Crónicas de um Prisioneiro

Dia 15 – Paradoxo Civilizacional 


Uma das victórias mais nítidas da sociedade contemporânea tem sido, indiscutivelmente, o
aumento generalizado da “esperança de vida”, que no caso português já ultrapassou os 80
anos -80,78 – quando por alturas do 25 de Abril era próxima dos 65 anos.


Ou seja, reportados ao nosso caso, a esperança de vida à nascença aumentou um pouco mais
de 15 anos em 45, sendo assinalável que os dados do INE de Maio/18, nos ensine que, nos
últimos dez anos esse aumento se situou em 2,28 anos para a população em geral (2,56 para
os homens e 1,78 para as mulheres).


A esperança de vida ainda é superior para as mulheres, sendo que os dados de que falámos
acima, catapultavam a esperança média de vida para cima dos 90 anos.
Perguntaremos, naturalmente, as razões que pesaram para que esta situação fosse tão
assinalável, assim?


Eu penso:
– que pesou muito o avanço científico-laboratorial na produção de medicamentos;
– que pesou sobremaneira o nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS);
– que pesou o avanço generalizado da medicina;
– que pesou a melhoria significativa das condições de trabalho;
– e o aumento das condições de educação;
– e o aumento do nível de vida.


Outra questão bem diferente será a de saber se o aumento generalizado da esperança de vida
foi acompanhado de aumento do conforto no gozo dessa variável, que leva muitos -mas
muitos- dos nossos idosos a questionar se a vida vale a pena?


Eu penso:
– que sim em muitos casos, principalmente daquelas pessoas que podem continuar a viver nas
suas casas, acompanhados das suas famílias;
– que não naquelas situações em que a vida é passada, mas sem condições mínimas: de saúde
e/ou de acompanhamento.


Mas, de repente, com a chegada da pandemia Coronovírus Disease 19, vulgo Covid 19, eis que
as mortes identificadas no mundo já permitem concluir que a população-alvo é a população do
nível etário superior aos 70 anos!


Ou seja,
A situação actual configura, em si mesma, um paradoxo da nossa civilização, uma vez que, ao
mesmo tempo que esta cria condições para o aumento quase exponencial da esperança de
vida, também permite o aparecimento, desenvolvimento e circulação sem controle de uma
praga que, na prática, reduzirá, significativamente, esse alcançado êxito.


Por um lado dá-se; por outro lado tira-se…
… e faz-se manter, assim, em dia, o processo da selecção natural proposto por Charles Darwin
e Alfred Wallace, vindo na evolução da “Origem das Espécies” (1859), bem como todas asdiscussões que se lhe seguiram, algumas ainda actuais.

Dia 14 – Como “regar” a amizade 
Dentro dos mesmos pressupostos que enunciei na primeira
Crónica sobre a temática da amizade e da sua rega, eu gostaria de vos dizer
que, na minha opinião, por norma, a amizade antiga é a mais consistente que
existe; é a que mais dura…e é a mais sincera e inequívoca!
Penso que já todos tiveram experiências de pessoas que estão
há muito, demasiado tempo, longe, que não encontraram -nem contactaram- durante
períodos longos e, apesar disso, delas não se esqueceram nunca.
E também penso que já todos tiveram -ou têm- experiências complexas
de outros casos de pessoas amigas que, por isto ou por aquilo, ainda que
queiramos, elas e nós, não nos podemos ver…estamos isolados uns dos outros.
O caso que aqui vos relato diz respeito a uma situação terrível,
monstruosa, de alguém da minha amizade próxima há 65 anos; amigos desde a
nascença, praticamente, pelo simples factos de os nossos pais serem amigos e as
nossas mães também.


Crescemos juntos; brincámos juntos; estudámos juntos e
passeámos, viajámos, divertimo-nos juntos, também na companhia dos nossos
cônjuges, que entretanto se tornaram amigos.


Amizade amiga, mesmo; cumplicidade, também; e gosto
semelhante em muitas questões!


