Nelson Mandela, Gandhi, Malala Yousafzai, entre outras personalidades que se enquadram num nível ético mais elevado e que lutaram contra o poder instalado. Contra lideranças ambiciosas, oportunistas e corruptas que se instalam e praticam as maiores atrocidades, utilizando cargos públicos para fins pessoais ou interesses de um grupo. Por ambição desmedida atropelam os direitos dos cidadãos, incluindo a vida.

E a preservação de vidas humanas pode ser mais uma saudável e grandiosa consequência da desobediência. Foi ao desobedecer a ordens que o português Aristides Sousa Mendes evitou o verdadeiro genocídio de trinta mil pessoas. É óbvio que foi duramente penalizado pela sua coragem, mas o seu exemplo ficará para sempre na memória colectiva. Protagonizando o que é considerado, por muitos, a maior acção de salvamento empreendida por uma só pessoa durante a Segunda Guerra.

Escolho falar de Sousa Mendes como um virtuoso, porque é a história de um homem – de um herói – que foi impelido pela mais pura das decências humanas – salvar vida humanas. Diante deste exemplo maior de Humanidade e do que foi acima dito, é possível discordar da afirmação de Óscar Wilde de que a “desobediência é a virtude original do homem”?

Junho de 1940 é o mês decisivo. As tropas nazis cercam Paris. O consulado Português de Bordéus é igualmente cercado, mas por gente desesperada em busca de um caminho de salvação. Ainda em junho de 1940, de 17 a 19, o cônsul Aristides de Sousa Mendes trabalhou afincadamente, com ajuda dos filhos, na emissão de vistos. Estava, assim, a contrariar ordens directas do chefe de estado, António de Oliveira Salazar.

Aristides de Sousa Mendes do Amaral Abranches, nasceu num concelho bem próximo do nosso, em Cabanas de Viriato – Carregal do Sal (a 19 de julho de 1885 e faleceu em Lisboa, a 3 de abril de 1954). Enquanto Cônsul de Portugal em Bordéus, no ano da invasão de França pela Alemanha Nazi, desafiou ordens expressas e durante três dias e três noites emitiu, à revelia do governo português e sem burocracia, vistos para Portugal a milhares de refugiados, muitos dos quais judeus, que fugiam da Alemanha, Áustria, da própria França e dos países já ocupados pelos exércitos alemães, livrando-os dos terríficos fornos nazis.

“E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. O meu desejo é estar mais com Deus contra o Homem do que com o Homem e contra Deus”, disse Aristides de Sousa Mendes, 1940.

Foi um homem excepcional e os heróis e os valores que admiramos e valorizamos fazem parte da essência que nos define. Tenho profunda admiração pela grandiosidade de um homem que não cedeu ao medo e foi capaz de dizer não, quando a maioria obedecia e até convivia amigavelmente com aqueles que lhes davam as ordens, mesmo tratando-se de ordens para matar outros seres humanos. Como explicou Hannah Arendt, não é preciso ser um monstro para ser cúmplice activo da maldade extrema. Basta cumprir ordens e fazer o que é pedido.

«Mesmo na noite mais triste/ Em tempo de servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não» (Manuel Alegre, Trova do Vento que passa).

Sousa Mendes desobedeceu e estima-se que salvou à volta de trinta mil pessoas, numa altura de maior risco, em que tudo levava a crer que a Alemanha iria ganhar a Guerra (corria o ano de 1940). Ao cônsul eram reconhecidas posturas altruístas desde o tempo em que frequentou o curso de direito em Coimbra, mas era um homem dedicado à carreira e à educação dos seus 14 filhos. Não era um activista na oposição ao regime ou no apoio à causa democrática. E, por isso mesmo, o seu exemplo é mais grandioso.

O acto heróico e altruísta valeu-lhe o afastamento da carreira diplomática e a aposentação compulsiva, mas com a reforma penhorada, o ex-cônsul e a família (a esposa e 12 filhos, 2 tinham falecido em Bordéus) passavam necessidades. Para além disso, perdeu o direito de exercer a profissão de advogado e passou os últimos anos da sua vida na miséria e sem a família, que teve de procurar apoio fora do país. Foi obrigado a vender tudo o que tinha para pagar dívidas e sobreviveu com dificuldade. Faleceu em Lisboa, num hospital Franciscano. O estado de Sousa Mendes, um aristocrata e outrora habituado a luxos, era tão miserável, que foi enterrado com roupa cedida por caridade.

Castigado pelos seus actos de rebelião, nunca lhe foi reconhecida a bondade dos seus atos em vida. O primeiro reconhecimento veio 12 anos após a sua morte, quando, em 1966, no memorial do Holocausto em Jerusalém, Yad Vashem, lhe prestou homenagem e lhe atribuiu o título de “Justo Entre as Nações”.

Recuperar a sua casa – Casa do Passal em Cabanas de Viriato, com obras ainda em curso desde 2016 – e elevar o seu nome ao Panteão Nacional, é valorizar na nossa memória colectiva a grandiosidade de alguém que praticou o bem pelo bem e foi severamente castigado por tê-lo feito (o bem). E não que compense todo o sofrimento em que viveu pelos outros, mas que, pelo menos, se dignifique na morte o que não foi feito em vida e possa servir como prevenção no futuro. E isso é engrandecer-nos como povo.

Aristides de Sousa Mendes está em total sintonia com a virtude dos que são capazes de dizer não, que fazem da desobediência uma virtude maior, a força do progresso da Humanidade.

Faço aqui uso de uma citação do General Ramalho Eanes: “Desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, estupidez, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o país. É esse o nosso problema.”

Marília Alves

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bem escrito e elaborado este artigo da “Colega” Marília Alves, que não tenho o prazer de conhecer, mas que ajuda o nosso PenacovaActual a trilhar caminhos de pluralidade lúcida.
    Os nossos escritórios (sediados na Rua Aristides de Sousa Mendes, em Telheiras, Lisboa) fazem todos os dias jus a essa figura incontornável da nossa diplomacia.
    Beirão, ademais!
    E eu, tal como a Autora, também acho tratar-se de uma figura da nossa história merecedora de “descanso digno” no Panteão Nacional, apoiando o seu desafio.
    Parabéns!
    Luís Pais Amante

  2. Grata, Dr. Luís Amante, “colega” desta aventura jornalística. Deve ser compensador trabalhar numa rua com o nome de Aristides de Sousa Mendes. Quando jovem, na aldeia onde vivia, não havia livros, nem acesso a fontes de cultura e saber. Só miséria e trabalho na agricultura de sol-a-sol. Até que surgiu a biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian, e entre as inúmeras requisições de livros que fiz então sobre a Segunda Guerra, calhou-me um livro com referências ao Acto Heróico de Aristides de Sousa Mendes, e a partir daí foi um Exemplo Maior que me acompanhou ao longo da vida. Estive no Cordão Humano em 2016, um acto cívico para salvar da ruína a Sua casa em ruínas em Cabanas de Viriato, momento de homenagem ao Maior Herói Português dos tempos modernos. Um dia memorável , a que espero se continuem sempre a juntar muitas outras acções para não deixar cair no esquecimento.

    Um grande Bem-Haja,

    Marília Alves

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