A seca registada nesta altura está na origem da escassez de lampreia no Rio Mondego, cujo preço nos restaurantes tem subido a pique. Um investigador considera a situação “muito dramática” e diz que o futuro “não é promissor”.

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Natália Rodrigues, à frente do restaurante Boa Viagem, na Raiva, Penacova (Coimbra), há 30 anos, não se lembra de um ano tão mau, quando se fala de quantidade de lampreia e do preço a que é vendida.

Se, por esta altura, noutros anos, comprava aquele peixe que é marca da gastronomia de Penacova a 35 euros, hoje é vendido acima de 50 euros, levando os preços no restaurante a subir para a casa dos 90 euros por lampreia.

“Não há lampreia. Há muito pouca e não chega para as encomendas”, lamenta a proprietária do restaurante, realçando que, mesmo assim, os clientes não faltam, apesar de alguns optarem por esperar que o preço possa baixar.

Normalmente, explica, o preço da lampreia começa alto em janeiro, quando a época abre, e vai baixando até abril.

“Este ano, começou alto e ainda aumentou mais. Não me lembro de nada assim”, comenta.
O coordenador do projeto ANADROMOS, que monitoriza a passagem de peixes pelo açude-ponte do Mondego, Pedro Raposo, nota que “está a passar muito pouca lampreia” e considera que se está perante “uma situação muito dramática”, não apenas naquele rio, mas também noutros, como o Lima, no norte do país.

“O efeito que temos aqui é a falta de água”, explica o também investigador da Universidade de Évora/MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente), salientando que a seca leva à redução dos caudais do rio e a uma consequente ausência de lampreia.

“Não havendo água, esta espécie, que tem milhões de anos de evolução, já aprendeu que rios sem água não são um bom local para se reproduzirem”, frisa.

O investigador constata que este ano, cujos dados sobre a passagem da lampreia só estarão disponíveis no segundo semestre, não é um caso isolado e aponta para anos anteriores recentes, em que também houve uma redução drástica da população contabilizada que passou pelo açude-ponte, em Coimbra.

Em 2017, registaram-se apenas 295 espécimes, 717 em 2019 e 1.328 espécimes em 2020, os três valores mais baixos desde 2013, ano em que o projeto arrancou, e muito distantes dos valores máximos (mais de 20 mil em 2014 e cerca de 11 mil em 2018).

“O futuro não é promissor. Estando esta espécie em Portugal no limite da sua distribuição, o aumento da frequência de anos secos vai necessariamente contrair aquilo que são os seus efetivos populacionais”, salienta, frisando que o que está em causa não é a extinção da espécie, mas a sustentabilidade da atividade económica a ela associada – a pesca.

O baixo número de espécimes que tem passado o açude-ponte torna-se ainda mais relevante se se tiver em conta as especificidades da lampreia.

“As lampreias só se reproduzem uma vez na vida. Assim que saem do mar e entram na água doce para se reproduzirem já não voltam para trás. Se voltarem para a água salgada, morrem. Então, o comportamento do animal é evitar situações que não são favoráveis à sua reprodução. Se sente que o rio não tem condições para se reproduzir (com pouca água, há uma maior probabilidade de encontrar obstáculos e a predação é maior), não entra. O problema é que se falham o ano que têm que voltar ao rio para se reproduzir, no máximo, ficam mais um ano no mar e podem morrer sem se reproduzir, o que é dramático”, explica.

A somar a essa situação já periclitante está algo que os investigadores ainda não conseguem explicar, nomeadamente anos que não são secos, mas com contagem de espécimes abaixo do esperado – uma quebra que poderá estar relacionada com “um aumento da mortalidade da espécie no mar”.

“Se houver um ano mau de vez em quando, não há problema, mas se estão relativamente próximos, os pescadores podem prever o que pode acontecer daqui a seis anos [as lampreias passam quatro a cinco anos em estado larvar no rio]”, aponta.

O investigador realça que toda a monitorização associada ao projeto tem sido acompanhada de um trabalho próximo junto dos pescadores do Baixo Mondego e refere que hoje há uma maior consciencialização por parte destes em relação à sustentabilidade da sua atividade, mas que é fundamental uma “gestão mais racional do recurso” e um preço necessariamente mais alto junto do consumidor.