E de um momento para o outro eu perdi a possibilidade de
continuar a fruir, plenamente, desta amizade que tanto prazer nos dava,
mutuamente.
Vejam só:

Essa Pessoa foi a um estabelecimento de saúde para fazer uma
simples intervenção e saiu de lá cadeirante, como se diz no Brasil…


Nos nossos dias, no nosso SNS…
Entre peripécias várias, também provocadas pelo Covid 19, está
agora impedida de nos ter e nós -família incluída- também.
E foi por via dessa concreta situação que, em pouco mais de
24 horas, os amigos que são muitos (o nosso núcleo duro de amizade baseado em
Penacova e alicerçado nas lides em torno da Confraria da Lampreia) se juntaram
e reservaram um espaço hoteleiro praticamente inteiro, com condições especiais,
também para pessoas especiais, para aí poderem passar um fim de semana
inteiramente disponíveis para a ter connosco e para a fazer um pouco mais feliz,
mais crente, nesta hora mais difícil.
Estamos a preparar modos diferenciados de arranjarmos um
ambiente acolhedor, com actividades de canto, poesia e outros entretenimentos.
O OBJECTIVO É CRIAR ESPERANÇA E TER FÉ NA VIDA QUE AINDA HÁ-DE
VIR.
Vamos (e somos quase 30) construir um cenário que permita à
amizade fluir; ao desinteresse material vingar e ao nosso Grupo “ Trotília Oh
da Barca” afirmar-se como espaço de amizade e de solidariedade, continuamente.

 

 

… e vamos, estou certo, ficar todos muito mais
enriquecidos!



Dia 13 – Opção Saúde ou Seguro?

Yuval Noah Harari (o autor de Homo Sapiens e Homo Deus), num
artigo recentíssimo publicado pelo Financial Times, aborda “The world after
Coronavirus” e dá infoque à problemática de que hoje Vos falo.
Levantam-se, naturalmente, problemas importantes
relacionados com as liberdades lactu sensu consideradas, como, aliás, aconteceu
já em Portugal, quando se discutiu a questão do “estado de emergência”.


Só quem está muito pouco informado -e isso hoje em dia está
muito esbatido na nossa sociedade- é que pode discutir o facto de estarmos na
presença de “uma guerra sem tréguas” que tem que ter comando no combate e
estratégia e, também, unidade nacional na operação!
Quando colocarmos aos portugueses se eles optam, agora,
entre a saúde e a segurança, eles vão dizer, maciçamente, que hoje o problema é
saúde, saúde, saúde…


Só que, contrariamente ao que acontece por norma, hoje a
questão central da saúde pode não estar devidamente salvaguardada se não existir
segurança, disciplina, acolhimento das regras gerais necessárias!


Não restam dúvidas que estamos em presença de um regime
excepcional e, como tal, temos que ter assegurados meios coactivos que permitam
manter as questões que se entendem justas e generalizadas.
Ou seja, na minha opinião -modesta embora- esbate-se muito
neste momento a opção referida, porque, verdadeiramente, ela não se coloca com
equidade.


Se precisamos de ter um Estado que assegure a nossa saúde
colectiva e se essa saúde colectiva só pode ser alcançada com meios
securitários, então o nosso estádio de segurança tem que ser capaz de resolver
todos os problemas que se lhe põem.
Há que estar cheios de confiança nos nossos poderes
instituídos -leia-se Governo e Organismos do Estado- porque esta não é a altura
de promover discussões estéreis.
Vejamos:
– sem Governo (ou com Governo diminuído nos seus poderes) a
centralização do combate -absolutamente necessária- fica diminuída;
– com a Oposição a puxar para trás (que é como quem diz
contra por contra) serão inevitáveis os “passa culpas”, o que não se pode
tolerar;
– sem um enorme apoio às Forças de Segurança, estas sentirão
inibição na actuação, tal como tem acontecido nos últimos tempos;
– com uma dispersão na utilização dos meios, o País, no seu
todo considerado, ficará muito mais frágil.
Mas, se se colocarem problemas de “gestão individualizada”
das liberdades, aí sim, faz sentido chamar à colação o Estado de Direito que
todos constituímos e as suas regras, ainda que básicas.
E eu, sinceramente, não acredito que isso venha a acontecer entre
nós porque, objectivamente, a nossa democracia não é já tão imatura assim, como
por vezes se quer vender.
E perguntar-me-ão se isso já está a acontecer no mundo?
 
Claro que sim: na China; na Rússia; em Israel, nos EUA e no
Brasil, entre outros.

 

Dia 12 – As Companhias na “prisão”
 
Penso não estar enganado quando Vos lembro que a maior
dificuldade que temos na vida é falar de nós próprios … e falar -ou escrever-
sobre as nossas companhias, sobre os nossos amores ou ex-amores.
Só que nesta fase da nossa vida colectiva, individualizada,
não podemos, nem devemos, deixar de lembrar essas experiências.


