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Marília Alves

As mulheres e os homens da minha aldeia andavam descalços ou de tamancos. Os filhos, quando não morriam no parto, padeciam de raquitismo, desnutrição, dos surtos de cólera e de tuberculose. Os que sobreviviam andavam, igualmente, descalços, mesmo nos rigores do Inverno. Passaram fome. Foram à guerra. Fugiram a salto para França, viveram nos bidonvilles, em condições miseráveis, mas ganhava-se para matar a fome aos filhos e pais que ficavam no pátria. Na minha aldeia, no Inverno, quando surgiam problemas de saúde graves, o médico tinha que ser levado em braços, porque a lama era tanta que nem o carro passava, nem o calçado aguentava. Frequentemente acontecia que as pessoas não tivessem dinheiro para chamar e pagar ao médico. E morria-se de morte morrida. Diagnosticar doenças era coisa de ricos. Quem tinha terras e as cultivava sobrevivia. O drama eram os assalariados e os idosos. O alimento consistia, quantas vezes, em côdeas de broa dura e rija que amoleciam no café de saco que faziam pela manhã; a sopa era feita com água, unto e alguns legumes. A sardinha, quando existia, era dividida em várias porções. Pensões de reforma não existiam. Eu vi pessoas idosas que iam a casa do vizinho com uma pinha para ser acesa e lhes permitir fazerem a fogueira nas longas e gélidas noites e manhãs de Inverno. Salazar, para o deixarem governar (não é por acaso que temos a ditadura mais longa da Europa), submeteu-se a uma elite endinheirada que mantinha o monopólio das riquezas – que eram muitas – por conta do império africano. Chegou a promulgar uma lei do condicionamento industrial. Os poucos senhores das muitas riquezas, vestiam-se a rigor e comiam em mesas de reis. E o povo tinha fome e mandavam-lhe os filhos para uma guerra inglória, garantindo as riquezas à elite das belas fatiotas e dos privilégios. Salazar nasceu numa família de tamancos, num local próximo do nosso em termos geográficos, mas depressa esqueceu a geografia dos pés descalços dos que tinham fome e frio. Dizer que não era corrupto, é uma anedota. Não há nada mais corrupto que uma ditadura, nada mais atentatório dos direitos mais básicos: garantem-se direitos inenarráveis a uma elite para retirá-los totalmente ao cidadão comum. O tal cidadão que se tivesse a ousadia de se queixar, arriscava-se à intervenção de uma Pide muito jeitosa e eficaz na injustiça e na tortura. Aos tribunais plenários e à prisão. Corrupto foi Salazar até ao tutano, assegurando os interesses de poucos para se perpetuar no poder. Dizem que deixou ouro. Nunca vi nenhum, só fome e miséria. E nasci apenas em mil novecentos e sessenta e nove. Os meus olhos viram pouco, mas, ainda assim, o suficiente para não esquecer. E ouvi da boca dos que tiveram fome e medo, dos que fugiram das perseguições políticas e passaram a fronteira a salto, dos que viram em África cabeças humanas empalhadas. Da boca dos que voltaram para contar a história, porque muitos não regressaram. Outros chegaram estropiados e já nada contaram, pois, para esses, a história tinha acabado.

Ditadura nunca mais. Mas cuidado, muitos sonham com ela.

 

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