Opinião: 29.633

29.633. Este é, no momento em que vos escrevo, o número da vergonha. Quando estiver a ler isto, provavelmente teremos mais de 29.633 pessoas a assinar a infame petição pública pela expulsão de Mamadou Ba do país, por ter cometido o grave delito de opinião.

No passado dia 11, o CDS exigiu ao Estado português que prestasse homenagem a Marcelino da Mata, um dos mais condecorados militares portugueses, que faleceu recentemente aos 80 anos, vítima de covid-19. O CDS veio enaltecer os feitos militares de um homem que lutou por Portugal na guerra colonial e que era reconhecido pelos seus pares pela sua coragem e bravura em combate. Obviamente, houve quem não gostasse. Marcelino da Mata podia ter sido muita coisa, mas não era uma figura consensual. Mamadou Ba, reconhecido ativista, criticou esta atitude do CDS, apelidando Marcelino Mata de sanguinário e criminoso de guerra e defendendo que personagens com este tipo de currículo não são merecedoras de honras em democracia.

Em bom rigor, Mamadou não disse mentira nenhuma. Marcelino da Mata vangloriou-se publicamente de matar e mutilar por mais do que uma ocasião, com contornos de crueldade capazes de gelar o sangue a qualquer um que veja a guerra como o horror que é e não algo a glorificar. Adicionalmente, são sobejamente conhecidas as suas ligações à extrema-direita, tendo estado presente na última convenção do PNR, por exemplo.

Por outro lado, Marcelino da Mata não era mais do que um produto do seu tempo. Um fruto da exposição a uma doutrina errada e a um nível de propaganda que lhe alterou para sempre a perceção do outro. Um combatente numa guerra injusta, injustificada e insustentável que é ao mesmo tempo criminoso e vítima.

No entanto, não é Marcelino da Mata que me merece reflexão, mas sim Mamadou Ba. Mamadou Ba é já um ódio de estimação da extrema-direita em Portugal há algum tempo, que pega em declarações do ativista que nada têm de errado e procura criar ruído e agitação social à volta delas. A mais famosa, claro, foi a de que “é preciso matar o homem branco, assassino, colonial, racista”.

É preciso alguma imaginação para considerar isto uma declaração polémica. Isso ou a capacidade de interpretação de um tronco. Se alguém disser “abaixo os homens brancos criminosos” eu não me sinto afetado porque não sou criminoso. Logo, quem não for racista ou colonialista também não se deve sentir afetado pela famosa frase de Mamadou Ba.

Alguns considerarão que se é para ser antirracista tem de ser para os dois lados. O problema é que não existe racismo contra brancos em Portugal. Certamente existirão pessoas com preconceitos contra brancos, mas eu nunca vi ninguém a perder o emprego, a não conseguir arrendar casa ou a ser maltratado pelas instituições por ser branco em Portugal. Outros dirão que não há racismo contra brancos aqui, mas haverá noutros países, como Angola ou Guiné. Certamente que sim. Mas Mamadou Ba é português e está a falar sobre Portugal.

E é aqui que remeto para o início deste texto. Concorde-se ou não com Mamadou Ba, é absolutamente impensável que cerca de 30.000 pessoas defendam que um cidadão português deve ser expulso do seu país por ter emitido uma opinião. Uma atitude abjeta, nojenta e altamente antidemocrática. E não podemos dissociar isto do facto de Mamadou ser negro, porque o que não falta por aí são políticos e outras figuras públicas a fazer críticas ao país, e ninguém vem propor que sejam expulsos do país. Hoje é contra o Mamadou, porque é preto e tem dupla nacionalidade. E amanhã?

Amanhã será contra mim, porque sou baixote, ou meio vesgo, ou de esquerda.

E no dia a seguir será contra você, caro leitor, por outra razão qualquer.

Rui Sancho

4 COMENTÁRIOS

  1. Apenas o facto de vivermos em liberdade permite um texto tão desonesto e tão cheio de mentiras. E vindo de um autor ainda jovem ainda mais preocupa.
    Lamentável.

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