Se repararem, os vídeos que circulam por aí dão-nos conta de
casais aborrecidos, zangados, fartos um do outro, a ralharem, a baterem, a
serem alvo de chacota, etc, etc.
Esta concreta questão do isolamento, obrigatório ou
voluntário, apanhou muitos, mas muitos casais desprevenidos e faz com que, em
muitas situações não resolvidas, haja agora tempo mais do que suficiente para
repensar as vidas.
Eu, profissionalmente, tenho acompanhado muitas situações de
divórcios ou de simples separações.
Na maior parte dos casos, o que resta, passada a vida em
comum -independentemente do seus períodos de duração- é um desconforto enorme entre
os seres; é uma carregada fonte de desprezo; é um cúmulo de zanga absolutamente
impensável na civilização contemporânea.


Quando as relações ficam comprometidas, as pessoas não
conseguem reter a parte boa de nada e só valorizam o que de mau se passou na
pendência, muitas vezes, como sabemos, relacionado com episódios de violência
doméstica.
Estou para aqui a falar disto porquê?
– Em primeiro lugar porque entendo que a nossa vida, SEM
FAMÍLIA, é algo que não se deve conseguir conceber;
– Em segundo lugar porque é necessário apelar aos casais
para que tentem mesmo prolongar os espaços de relacionamento para além da
separação;
– Em terceiro lugar porque naqueles casos em que existem
filhos, o pressuposto da separação deve ser o do afinco no comprometimento com as
responsabilidades parentais;
Poder-se-ão repensar as vidas comuns por via ou por causa deste
estado de “prisão”?
Eu penso, sinceramente que sim!
Porque a tal prisão em isolamento pode -e vai- em muitas
situações, permitir que os cônjuges consigam conversar; consigam ter tempo para
analisar os prós e os contra do desenlace, mormente nas situações em que o
casal tem filhos menores; porque, entre seres humanos inteligentes, faz sempre
falta ouvir os argumentos do outro; porque em “prisão” não vai haver tempo para
a prática mais comum das separações: a quebra da lealdade entre cônjuges.
Aliás, no contexto que sobrevirá ao tempo pré-crise, colocar-se-ão
aos casais, mormente aos casais mais jovens, problemas financeiros que, na
grande parte dos casos de hoje, têm dado oportunidades a soluções
simplificadas, por vezes falhas de respeito, de educação…até de aprumo ético.

 

 

… e se falo disto é porque já se me colocaram questões
conexas!
 
 
Dia 11 – E o regresso dos emigrantes?

Crónicas de “um prisioneiro”: E o regresso dos emigrantes?
Todos os da minha idade se lembram do que foi o regresso a
Portugal Continental das pessoas que estavam nos Países que faziam parte
integrante da nossa Pátria em 1974…agora designados de Palop’s.
Na generalidade foram tratados menos bem, no início do
regresso “ao puto” e, com os tempos a nossa Sociedade começou a integrá-los a
pontos de, passado, digamos, 10 anos, estarem já essas Famílias recompostas:
nos locais onde quiseram -ou puderam- instalar-se; nas escolas que escolheram
para os filhos; nas profissões que tinham anteriormente, etc, etc.
É bom recordar que essas Famílias (muitas delas da nossa
região) vieram embora dos locais onde estavam -salvo algumas, poucas, exceções-
porque na decorrência da guerra colonial, não encontraram nos novos países as
condições de paz que consideravam necessárias para viver e trabalhar.
Certo é que têm dado um contributo enorme ao nosso
desenvolvimento colectivo e, hoje, já quase ninguém se lembra de alguns
problemas que subsistiram no passado.
Eu tenho muitas amigas e amigos -e até familiares- que
estiveram incluídos nessa grande onda de solidariedade que acompanhou o êxodo.
Ora bem,
Aqui chegados eu gostaria de lembrar que está em curso -e
não é falado- um regresso maciço de Emigrantes, daqueles, até, que os poderes
instituídos incentivaram a sair do nosso País para arranjarem soluções de vida
digna no estrangeiro.
Esse estrangeiro serão 85 países diferentes!
Eu conheço muitos e eles estão, objectivamente, “nas cinco
partes do mundo”.
Muitos, também, da nossa região!
São pessoas que, na generalidade, não terão feito contribuições
para a nossa Segurança Social, nem pago impostos locais a não ser os relativos
às suas hipotéticas propriedades.
Mas contribuíram, sobremaneira, para o reforço da nossa
Balança de Pagamentos e, por via disso, para o atingir de metas e rácios que
nos ajudaram à “saída limpa” do programa a que estivemos submetidos pelos
nossos credores.
É bom nunca esquecermos isto!
São pessoas -e Famílias- que irão regressar pressionados por
uma guerra diferente, invisível, de que não se conhecem os resultados finais: a
“guerra do Covid”…
E são pessoas às quais vamos ter que saber dar ajuda no
regresso!
Também necessitarão de subsídios à reintegração; linhas de
crédito para refazerem as vidas (familiares e profissionais); apoio no natural
desemprego; e na procura de emprego; e nas situações da saúde ou da educação
dos filhos, etc, etc.
Mas, o que é certo é que nós ainda não ouvimos falar dessa
concreta situação; ainda está fora das preocupações do Governo e, mesmo, dos
Partidos Políticos.
Só que está em curso acelerado; os nossos concidadãos têm
direito ao seu País e eu espero, sinceramente, que não surjam agora os
problemas mesquinhos do passado…
… saibamos todos abraçar esta gente e dar-lhes o conforto
possível, que merecem, porque descrentes e desorientados já eles estão!

