Medicamento para piolhos está a ser prescrito contra a covid-19

São já centenas os doentes tratados. Terapêutica não está aprovada. Infarmed, DGS e Ordem dos Médicos vão avaliar.

Fármaco é preparado nas farmácias. Há 150 a 200 com capacidade de o fazer

TEXTOS VERA LÚCIA ARREIGOSO

Médicos portugueses estão a tomar e a receitar contra a covid-19 o medicamento que a comunidade científica pôs de parte desde o início da pandemia. São já centenas os doentes tratados com o antiparasitário ivermectina, há 30 anos utilizado para piolhos, sarna ou a grave cegueira dos rios. A terapêutica não está aprovada nem é recomendada contra a nova infeção por nenhuma autoridade de saúde, mas a toma é aceite por livre vontade.

O número crescente de prescrições despertou as atenções. Ao Expresso, o Infarmed adian­tou que “a Comissão de Avaliação de Medicamentos reuniu-se com os subscritores da proposta para uso de ivermectina e encontra-se a avaliar a informação recebida”. Já esta semana, a Direção-Geral da Saúde (DGS) pediu à Ordem dos Médicos “um parecer urgente”.

“Foi-nos solicitado um parecer logo que possível sobre a utilização da ivermectina, para avaliarmos a evidência clínica. Pedi urgência, embora vá demorar algum tempo, porque é preciso estudar tudo. Queremos dar um parecer cientificamente sustentado, porque podemos estar a fazer história”, afirma o bastonário dos médicos, Miguel Guimarães.

No imediato, há uma certeza: “Os médicos que estão a utilizar a ivermectina para tratar a covid-19 não estão a fazer nada contra as boas práticas médicas”, garante o bastonário. “A utilização off-label [para indicações não autorizadas] está associada à experiência clínica, é da responsabilidade do médico e do doente e é feita com milhares de medicamentos. Por exemplo, na dermatologia faz-se muito.”

Ao gabinete da ministra da Saúde, Marta Temido, e até ao Parlamento há muito que chegaram pedidos para colocar o medicamento no protocolo covid. Foram enviados em novembro pelo ex-presidente do Hospital de São João (Porto), António Ferreira, membro de um grupo de profissionais de saúde de vários países, sobretudo dos EUA, que defendem a ivermectina. A substância foi trazida para a pandemia depois de, em abril passado, investigadores australianos terem conseguido in vitro destruir o vírus em apenas 48 horas.

PORTUGAL GASTOU €35 MILHÕES EM FÁRMACO INEFICAZ

A ivermectina faz parte da lista dos 100 fármacos considerados essenciais pela Organização Mundial da Saúde (OMS), valeu um Nobel da Medicina em 2015 e os seus defensores reclamam os ensaios clínicos em falta para que as agências europeias a aprovem contra as infeções de covid. Afirmam tratar-se de um imperativo ético, depois de, um a um, terem fracassado os medicamentos tidos como promissores. O mais recente, remdesivir, custou a Portugal €35 milhões, €2 mil por tratamento, e agora a OMS diz que é um fármaco com pouco interesse, a DGS fala em placebo e até o Infarmed confirma que de pouco ou nada serve: “Têm surgido algumas publicações e ações por parte do promotor do ensaio clínico, Discovery, que colocam em causa a relevância do uso desta terapêutica.”

“É um escândalo a ivermectina estar na gaveta. Inibe cinco mil vezes a replicação do vírus, só o fármaco. No ser humano há ainda o contributo antigénico, com a produção de anticorpos neutralizantes. A ivermectina não previne a infeção mas sim a doença e — o grande ganho — a resposta imunológica exagerada que mata os doentes”, explica António Pedro Machado, especialista em Medicina Interna no Hospital de Santa Maria, Lisboa. “Tenho um consultório, e todos os doentes, mais velhos, saem com ivermectina. Já tive de lá ir um dia só para passar receitas. Comprei 400 cápsulas e dei-as a uma colega que teve um surto num lar em Torres Vedras. Veio buscá-las a minha casa. Os 68 idosos ficaram todos infetados, todos tomaram, ao segundo e terceiro dia estavam todos apiréticos [sem febre] e uma semana depois estavam todos bem.”