Lampreia, um ciclóstomo que esteve sempre nas mesas da nobreza portuguesa

A lampreia, que por estas alturas motiva festivais em torno da iguaria, está há muito presente na dieta portuguesa, em particular da nobreza, sendo o único ciclóstomo que figura no livro de receitas da Infanta D. Maria.

A importância da lampreia remonta à Idade Média, considerada pela historiadora Maria Helena da Cruz Coelho a “idade do ouro do peixe”, numa sociedade que vivia da terra, mas que também se dedicava “a arrancar” da água, fosse doce ou salgada, diversas espécies de peixes.

De acordo com a mesma historiadora, no artigo “A Pesca Fluvial na Economia e Sociedade Medieval Portuguesa”, as lampreias e outros peixes, eram presentes que se ofereciam “aos reis ou riqueza que eles próprios” reclamavam.

A lampreia era conhecida por ser um pescado “muito considerado pelos paladares dos mais poderosos”, nota também Sandra Gomes, na sua tese de mestrado na Universidade de Coimbra “Territórios Medievais do pescado do Reino de Portugal”, publicada em 2011.

A sua importância comprova-se, por exemplo, numa carta de foro, em Coimbra, em que se afirmava que por cada dez lampreias pescadas uma deveria ser dada a D. João I e seus sucessores, até ao primeiro dia de maio, servindo também este peixe como modo de pagamento do usufruto de terras, refere a mesma tese.

Mas já na primeira dinastia era dada muita atenção àquele ciclóstomo, com as listas da ucharia (despensa da casa real) de D. Afonso III, quinto rei de Portugal, a registarem 1.656 lampreias secas.

Apesar de ser apetecida nos repastos da nobreza, o historiador Francisco Ribeiro da Silva nota, num artigo científico publicado em 2001, que as lampreias, entre outros peixes, “entravam nas ementas de quase todas as famílias ricas e menos ricas”, em parte face às obrigações religiosas, nomeadamente em tempos de Quaresma.

O Livro de Receitas da Infanta D. Maria atesta a importância que a nobreza dava à lampreia, sendo este o único peixe digno de uma receita neste registo histórico, considerado o mais antigo livro de receitas português.

Ao contrário da receita tida hoje como tradicional pela Câmara de Penacova, no distrito de Coimbra, na altura a Infanta sugeria o uso de especiarias como o cravo, o açafrão e até “um pouco de gengibre”, sem esquecer a salsa, o azeite ou o vinagre, que estão presentes na mais comum das receitas de arroz de lampreia.

Num artigo científico publicado em 2016, o investigador da Universidade de Coimbra João Pedro Gomes nota também a sua presença no livro “Cozinheiro Moderno”, de 1785, da autoria de Lucas Rigaud, cozinheiro da Rainha D. Maria I.

Nesse livro, é apresentada uma “Sopa de Lampreia à Portuguesa” (o único peixe “à Portuguesa” daquele livro), em que a lampreia é refogada em postas, com especiarias, ervas, sangue guardado com vinagre, servindo-se sobre côdeas de pão frito.

Nesse mesmo documento, João Pedro Gomes realça a especificidade do consumo de lampreia na sociedade portuguesa à época, aparecendo documentado como relacionado “com os estratos mais privilegiados da sociedade”.

“Note-se o registo da despesa que a Câmara Municipal de Coimbra, no ano de 1608, faz com a preparação e envio de 75 lampreias assadas a alguns escrivães e desembargadores do Paço, em Lisboa, contemplando todos os gastos feitos com a preparação destas”, refere o investigador, apontando para os vários custos, dos ingredientes aos alguidares para assar, até ao trabalho pago a uma mulher que amanhou as lampreias.

Apesar dessa conotação à nobreza, o juiz da Confraria da Lampreia de Penacova, Luís Amante, salienta que a lampreia seria “consumida por toda a gente”, nomeadamente nas comunidades onde esta era pescada.

“A quantidade de lampreia que chegava era uma loucura. Era um produto que tinha três meses para ser consumido. Não havia reis que chegassem para tanta lampreia”, disse à agência Lusa Luís Amante.

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