 



Dia 10 – Os dias da “chapa….”

“Chapa ganha, chapa gasta” é um ditado popular antigo que se
referia, na minha terra Penacova, àquelas pessoas que gastavam tudo quanto
ganhavam!
Estamos a falar de um contexto económico dos anos 60/70, em
que todos ganhavam mais do que mal, mas, ainda assim, uns havia que chegavam ao
fim do mês e tinham “excedente” que é como quem diz, poupavam e outros ganhavam
mal, também, mas eram mais consumista e, naturalmente, chegavam antes do fim do
mês e já lhes faltavam fundos, que é como quem diz, já tinham “déficit”.
E porque é que eu me lembrei disso agora?
É que agora, muitas pessoas existem que já gastam mais, por
norma, do que aquilo que auferem … e isso vai ser dramático.
– São os idosos pobres que durante as suas vidas de trabalho
pouco descontaram para a segurança social e, por via disso, têm reformas de
miséria, tristes, que não chegam hoje para uma alimentação condigna, nem para
pagar os medicamentos e aos quais a nossa sociedade ainda não conseguiu tratar como
devia ser;
– São os idosos remediados, digamos assim, que foram
reformados com situações mais ou menos razoáveis que as políticas orçamentais
transformaram em reformados deficitários que criaram cenários de vida que já
não podem manter;
– São os idosos com alguma capacidade de aforro, que se
habituaram a viver com um estatuto de consumo confortável, derivado do
recebimento de juros interessantes das suas aplicações e que, há já algum
tempo, não têm esse retorno e, portanto, já estão a consumir o capital, sem
saberem bem como é que as coisas vão terminar;
E são, também, todos -e são muitos, muitos- os que, mais
velhos ou mais jovens, mais formados ou menos formados, ganham de tal maneira
mal que o que auferem não chega, objectivamente, para os compromissos que têm!
E são, ainda – E ISTO TORNOU-SE, DE REPENTE, MAIS IMPORTANTE
AGORA – os micro, pequenos e médios empresários que têm sido sufocados, como eu
já escrevi, pelas decisões políticas dos últimos tempos, mas também se habituaram
a pensar que só o “ser empresário” já chegava para poderem ter vidas acima das
suas possibilidades, sem pouparem a riqueza que as suas empresas criaram e que,
nesta crise, como na anterior, rapidamente deixarão de ter capacidades para
manter os postos de trabalho dos que deles dependem, num contexto em que, ainda,
na maioria dos casos, nem os seus próprios poderão manter.
Ora bem
Antigamente, as pessoas eram pobres, ganhavam muito mal, mas
eram solidárias com os seus amigos, com os seus vizinhos e com os seus
familiares.
Os pequenos empresários eram solidários com os seus
colaboradores e sentiam que eles eram quase como seus familiares.
A solidariedade estava incorporada na nossa matriz
educacional.
O que hoje, decididamente, não acontece!

 

… estamos, de facto, na era do “salve-se quem puder” …

Dia 9 – Como “regar” a amizade?

