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Marília Alves

Volvidos mais de 75 anos temos um cenário que parecia totalmente improvável até há quinze dias atrás. O mundo está outra vez na mão de um louco, um autocrata, que manda matar opositores e jornalistas, que oprime os seus cidadãos, que atacou a imprensa livre, que se apruma com autocratas e oligarcas, que apoiou Assad na Síria, que já tinha tomado a Crimeia, território ucraniano, pela força, e invadido a Chechénia, reduzindo a escombros Grozny, onde mataram 90 por cento da população civil.

E é este autocrata que invadiu, mais uma vez, um país soberano. Um país onde a URSS provocou, no passado, um genocídio através de uma fome terrível, o Holomodor, com milhões de mortos, que cedeu o seu arsenal nuclear em troca do respeito pela sua soberania, um país que conseguiu, e apesar de tudo, distanciar-se desse passado trágico provocado pelos soviéticos e que, no momento actual, é governado por um político democrata eleito em liberdade, com mais de 70 por cento dos votos (todas as organizações internacionais o reconheceram) e que tem demonstrado ter um sentido superior de estadista.

Temos, neste momento, ucranianos a vivenciarem o que nenhum povo ou território deveria vivenciar no século 21. Há vidas que a guerra já levou. Há mulheres, crianças e idosos a viverem no subsolo, em bunkers, e há famílias despedaçadas de um lado e do outro da fronteira ucraniana e, até ao dia de ontem (quarta-feira, 9 de março), há registo de 2 milhões e 200 mil refugiados. Ontem, também Zelenskii, o Presidente ucraniano, denunciou novo ataque contra uma maternidade e hospital pediátrico, tendo ficado crianças debaixo dos escombros.

Um factor importante é a resistência ucraniana, porque quanto mais tempo o invasor demorar a percorrer o território do invadido, mais baixas vai ter de material e maior desmoralização para as tropas invasores. E, de facto, os ucranianos têm resistido e lutado com uma bravura e coragem que espantou toda a gente e apesar de estarem a combater um invasor com maior capacidade bélica e a todos os níveis.

Aliás, ninguém, muito menos os russos, estariam à espera de uma resistência tão eficaz. É neles que reside a esperança e são também eles a vanguarda da luta pela liberdade e democracia, pelo que temos de lhes dar todo o apoio possível, porque – no limite – são eles que estão a defender a nossa liberdade e democracia. Também os russos que têm saído à rua contra esta guerra são extraordinariamente corajosos, tendo em conta que os espera, pelo menos uns acoites e a prisão.

Pela primeira vez, neste âmbito, a União Europeia tomou uma posição única e unívoca, tomando medidas consubstanciadas na entrega de armamento a um estado terceiro, o que nunca tinha sido feito na história da organização, nem da CEE sua antecessora. E isto é determinante para a resistência, sem ajuda e meios militares não há hipóteses. A União Europeia está a aplicar sanções à Rússia, a Alemanha, a principal consumidora do gás russo, já disse que vai deixar de precisar desse fornecimento a partir do próximo inverno. E, se estas sanções funcionarem, os russos brevemente estarão cheios de fome, mas agarrados às suas ogivas nucleares.

Também os EUA vêm a dar todo o tipo de apoio aos ucranianos, armas e dinheiro, etc. Dou-me conta que Biden está a fazer tudo isto e ainda tomou a decisão de auxiliar a Ucrânia revelando, sempre que possível, os planos russos. Aliás, o único que estava certo era ele, alertando que a decisão de invadir a Ucrânia já estava tomada há meses e que iria acontecer. É certo que fez isso porque tem meios de informação privilegiados e que a esmagadora maioria dos países não têm, mas divulgou, avisou, e essa foi a diferença, porque, muitas vezes, isso não acontece.

Verdadeiramente, quem ganha é a União Europeia, pois nunca houve um sentido de união tão forte. E a China que vai pagar mais barato o petróleo e o gás que vêm da Rússia. A primeira vai ganhar em termos de princípios e valores e a China em termos económico-financeiros.

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