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Marília Alves

Sempre tive o maior respeito pelo PCP, tendo em conta o passado de luta pelo fim da ditadura e incansáveis reivindicações pelos direitos dos trabalhadores, através da CGTP. E se nem sempre estive em sintonia com o partido, deve-se ao facto de não me representar em questões fracturantes. Ainda assim, o meu respeito manteve-se até à posição assumida face à invasão da Ucrânia pela Rússia, incorporando no discurso a propaganda – e como quem diz as mentiras – que os russos tentam vender ao mundo.

O apogeu disto tudo, foi atingido na passada quarta-feira, quando o PCP recusou estar presente durante a intervenção do Presidente ucraniano no Parlamento português. A líder parlamentar disse que Volodymyr Zelensky “personifica um poder xenófobo e belicista rodeado e sustentado de forças de cariz fascista e neonazi”. Na mesma linha, estão intervenções de Jerónimo de Sousa e de vários comunistas de base, que não se têm inibido de fazer ecoar a mensagem na comunicação social.

Ao ouvir e ler esses comentários, a maior parte de uma agressividade contra os que defendem a Ucrânia, com discursos de uma violência gratuita igual ao discurso do Kremlin, pergunto-me como é possível terem chegado a esta pouca vergonha? O comprometimento que traduzem para com a Rússia, protegendo o agressor e culpabilizando os agredidos, é – em abstracto –  completamente contraditório com a propaganda do PCP desde a sua origem, em que, alegadamente, combatiam o imperialismo, a opressão, a exploração, o saque, ou seja, todas as formas de cercear a liberdade dos povos.

Ora, o exército ucraniano não ocupou território da Rússia, foram os russos que ocuparam a Ucrânia, parecendo óbvio que, de acordo com a liminar razoabilidade e tendo em conta a propaganda supra-descrita, o PCP só poderia estar ao lado dos ucranianos. Assim sendo, uma vez que a sua posição é fora de todos os cânones da razoabilidade e da propaganda que dura desde a origem do partido, só pode ser entendida de uma forma mercenária:  estão descaradamente a soldo do Kremlin.

É triste para todos aqueles que foram torturados e assassinados pela Pide, militantes do partido que foram mortos por defenderem os valores que estão agora a ser achincalhados por pessoas que jamais deveriam esquecer os seus camaradas de luta e os princípios pelos quais morreram.

O assassinato de pessoas inocentes não tem nem pode ter qualquer perdão. Podem esgalhar todo o tipo de teorias ou teses sobre as explicações geoestratégicas pós-guerra fria. A verdade é só uma: o assassinato de inocentes é imperdoável e injustificável a qualquer título.

Estão a morrer pessoas minuto a minuto e nós sabemos apenas um pouco da realidade, quando os arquivos forem abertos vamos chegar a conclusões muito mais graves. Os ucranianos têm sido estóicos na resistência, é óbvio que têm tido ajuda, mas os russos em termos numéricos têm um potencial avassalador. Se a Rússia parar de lutar acaba a guerra. Se a Ucrânia parar de lutar é transformada num deserto.

 

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1 COMENTÁRIO

  1. A posição do PCP não espanta, ou espanta apenas quem não percebe a ideologia comunista e de como falhou por completo.
    O PCP lutou contra a ditadura de Salazar mas esteve quase a implantar uma ditadura comunista, não fosse o 25.11. Era a troca entre dois níveis de mau, digamos!
    O PCP é um partido que apregoa a sua “democracia” que comprovadamente deu no que deu.
    A posição do PCP foi coerente e também se resume à fase gasta: “Não se cospe na mão que nos dá sopa!”
    Portanto, o PCP foi absolutamente coerente, ao contrário do gelatinoso BE que acossado pela hecatombe do 30.01, correu atrás do prejuízo e saiu em “apoio” da Ucrânia e do seu presidente.

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