O internista afirma que os casos de sucesso já levaram mesmo a preparar uma parceria com a autarquia para dispensar o fármaco a toda a população idosa residente. E foi também num lar que o médico de família Henrique Carreira alargou a prescrição. “Comecei a utilizar em novembro, com resultados fantásticos. Depois tive um surto num lar, em Porto de Mós, e, dos 29 idosos, 21 e cinco funcionários foram infetados. Ao fim de uma semana, metade estava negativa. O tratamento tornou-se viral”, ironiza.

Além das prescrições à distância para todo o país, Henrique Carreira tem sido contactado para ensinar colegas que procuram ajuda para travar infeções em lares. Chama-lhe “medicar contra a esperoterapia”. “Já terei tratado cerca de 200 pessoas. Nenhuma faleceu e só tenho duas hospitalizações, mas um dos doentes escondeu a infeção. Tenho ainda cerca de 50 pessoas — corretores imobiliários, profissionais de saúde, por exemplo — a fazerem profilaxia [tomar para prevenção]”, contabiliza.

SEGURANÇA COMPROVADA NOS ÚLTIMOS 30 ANOS

Almeida Nunes, internista num dos grandes hospitais privados de Lisboa, garante que a ivermectina é segura. “Sou ‘médico de cabeceira’, sempre com os doentes, e testei o medicamento durante anos contra a oncocercose [cegueira dos rios]. Contra a covid, já fiz várias dezenas de prescrições, no hospital, no consultório, por telefone. Como prevenção a quem está mais exposto ou a doentes com alto risco de complicações, como problemas respiratórios, de imunidade ou obesidade. Nas situações de positividade, a partir dos 50 anos medico logo.” O especialista só receia a inércia: “É preciso criar alguma regulação para que não seja uma coisa clandestina, porque pode levar à promiscuidade, e isso é perigoso.”

A segurança do medicamento, durante anos dado até a crian­ças, é também confirmada por médicos que já o tomaram. O antigo bastonário da Ordem dos Médicos Germano de Sousa fê-lo preventivamente durante mais de um mês, até esta semana, quando foi vacinado.

Para os argumentos a favor há factos contra. Os estudos não confirmam a capacidade de a ivermectina travar a infeção pandémica, e os que dizem o contrário, como avaliações observacionais e experiências clínicas, pecam por defeito no método ou na amostra. “Um ensaio clínico custará cerca de dois milhões de euros, e como a patente do medicamento já expirou não há um elevador social como para outros fármacos sob patente e com potencial de retorno para os laboratórios”, explica Pedro Ferreira, farmacêutico que tem dispensado ivermectina.

“Estamos a exigir à ivermectina a evidência científica perfeita que foi dispensada para todos os outros fármacos utilizados, e quase todos abandonados. A varfarina (um anticoagulante indispensável) era para matar ratos”, critica o internista António Pedro Machado. O médico resume o caso da ivermectina a uma metáfora: “Deixamos o adulto morrer afogado porque não lhe atiramos a boia aprovada apenas para crianças.”

CÁPSULAS FEITAS NA FARMÁCIA

A ivermectina não tem apresentação industrial, ou seja, as cápsulas têm de ser preparadas na farmácia a partir da matéria-prima, mais escassa desde o início da pandemia. Em todo o país, serão 150 a 200 os pontos onde esta ‘produção artesanal’ é possível. “Somos uma farmácia que não manipula muito, e no último mês já dispensámos 500 cápsulas para mais de 50 utentes, e a incrementar”, diz o farmacêutico Pedro Ferreira. “Para tratamento são precisas 10 a 12 cápsulas. Damos resposta em 72 a 96 horas, porque é uma produção personalizada, e já vamos na ordem das dezenas”, afirma Hipólito Aguiar, proprietário de uma das farmácias que mais prepara ivermectina. A terapêutica custa cerca de €30 e necessita de receita médica obrigatória. “A Hovione, uma empresa portuguesa que fabrica ivermectina em Macau, foi recetiva à ideia de fornecer maiores quantidades, para serem fracionadas no Laboratório de Estudos Farmacêuticos, da Associação Nacional das Farmácias, para abastecimento das farmácias. Serviria para democratizar o acesso”, adianta Pedro Ferreira. Também três laboratórios de genéricos já manifestaram interesse em produzir ivermectina.

Texto originalmente publicado na edição nº 2523 do Jornal Expresso – Acesso exclusivo a assinantes

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