As palavras que descem da Serra: O Carteiro de Auschwitz de Joe Rosenblum

Hoje da Serra saem palavras nascidas do ódio do homem para o Homem. Demorei muito até ser capaz de ler/ver/estudar algo sobre o holocausto. Para mim olhar para o horror era uma agonia que só no seculo XXI consegui ultrapassar. Depois disso já mergulhei demasiado no terror. Num espaço relativamente curto de tempo li uma série de livros cujo título termina em Auschwitz. O último, que hoje vos deixo foi o que mais gostei por tê-lo sentido mais do que qualquer outro. Em 2016, sem saber ao que ia, fui surpreendida às portas de Auschwitz. Senti o horror do frio, a desolação do muro das execuções acompanhadas pela orquestra de prisioneiros, quase vomitei a olhar para montanhas de cabelo, não consegui passar da soleira do forno, onde o silêncio é sepulcral (nem os orientais tiravam fotos!!), acabei por ser incapaz de continuar ao olhar para um muro imenso cheio de pessoas a quem a vida foi cerceada só porque um louco soube incendiar a maldade residente em quase todos nós. Em Birkenau senti um frio de morrer (estava bem agasalhada e era Abril) e vi as portas do inferno, senti-me desolada.

Hoje deixo-vos com O Carteiro de Auschwitz , uma autobiografia.

O Carteiro de Auschwitz

Tenho tanta fome, tanta fome. Por favor, atire-nos alguma comida, um pedaço de pão, um pedaço de carne, alguma coisa, pedia mentalmente aos alemães.

Nada. Olhavam para nós casualmente e com desdém, como se fossemos baratas a fugir da luz.”

“Estávamos emocionalmente trémulos porque ouvimos que os fascistas polacos continuavam a matar judeus.”

“Voltei à mesma situação em que estava quando fora libertado. Não tinha trabalho, nem família, nem dinheiro, nem futuro. Não queria permanecer na Alemanha o resto da vida. Odiava cada centímetro. Até hoje, sinto que, na maioria, os alemães são um pais de assassinos, e até os jovens não podem escapar das responsabilidades do que o seu povo tentou fazer à humanidade.”

Sinopse

Joe Rosenblum nasceu Icek Rosenblum no ano de 1925 em Miedzirzec, uma cidade situada no leste da Polónia perto da fronteira com a Rússia. Viveu como Icek feliz até 1939. Depois desse ano conheceu, na primeira pessoa e de forma física, os tormentos espirituais de Dante Alighieri. Viveu no inferno até 1 de Maio de 1945. Esta data coincidiu com a marcha da morte a que 120 000 prisioneiros muito perto da inanição foram forçados. Durante a marcha foram muitos os que sucumbiram. Os sobreviventes foram encontrados pelas forças aliadas e resgatados.

O texto é um relato minucioso da vida numa escalada de miséria e dor impensáveis. Começa na cidade de Miedzerzic ocupada pelos nazis. Estes ocuparam as casas dos judeus, e confiscaram tudo o que estes não conseguiram esconder, como aconteceu um pouco por todo o lado. De seguida vêm os guetos, o trabalho escravo, e a miséria a acumular-se, depois as deportações e os campos de concentração. Uma constante de todos estes níveis crescentes de miséria é o uso das pessoas para trabalhos violentíssimos e extenuantes sem comida, sem agasalhos e sem qualquer apoio médico. Os que sucumbem à tortura de mais um dia são recolhidos por outros prisioneiros e encaminhados para as valas comuns ou mais tarde para o “luxo” dos crematórios. Os que sobrevivem sabem que o dia seguinte será igual ao anterior e o inferno só terminará no dia em que os seus ossos sejam recolhidos por alguém que por ali chegou há menos tempo ou que seja um pouco mais resistente.

As vivencias de Icek foram tão violentas que se compreende e aceita a construção de uma nova identidade, Joe, com base no que foi o seu sonho de conforto que lhe permitiu sobreviver a Birkenau. Joe é o nome usado até hoje por este sobrevivente que fala do holocausto e de todos os seus criminosos sem falsa piedade. O texto é muito claro no prazer que sentia sempre que um alemão batia no chão, o seu desprezo por este povo transpira em todas as frases que a ele digam respeito. Também em relação aos judeus que se alinharam do lado dos nazis, sobretudo para garantirem algumas benesses, o seu desprezo é imenso e sempre que um era morto ou torturado a sua alma rejubilava e ganhava mais um pouco de ânimo para sobreviver ao inferno.

O seu cabelo loiro e os olhos azuis garantiram-lhe algum apoio no início da ocupação. Vai ser ajudado por uma família gentia, que o recebe como se fosse um sobrinho de Varsóvia. Esta prática era comum para as raparigas que, desde que o aspecto físico as não denunciasse, se faziam passar por gentias. Aos rapazes tal estava vedado porque em caso de suspeita uma verificação peniana logo os incriminava por serem circuncidados.

Joe foi sempre pro-activo quer na sua sobrevivência quer na da sua família que, mesmo assim, acaba por ser toda morta. Antes de ser deportado junta-se à resistência russa, composta por prisioneiros de guerra, soldados evadidos do campo de concentração. Antes de se juntar a eles ajuda-os dando-lhes alguns alimentos, dos poucos que consegue obter. Com eles aprende a sobreviver, a matar para não morrer, a usar a força sempre que ela é precisa. No campo de Auschwitz junta-se à resistência e serve de correio, levando para o exterior mensagens do campo e do exterior mensagens sobre como está a evoluir a situação. Tem um caracter resiliente; é optimista até ao limite da loucura; sabe aproveitar muito bem as características dos alemães que lhe possam ser uteis bem como as dos outros prisioneiros; é engenhoso a inventar esquemas que o mantenham longe da camara de gás; é um poliglota fenomenal, que sabe esconder essa capacidade e assim acumula informação, por exemplo quando trabalhou para Mengele. São estas características, associadas a uma incrível generosidade que permitem sobreviver a Birkenau, a Dachau e à marcha da morte.

Joe transmite a ideia de estar bem resolvido com a vida, sem hipocrisia no seu discurso, saber de uma derrota dos alemães, ver as suas casas destruídas enchia-o de alento. Quando foi resgatado da marcha da morte e os alemães foram obrigados, pelos aliados, a recolhê-lo e a outros não acreditou nas suas palavras de boas pessoas e admite isso sem qualquer problema.

A dureza das descrições é quase anestesiante, tal como o foram as vivências… só essa anestesia lhe permitiu sobreviver para viver o seu sonho americano.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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