Não sei bem explicar porquê mas estou a recordar-me mais,
agora, dos ditados populares e, sobretudo dos que me fazem lembrar as minhas
origens.
Mais um interessante:
“Longe da vista, longe do coração”!
Ora, reconduzindo esta afirmação redundante ao cenário do
nosso estado actual, perguntar-se-à como é que vamos fazer, nestes tempos de
isolamento, para manter as nossas amizades?
E vou transmitir aqui o que foi o meu dia de hoje:
Levantei-me às 7h45; a Ana dormia e eu assim a deixei ficar,
porque amigo não acorda amor; Tomei o pequeno almoço (croissant com fiambre e café
de saco); vi o Telejornal na RTP 1; comecei a minha “Crónica de um Prisioneiro”
e enviei-a para o Pedro Viseu (amigo de longa data, conterrâneo; pessoa
daquelas a que se dará valor um dia, como é costume acontecer na nossa terra).
Peguei no WhatsApp e enviei a crónica de ontem para um
mailing list que preparei, onde só há amigos.
Estes meus actos matinais constituíram uma primeira “rega” de
amizade.
Os meus amigos foram respondendo, agradecendo, incentivando,
dando dicas para outras crónicas; ou seja, a minha rega com crivo leve matinal deu-me
contrapartida quase simultaneamente; alguns telefonaram e ouvimos as vozes uns
dos outros; uns estavam aborrecidos com a situação; outros queriam conselhos
jurídicos e fomo-nos animando uns aos outros.
Perto do meio dia recebi uma mensagem especial, de uma amiga,
Colega da Faculdade: a Isabel Duarte. Dava-me conta de que a sua mãe (D.
Beatriz/Mamy) lhe mandou disser, acerca da Crónica sobre o vírus solitário a
que devemos virar o cu: “Aiai! Só daquele malandreco”…
E eis que a minha rega leve sobre a amizade teve como
retorno o efeito de uma chuva em tempo de Verão muito seco.
A Mumy tem uma provecta e respeitável idade e é como se
fosse a mãe de nós todos, que nos conhecemos já nos idos de 1973…
Mas a chuvada ia melhorar, significativamente, quando a
própria da Isabel me enviou junto com a mensagem este poema a que chamou
“vulgar” e a que deu o título de GOSTO DESTA COZINHA, que dizia assim:
“Gosto desta cozinha à noite/ Quando os cheiros se misturam
em paz/ Na sua exuberância/ E já a água ferve para aquecer as camas.
Ali em frente há uma brisa a entrar/ Que nos revela a dama
da noite/ E aquele manjericão ou a hortelã do parapeito.
Por sobre os sons pastel reflectem-se / O verde azulado das
couves/ A acidez das acelgas/ O doce sabor dos coentros.
Foram tantos os amores que por aqui passaram/ Beberam um café,
um vinho tinto/ despertando para o riso/ No prazer único de nela se estar vivo”.
Imaginem, pois, como resultou em cheio esta “rega” de hoje
numa amizade tão amiga!

 

