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Marília Alves

A Rússia sempre foi cabeça de Império. Primeiro, dos Czares, e depois com os Soviéticos. O desejo imperialista está a ser reforçado por Putin, alimentando as disputas que estão a inflamar as consciências remotas dos russos pouco informados e como forma de desviar as atenções dos problemas internos, pois, como é sabido, para isso arranja-se um pseudo inimigo externo. E sem esquecer o interesse da Rússia em ser vista como um elemento maior nos principais palcos da diplomacia.

O presente conflito com a Ucrânia, deixando antever ameaças de guerra, mais não é do que fruto dessa visão imperialista, tendo em conta que era umas das mais importantes repúblicas da ex-União Soviética e a vários níveis, nomeadamente geográfico, agrícola e industrial. Tinha, inclusive, armas nucleares. Contudo, abandonou-as voluntariamente, enquanto a Rússia permaneceu uma potência nuclear. E este país já mostrou ao que vinha, quando anexou a Crimeia. Agora, a tendência é fazê-lo a outros países, para demonstrar o seu poder, por orgulho nacional e reconstituir o império soviético.

Desde a independência da Ucrânia, em 1991, após o colapso da União Soviética, a liderança em Kiev tem tentado aproximar o país do ocidente. Se a Ucrânia for um país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (designada por Otan ou Nato), todos os aliados serão coletivamente obrigados a defendê-la em caso de ataque russo: isso é o que prevê o Tratado da Otan. A situação estratégica seria, portanto, completamente diferente do que é agora, quando cabe à aliança e a cada Estado-membro decidir se prestarão apoio a Kiev e, caso afirmativo, de que modo. Ora, essa eventualidade é a argumentação que tem sido usada, ainda que a questão seja de geopolítica e de estratégia de domínio.

Quanto se sabe, a Ucrânia, neste momento, não está nem um centímetro mais perto da adesão à Otan e, precisamente, por causa da ameaça de uma invasão russa. Há um consenso básico dentro da Otan de não aceitar um novo membro que se encontre em situação de conflito. Já se aproximou no passado, assim como chegou a negociar a sua adesão à União Europeia. E tratam-se de possibilidades que não têm qualquer interesse para a Rússia. Quanto mais isolada a Ucrânia estiver do ponto de vista de ligação a organizações e tratados internacionais, mais vulnerável estará relativamente àquele país, que não quer perder o poder geoestratégico que já teve.

Um eventual conflito armado, na actualidade, a existir nunca terá nenhuma escala relevante. O tigre de papel faz a sua prova de vida, mas continua de papel. A Rússia sabe e bem que não teria qualquer possibilidade de vitória numa guerra contra a Ucrânia, pois esse país iria, certamente, ter o apoio da Europa e dos EUA, que têm exércitos poderosos e capazes de enfrentar a Rússia sem temor. A Praça Vermelha ainda não foi bombardeada por caças ocidentais porque têm a bomba atómica. E a única vantagem negocial que os russos têm, no presente, é apenas e só essa. Contudo, jamais será utilizada, porque a acontecer a Rússia passaria a ser apenas terra queimada. O que daria oportunidade a uma coligação mundial para combatê-la.

Tendo em conta as guerras que aconteceram nos últimos 30-40 anos, o ataque só é anunciado quando os aviões já estão em cima do alvo. É a estratégia que tem sido habitual. Se a intenção da Rússia fosse de facto invadir militarmente a Ucrânia, já o teria feito há muito. Em suma, Putin não quer a guerra, quer apenas efectuar um exercício de demonstração de poder, e tanto assim é que está a mobilizar o mundo.

 

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