As palavras que descem da Serra: As horas de Michael Cunningham

Hoje da Serra vão sair palavras de Michael Cunningham. Foi uma escolha quase aleatória que acabou por me dar muita satisfação. Os livros que terminei esta semana ainda estão em digestão. Um é francamente medíocre, o que me entristeceu bastante, porque a minha primeira experiência com o mesmo autor foi absolutamente sublime, falo de Paolo Giordano e de Negro e Prata (se alguém tiver algo a dizer sobre o livro seria interessante!). O outro, Sapiens, gostei, muito, mas… vou digerir e depois avalio a sério. Por isto fui ali dar uma voltinha e deparei com As Horas. Sobre o autor nada tenho a dizer. Sobre o livro, lembro-me que me tirou o fôlego. Senti-me o tempo todo como Laura, com uma vontade incrível de mergulhar por ali adentro sem tolerar interferências desta dimensão, que por vezes raia o miserável, a que chamamos vida.

A primeira edição é de 1998 e em 2003 surge no grande ecrã com interpretações soberbas de Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore e Ed Harris.

Michael Cunningham

 

SINOPSE

“Vivemos as nossas vidas, fazemos o que quer que seja que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo.”

As Horas

 

 

“Meu Muito Querido:

Tenho a certeza de que estou novamente a enlouquecer: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Começo a ouvir vozes e não me consigo concentrar.”

Michael Cunningham pega no suicídio de Virginia Woolf, em 1941, para dar o pontapé de saída num romance extraordinário e contemporâneo.

A história é contada a três vozes, sendo uma das personagens a própria Virginia Woolf, e gira à volta do seu romance Mrs Dalloway. As personagens de As Horas são facilmente identificáveis com as de Mrs Dalloway, como se a literatura fosse um prenuncio…

Neste texto Virginia escreve o seu romance, Laura vive em obsessão por não poder ler, mas contra tudo e todos lê, e Clarissa vive o romance. Todo o drama se desenrola num único dia (tal como Mrs Dalloway) e na festa que vai ter, girando à volta de tudo o que há a fazer (comprar flores, por a mesa, tratar da comida e da bebida…) e as viagens interiores que esses afazeres despoletam.

As personagens centrais são as duas mulheres de ficção. Clarissa Vaughan é uma mulher cosmopolita do final do séc. XX, que vai dar uma festa de despedida ao seu amigo/amante/companheiro de toda a vida que está a morrer com SIDA.  A outra, Laura Brown, é uma dona de casa californiana, do final da guerra (1949) que tenta esquecer o tédio da sua vida mergulhando na literatura de uma forma quase doentia. Aparentemente estas duas mulheres não têm nada em comum. Contudo o final revela os estreitos laços que as uniram e vão continuar a unir depois do fim chegar.  Todos os fios soltos da vida destas mulheres, que representam duas gerações distintas, se unem em Richard.

A leitura deste romance é de tal forma empolgante que a identificação com Ms. Brown persegue os leitores.

Boa semana com livros!!!

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