Para mim nasceu uma Poetiza, indiscutivelmente, e ela é
Minha Boa Amiga … e, imaginem bem, amiga de Penacova.
Dia 8 – Os Bancos vão ajudar?
A propósito da crise (sem precedentes, na minha modesta opinião) que se
avizinha, temos sido inundados com o “conto de fadas” que induz a ideia de que
a Banca nos vai ajudar!
A minha primeira pergunta é a de saber se esta indução é seria?
E não o é porque a Banca, como é sabido, tem sido ajudada por todos nós
portugueses, independentemente das nossas disponibilidades; através do
mecanismo do Fundo de Resolução estamos, todos, a sustentar a Banca e a
engordar os banqueiros; esses, objectivamente, desde a crise que eles próprios
criaram, têm vindo a ser “ajudados” pelo Governo, sem nos perguntar se os
queremos apoiar e sem equacionar, correctamente, se eles merecem qualquer tipo
de ajuda, o que não acontece noutros sectores da economia que, entretanto,
tiveram que encerrar (p.e. A Sorefame -que fabricava comboios e outro material
circulante- onde trabalhei).
A segunda pergunta é a de saber se, algum dia, a Banca já ajudou alguém?
E a resposta é negativa, porque sabemos todos que a Banca, os banqueiros -e
mesmo os colaboradores de topo- têm na sua génese ajudar, mas a si próprios; os
clientes servem enquanto consomem os produtos lucrativos, enquanto não conferem
os extractos mensais; deixam de servir quando precisam de alguma coisa e não
têm colaterais de suporte às operações.
A terceira pergunta é a de saber como é que o Governo vai impor à Banca
isto ou aquilo?
Para concluir que, tirando à CGD, o Governo não vai conseguir impor nada;
justamente nada!
Porquê,
– porque as regras do funcionamento da Banca já não estão no domínio do
nosso Governo;
– porque a política europeia da concentração bancária criou grupos
bancários com poderes absolutamente desproporcionados, poderes esses -eles sim-
que mandam nos governos e nas políticas de funcionamento do sector bancário;
– porque o sector bancário privado se rege, exclusivamente, pelo critério
do lucro e, dentro deste, pelo do lucro mais fácil;
– porque a Banca que opera no nosso País, na sua maioria crítica, nem
sequer é dominada por interesses portugueses em muitas situações o é por meros
charlatões;
– porque banqueiros presos, que desenvolveram esquemas intoleráveis…ainda
não os há.
Ou seja,
Não avance o Governo com a ajuda necessária, que vai ser indiscutivelmente
monstruosa;
Não venha ajuda europeia rápida para que o Governo o possa fazer, estamos
em crer, agora com o apoio de todos os nossos políticos, até dos incoerentes;
Não seja o Governo OBRIGADO POR NÓS TODOS a promover ajuda – e a fundo
perdido a quem precise – sem olhar mais a critérios estéreis de superavit
orçamental;
Não deixemos de nos querer comparar a economias fortes, que já estão fracas
elas próprias, também,
Que a falência Generalizada será alcançada num ápice!
… e antes disso, já se terão ido as micro, pequenas e médias empresas,
que os Governos sucessivos têm sufocado à exaustão, por meros critérios
ideológicos e o sucesso aparente tem levado à ilusão.
Entretanto, que se prenda o Centeno à cadeira do Ministério das Finanças,
porque não estará nada interessado em se manter no lugar…uma vez que
situações como as que aí vêm não interessam nada aos curricula de vaidosos tão
arrogantes.
Dia 7 – Vírus solitário
Hoje é Sábado, dia sétimo da minha prisão
Lá fora só se vê a alma transparente do Vírus
Que bate com a cabeça tresloucada
Nos nossos cus
As ruas e avenidas estão desertas
As janelas das casas, todavia, abertas
A arejar
A manhã está solarenga
O vento sereno com ar de ameno
E o Covid anda de um lado para o outro, em rodopio
Em estado de macambúzio aborrecido
Anda sozinho no ar
Sem ter pessoas com as quais falar
Ninguém lhe passa cartão
Todos já o conhecem mais do que bem
Porque o Povo é sábio
E age com o impulso da sua astúcia
… não só com base no que ouve na rádio!
Foi assim, inspirado no vírus maldito que acordei hoje de manhã.
Quando abri as janelas de casa e olhei para o Estádio Universitário, não
havia ninguém, mais parecendo que estava no meio do deserto, sozinho, com ar de
desperto.
Na minha fantasia sonolenta, aparecia o bicho tresloucado, procurando
pessoas para se lhes pegar.
Andava furioso porque queria sangue e ele não havia…para se lhe dar.
Aí eu comecei a admitir que a nossa guerra contra este inimigo,
provavelmente, seria ganha com desprezo; com sentido de confiança na nossa
solidão; dando mão a uma cortesia que já não ouvia enunciada há muito tempo:
virar o cu!
É isso mesmo, pensei inquieto: se virarmos o cu ao maldito (que é como quem
diz se lhe não dermos a frente da nossa confiança), ele vai ficar angustiado,
entrará em convulsão e espalhar-se-à ao comprido como se estivesse em
contramão.
Aqui não se aplica o ditado antigo (relembrando a grande guerra e a
eficácia alemã nas trincheiras) sendo objectivamente vencedor o sentido de
“virar o cu ao inimigo”!
Façamos isso mesmo; continuemos em casa, naquilo a que já chamei solidão
solidária…
…e envergonhemos o vírus com o nosso desprezo.
Dia 6 – Cobardes, valentes ou conscientes?
Cobardes, valentes ou conscientes?
Nos meus tempos de rapaz, existiam modos peculiares de expressarmos aos
outros que eles tinham medo, como, por exemplo “és um cagarolas”, “estás com
muita cagufa”, “tens as calças borradas” ou “mete-te mas é em casa”.
E nós -os do meu tempo- crescemos com esta ideia fixada de que um homem,
beirão, se tivesse medo, era um “medricas” “medroso”…até “maricas”, vejam lá.
Evidentemente -e ainda bem- que os tempos mudaram muito e, provavelmente,
ter medo ou estar com medo é mais equiparado a receio…e não há dúvidas de que
os tempos que correm provoca nas pessoas, pelo menos, muita preocupação.
Não estou a referir-me aos dias de hoje, da gestão desse Coronovírus de
merda que nos está, pura e simplesmente, a lixar a vida!
Estou a referir-me aos concretos dias de hoje, lembrando-me -e tendo
presente- aquilo em que transformaram as vidas do consumo fácil; as
metodologias da governança irresponsável; o descalabro que se vive no ataque às
questões climáticas; os usos abusivos das tributações dos rendimentos, etc, etc,
etc.
Regressado, todavia, ao tempo concreto do meu sexto dia de isolamento
voluntário, do meu tal estatuto de “prisioneiro”, há que reflectir, então, se
estamos -todos os recolhidos- a tomar atitudes de cobardia pura ou, se pelo
contrário, estamos mas é a dar um contributo inexcedível para o estancar da
propagação do tal maldito vírus?
Eu não sou Profissional da Saúde, mas falo com eles: com os meus Amigos
desta área (que são muitos) e, também, com família próxima, que me preocupa
sobremaneira.
E o que me dizem todos -praticamente com os mesmos argumentos- é para não
sermos agentes activos da propagação; para admitirmos, sem reserva, que os
contactos se devem evitar, preferencialmente, ao nível do inexistente; que a
pandemia tem mostrado que o vírus Covid 19 é de transmissão rápida e eficaz no
seu propósito de provocar a mortandade generalizada.
Ou seja, que, agora, “meter-se em casa”, ao contrário do meu tempo de
rapaz, constitui uma atitude inteligente, solidária e absolutamente
indispensável.
Não é -bem pelo contrário- uma atitude cobarde; É, isso sim, uma atitude de
valentia e, acima de tudo, uma atitude consciente!
Para utilizar o parafraseado dos políticos, deixemos aos Profissionais de
Saúde o que é, de facto, da saúde, DA SAÚDE PÚBLICA.
Desprezemos o bicho oculto!


Dia 5 – Refugiados ou Apátridas 
As notícias que nos vão chegando da linha da frente
dos Campos dos Refugiados são extremamente preocupantes.
Espelham a realidade triste destes tempos em que o ser
humano, enquanto tal, só vale enquanto e útil a quem detém o poder…
Nestes campos – muito parecidos a outros que se
relembram, hipocritamente, com pompa e circunstância – NÃO HÁ NADA!
Não há respeito;
Não há comida;
Não há aconchego;
Não há remédios;
… nem há vida, nos termos em que ela se devia
entender na contemporaneidade: com direitos.
E se assim é o que esperar se o primeiro – que já deve
existir por estas horas – ficar infectado com o Coronovírus maldito?
… morrem todos, pois claro!
Estes locais sinistros são o produto de décadas – para
não dizer séculos – de políticas tendentes a manter os Africanos – e não só- lá
no seu canto, governados por ditadores diplomados “nas democracias europeias”,
tratados abaixo de cão, como costuma dizer-se e espoliados por mecanismos
horrorosos de corrupção.
Quando tudo foi roubado; quando a riqueza foi
direccionada para a classe dirigente dos interesses particulares, que não da
sociedade; quando nós europeus deixámos de precisar deles; e quando as guerras
fabricadas eclodiram,
Aí vai de se lhes dizer que não, que não podiam vir
para cá, que tinham era que morrer lá.
E o “lá” é a Líbia, a Mauritânia, o Senegal, o Congo,
etc, etc, etc.
Ficou à vista a verdade da política de cooperação à
europeia!
… e sinistramente falando, será com base nesta ideia
de que os Refugiados devem é ir para casa, que os vamos deixar morrer aos
milhares … como fizemos no holocausto.
Triste sina a de quem só tem a roupa rota que trás no
corpo!
Que nem Pátria tem …
Dia 4 – Os Profissionais de Saúde 
Nunca, ao longo de 66 anos de existência me senti tão
preso, no sentido de não poder fazer o que quero, onde quero, como quero.
E, na verdade, em tempos que já lá foram, muitas vezes
fui repelido, coagido…
Como estou em casa -qual recluso- e daqui não sairei
tão depressa, a não ser que algo aconteça de inesperado, decidi ir escrevendo
estas crónicas, mormente dirigidas às pessoas da minha terra, Penacova, para
publicação nesse “baluarte do regionalismo assertivo” que se designa por
PenacovActual, do Pedro Viseu.
Eu não sei bem se sabem todos os meus conterrâneos que
os nossos Profissionais de Saúde estão a trabalhar em condições desumanas,
dignas de terceiro mundo atrasado!
Sem fardas higienizadas; sem máscaras; sem roupas para
mudar; sem sapatos, sem, sem, sem…
São as pessoas do “nada ter”.
São as pessoas do “tudo dar”.
E serão, naturalmente, aqueles que nos vão SALVAR!
É (são) uma classe profissional que tem sido atingida
na sua honra mais profunda por este poder instituído mesquinho, que só pensa em
si, pensando no Orçamento da babuje, embora fazendo juras de amor ao SNS, ao
mesmo tempo que cria divisionismo ilusório entre este e os sectores privado e
social.
Os nossos Médicos; os nossos Enfermeiros; os nossos
Técnicos de Saúde; os nossos Auxiliares, Administrativos, Motoristas, etc, etc,
NÃO MERECEM esta cadeia atrasada de dirigentes que não dirigem, umas vezes
porque não sabem, outras porque não podem…e outras porque são reprimidos para
o não fazer.
No entanto, apesar de tudo isto, ELES saem de casa
para os seus postos avançados, todos os dias, partidos por dentro por deixarem
os seus filhos – alguns (muitos) de leite – sem saber bem se quando regressam
estarão sãos ou infectados!
Ergamos-lhes o nosso ORGULHO por os ter; por serem
nossos; do nosso Povo.
Dia 3 – … E como fazer com os nossos netos?
Esta questão do Coronovírus – ou do Apocalipse estável, como diz o meu
amigo Vasco Santos, Psicanalista, socorrendo-se de Karl Kraus, é uma epidemia
que:
“…reconduz-nos a um noturno vulgar, reenviando-nos à experiência medieval
da praga, sempre ligada à noção de poluição moral, procurando-se ontem como
hoje, um objecto contrafóbico oriental alheio às comunidades atingidas”.
Mas, para as pessoas como eu, já acima dos 66 anos, é uma desgraça que a
sociedade contemporânea criou, com tanto desleixo, tanto alheamento, tanto
desprezo, tanta volúpia, tanta impreparação; tanta discriminação.
E porque é que eu penso assim:
1.    Porque não se pode
admitir à China do Mao-Tse-Tung que no seu percurso pr’o “capitalismo” abandone
predicados de limpeza, de apoio mínimo ao seu Povo;
2.    Porque não se pode
admitir que um mundo tão evoluído não consiga “estancar” uma praga como esta,
depois de ter sido contemporânea de outras “HIV, Vacas Loucas, Ébola, Gripe
A…”, com as quais não aprendeu nada;
3.    Porque neste mundo
contemporâneo o mais importante não pode ser outra coisa que não seja A SAÚDE;
4.    Porque quem paga 50% do
que ganha em impostos DEVE EXIGIR a quem governa que uma parte muito
substancial disso seja, justamente, para A SAÚDE!
No entanto, pese tudo isto, a grande verdade é que as proporções atingidas
-e em curso- para o vírus, NÃO PODEM deixar de termos em linha de conta que nós
(da nossa idade) já somos mais o passado, enquanto que outras gerações são,
indiscutivelmente, o futuro.
Já nem falo nos nossos filhos; falo é dos nossos netos!
ESSES -no meu caso 5- com os quais eu e a Minha Mulher Ana temos construído
uma sólida, saudável, frequente e linda relação, vão ter que esperar pelo fim
do flagelo para retomarmos um percurso de aprendizagem a todos os níveis
relaxante e gratificante.
Porquê:
Porque dizem -e ensinam- os melhores procedimentos que esta relação
funcional deve ser interrompida, a bem da Saúde Publica e eu acredito que assim
é e RECOMENDO aos avós do meu tempo que assim o façam, sem discutir ou
questionar os filhos.
Quando acabar tudo isto, o André já estará com o namoro avançado; a
Madalena já dançará ballet em pontas; a Sarinha já falará francês; o Martim já
correrá e a Teresinha já andará…
… e nós, se tudo correr bem, ainda estaremos a tempo de lhes dar uma
grande ajuda.