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Opinião: A Desventura

Uma parte significativa de eleitores votaram num candidato à Presidência da República que põe em causa a própria Democracia, com propostas como o fim do Estado Social, a privatização da Saúde e da Educação, e a defesa de valores racistas, xenófobos, machistas e homofóbicos. São nossos concidadãos que votaram num candidato que reclama uma profunda revisão constitucional e que nos levaria à “fundação da 4ª República” e à instauração de uma ditadura de “pessoas de bem”.

Com estes resultados o interior do País e o Alentejo que votou, não  acordou  fascista. Representam os excluídos do Sistema, o Portugal esquecido e sem voz. Desacreditados com a política e com os políticos, encontraram a alternativa credível em alguém que se chegou à frente e prega, por ele e para eles. Prega contra a corrupção que mina o Estado e as instituições, e diz-se escolhido por Deus, prometendo ser o Salvador da Pátria. Garante aos quatro ventos que é capaz de romper com os poderes instalados na política e na economia, não para revolucionar o país, mas para, simplesmente, o pôr em ordem. E na ordem. Capaz de desafiar e eliminar as instituições, as corporações, os movimentos sociais, os inimigos externos e tornar o país um lugar aprazível para as “pessoas de bem”. Capaz de vencer e convencer. E quem ouve não tem a noção das consequências, mas sim que a voz se faça ouvir. Por tantas décadas silenciados e ignorados.

A região do Alentejo foi das mais fustigadas sob o jugo da ditadura e um dos principais locais de resistência. Os Alentejanos têm apreço pela Liberdade, empenharam as suas vidas a lutar por Ela. Mas a Democracia só lhes trouxe desertificação, desemprego e abandono. Ficaram sempre fora dos dinheiros públicos e dos apoios. O país sempre foi Lisboa. O resto foi sempre a província. E, nas últimas décadas, construiram-se estradas para levar o resto. Não para trazer nada, nem ninguém. Estão cansados. Fartos de serem ignorantes sem o querer ser, quantas vezes até a fazer parte do anedotário nacional.

Os desempregados, os pensionistas, os reformados, os que foram roubados por Ricardo Salgado, pelos dirigentes do BES e do BPN, sentem-se enganados e ludibriados. Só que elementos ligados a essas estruturas financeiras – ex-directores do universo BES/GES e outras personalidades que estiveram envolvidas nas maiores fraudes bancárias no país – já assumiram publicamente o seu apoio e promoção ao Salvador. Claramente que os interesses dos promotores, financiadores e líderes destas pessoas em nada têm a ver com o interesse de um qualquer “votante” no meio de um interior desertificado e ostracizado.

É óbvio que acreditam, quando se dá a entender  a  pensionistas e reformados, que poderão ter mais apoio nas pensões, caso se retire aos elementos da etnia cigana que recebem rendimento social de inserção. Que poderão ter os mesmos hospitais e as mesmas escolas do que o resto do país. O problema é que no programa do seu Salvador está prevista a abolição das pensões não contributivas. E o fim do Sistema Nacional de Saúde. E a geração mais recente sente-se traída. Os jovens que vivem em Setúbal, Portalegre, Évora e Beja, e  que votaram, não têm trabalho, muitos foram obrigados a sair do País para poderem começar uma vida. Os outros andam desempregados ou de trabalho precário em trabalho precário. E o que aprenderam na escola não chegou para perceberem como é perigoso ser apanhado no jugo de uma ditadura de “pessoas de bem”.

Mas não é só no interior e no Alentejo, há muita gente que se sente desprotegida numa sociedade que tem deixado agravar a precariedade e a injustiça social das desigualdades. Outros tantos que não vêem a sua vida andar para a frente. Estes fenómenos não nascem espontâneamente do nada. Tem sido assim na Europa. Está a acontecer em Portugal. Temos de compreender o fenómeno para lhe responder com Justiça Social. Mas nada disto surge reflectido no discurso dos políticos esvaziado de conteúdo político-social e centrado nas lides partidárias e pouco mais. Que estes resultados sirvam para quem tem o poder reflicta e mude a sua intervenção para aquilo que o País efectivamente precisa.

Portugal não é só Lisboa.

Marília Alves

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