Meera Chand, especialista britânica que lidera a investigação aos mais de 114 casos de hepatite aguda em crianças que já surgiram no Reino Unido, acredita que o encerramento de escolas e as limitações à circulação terão prejudicado o desenvolvimento do sistema imunitário das crianças.

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No Congresso Europeu de Microbiologia Clínica e Doenças Infeciosas, que termina hoje em Lisboa, Meera Chand afirmou que a disseminação de adenovírus comuns, “normais”, “que estão a circular”, podem ser a causa dos casos de hepatite em crianças.

Segundo a especialista, as crianças estão a ser expostas a estes vírus antes de terem tido contacto com outros agentes.

Segundo escreve o The Telegraph, Meera Chand destaca “um fator de suscetibilidade” que pode ter origem na “falta de exposição anterior, nesse grupo etário em particular, durante as fases formativas que atravessaram num contexto de pandemia”.

Vários casos na Europa

Tudo começou no Reino Unido, que conta com o maior número de casos (114). Em seguida, foram revelados casos em Espanha (13); Dinamarca (6); Irlanda (menos de 5); Holanda (4); Itália (4); França (2); Noruega (2); Roménia (1) e Bélgica (1), segundo dados Organização Mundial de Saúde (OMS).

Fora da Europa, Israel (12 casos) e Estados Unidos (pelo menos menos 9) juntam-se à lista.

As crianças afetadas têm de um mês a 16 anos, mas a maioria é menor de 10 anos e muitos são menores de cinco. Nenhuma tinha outra doença. Houve até ao momento uma morte decorrente deste fenómeno.

“As investigações prosseguem nos países onde há casos. Até agora, a causa atual da hepatite é desconhecida”, segundo o Centro Europeu de Prevenção e de Controlo de Doenças (ECDC)

No momento, uma causa infeciosa parece o mais provável, mas não foi estabelecido nenhum vínculo comum com alimentos contaminados ou tóxicos que pudessem ser identificado.

O que é a hepatite?

A hepatite é uma inflamação do fígado, como reação a um vírus, a tóxicos (venenos, drogas, etc.) ou a doenças autoimunes ou genéticas. A sua evolução costuma ser benigna e os seus principais sintomas – febre, diarreias, dores abdominais – resolvem-se rapidamente ou deixam poucas sequelas. Às vezes, de forma mais rara, podem provocar insuficiência renal.

Mas “o crescente aumento do número de crianças afetadas por uma súbita hepatite é incomum e preocupante” indicou ao Science Media Center britânico Zania Stamakati, do centro de pesquisa sobre o fígado e sobre o aparelho gastrointestinal da universidade de Birmingham.

Entre as possíveis pistas, o adenovírus foi detetado em pelo menos 74 crianças, dos quais 18 era o chamado “tipo 41”.

Vários países, como a Irlanda e Holanda, informaram sobre uma crescente circulação desses adenovírus. Porém, o seu papel no desenvolvimento das misteriosas hepatites não é ainda claro.

A possibilidade de uma relação com o SARS-CoV-2, que causa a COVID-19 e continua a circular, figura também entre as hipóteses.

A COVID-19 foi detetado em 20 dessas crianças. E outros 19 mostraram sinais de coinfeção: COVID-19 e um adenovírus.

Porém, “se essa hepatite estiver a ser causada pela COVID-19, seria muito surpreendente que não sejam mais numerosas dada a forte circulação do SARS-CoV-2”, destaca Graham Cooke, especialista de doenças infecciosas do Imperial College de Londres, ao Science Media Center.

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