Publicidade

Hoje as palavras que correm da Serra vieram de longe. Vieram de um lugar onde é difícil entrar e igualmente difícil sair. Foi difícil a saída destas palavras, que passaram fronteira camufladas e escondidas. O seu autor permanece a viver onde sempre viveu.

Num tempo em que os campos ideológicos mais parecem um campo de futebol, em que a política, em termos maiúsculos, serve apenas os interesses de uns poucos, acentuam-se as rixas entre direita e esquerda. Parece que o conceito de Democracia anda à deriva, prestes a soçobrar num lodaçal de ausência de ideias e prenhe de acusações entre direita e esquerda. As ditaduras são coisas terríveis, sejam elas de direita ou de esquerda, sempre que o Homem é escravizado pelo homem estamos perante coisas erradas, sem apelo ideológico possível. Cabe-nos ser capazes de defender a Democracia como garante de todos. Cabe-nos ser capazes de evitar os arremessos de argumentos vazios de conteúdo e cheios de acusações (como se um erro se justificasse ou resolvesse com outro…). Cabe-nos, sobretudo, ter espírito critico e não deixar que pequenos grãos de areia nos turvem a visão. Hoje deixo-vos com palavras vindas da Coreia do Norte. É um país pequeno, com uma história dura, as suas gentes vivem conforme podem (como no resto do mundo!!!). Este país assume-se como comunista e eu digo que Karl deve revoltear na tumba ou então acende mais uma fogueira no inferno… O seu líder, desde 2011, herdou o cargo do pai, que por sua vez o herdou do seu pai. Esta forma de sucessão de liderança elimina logo à partida qualquer hipótese de Democracia.

As palavras que hoje vos trago foram escritas por Bandi, significa pirilampo, é um livro de contos que relata a vida na Coreia desde a morte do primeiro dos Kim. Bandi, pseudónimo, continua a viver na Coreia e faz parte do comité central da organização oficial literária.

Sinopse

“Vivo na Coreia do Norte há cinquenta anos,

Como um autómato que fala,

Como um homem preso por um jugo.

Escrevi estas histórias

Impelido não pelo talento,

Mas pela indignação,

E não usei uma pena e tinta,

Mas os meus ossos e as minhas lágrimas de sangue.”

Sinopsar contos é tarefa inglória, por isso nem vou tentar. Fiquemo-nos pelas linhas gerais que costuram todas as palavras, formando uma obra de denuncia, dor, obediência cega, medo constante, inveja, silêncio ensurdecedor…

O livro é composto por sete contos que o autor foi escrevendo depois de longas horas no seu ofício de operário, durante a grande fome. Sabe que para verem a luz do dia estas palavras têm de sair da Coreia. É um familiar do escritor que consegue ajudar a sair os manuscritos e levá-los ao mundo. Cada conto relata uma história da vida em comunidade, da forma como o regime controla as gentes. Em cada história percebe-se que o regime estabelece alianças que lhe são muito vantajosas, com o medo, a mesquinhez, a cobardia, a ganância curta de vistas (por uma côdea de pão denuncia-se um inocente).  O regime está de tal forma organizado que a um simples gesto milhões de pessoas estão na rua, absolutamente organizadas e em sintonia.  A organização dos eventos definidos pela “tutela” obedece a um rigor extremo, tudo e todos podem ser sacrificados.

Boa semana com livros!!!!

Anabela Bragança

Publicidade

2 COMENTÁRIOS

  1. Bendita seja a liberdade em que vivemos,embora haja por aí muita gente apostada em dar cabo dela!
    Santa ignorância.
    Se querem experimentar, tentem entrar na Coreia…bem, se entrarem,também não sairão mais…
    É melhor não fazer como o gato…a curiosidade comeu- lhe a língua.

  2. A forma como a autora “branqueia” um dos regimes mais opressivos do mundo é notável. Mas ainda é mais notável porque a autora, pelo que tem demonstrado nos seus artigos, é uma pessoa culta e tinha a obrigação, digamos, de não confundir as suas simpatias politicas, que tem todo o direito de as ter, claro, com a literatura.
    Recomendo-lhe um livro, “Dentro do segredo” do insuspeito José Luís Peixoto. Se já o leu, pelos vistos não acreditou no seu conteúdo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui